ODS 1
O impacto silencioso das mudanças climáticas no direito à moradia


Quase 95 milhões de pessoas no Brasil vivem sob a ameaça de perder suas casas devido à crise climática, drama ainda à margem do debate público


Enquanto o Brasil debate economia e agronegócio, quase 95 milhões de pessoas vivem sob uma ameaça que ainda não entrou verdadeiramente no centro do debate público: o colapso climático como destruidor sistemático da moradia. Enquanto os meteorologistas apontam para o Pacífico Equatorial com alarme crescente, uma pergunta persiste fora dos boletins oficiais: o que acontece com quem não tem para onde correr quando a casa desaparece?
O Brasil entra no segundo semestre de 2026 diante de projeções alarmantes. Segundo nota técnica elaborada pelo CPTEC/INPE, INMET, Funceme e Censipam, há mais de 90% de probabilidade de um novo El Niño se estabelecer a partir de agosto, podendo persistir até 2027. O modelo climático do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas projeta anomalias que podem equiparar o evento aos “super El Niños” de 1997 e 2015. A pergunta que o país ainda se recusa a responder com seriedade: e as moradias?
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O fenômeno funciona como uma gangorra climática. Enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam secas severas, o Sul sofre com chuvas extremas e enchentes. O Rio Grande do Sul já conhece esse outro extremo.
As enchentes de abril e maio de 2024 afetaram cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, causaram 183 mortes e destruíram mais de 100 mil moradias. Estudos internacionais levantados pela ANA indicam que as mudanças climáticas tornaram aquelas chuvas duas vezes mais prováveis.
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Veja o que já enviamosDois anos depois, ainda há famílias vivendo em situação de emergência habitacional. Porque se você já morava em um barraco feito de materiais não duráveis, com piso de terra e sem banheiro, sequer apareceu nos mapeamentos oficiais de quem perdeu a moradia. Quem mais sofre com a crise climática e quem mais demora para se recuperar são sempre os mesmos: famílias negras, periféricas e de baixa renda.
Segundo dados da Fundação João Pinheiro publicados pelo Ministério das Cidades em abril de 2026, o déficit habitacional quantitativo brasileiro atingiu 5,7 milhões de domicílios. O dado é apresentado como avanço histórico. Mas o que significa “menor patamar histórico” quando ainda existem quase 6 milhões de famílias sem moradia adequada? E as 26 milhões de famílias contabilizadas no déficit qualitativo?


Esses números não representam apenas um problema habitacional. Representam famílias vivendo em imóveis precários, em áreas de risco, sem drenagem adequada ou comprometendo grande parte da renda com aluguel. São as mesmas famílias que aparecem em maior número entre as afetadas por desastres climáticos.
Em 2025, desastres climáticos afetaram diretamente mais de 336 mil pessoas no Brasil e geraram prejuízos de R$3,9 bilhões, segundo o Cemaden. E 92% dos municípios brasileiros já relataram danos causados por eventos climáticos extremos.
A verdade é que precisamos sair da lógica exclusiva de produção de novas unidades habitacionais e começar a construir uma política habitacional capaz de enfrentar a complexidade do país: famílias em barracos, em zonas de risco, pagando aluguéis altos e vivendo em cidades profundamente desiguais. Hoje, nossa política habitacional e o financiamento urbano não têm a profundidade necessária para responder ao desafio climático.
A face mais visível da crise são as enchentes. Mas a outra ponta da gangorra é silenciosa. No Norte e Nordeste, o El Niño intensifica secas que corroem as condições de moradia de formas menos espetaculares: rachaduras estruturais, colapso de cisternas, deterioração de moradias expostas ao calor extremo e abandono forçado de áreas rurais. Não há helicópteros de resgate. Há êxodo silencioso, superlotação urbana e aprofundamento do déficit habitacional.
O impacto mais forte das mudanças climáticas sempre chega às populações historicamente mais vulnerabilizadas: pretos, periféricos, indígenas, quilombolas, mulheres, crianças e pessoas em situação de emergência habitacional. Não se trata de coincidência geográfica. Trata-se de uma escolha estrutural.
O artigo 6º da Constituição Federal reconhece a moradia como direito social. Mas existe um abismo crescente entre o texto constitucional e a realidade de quem perde a casa em uma enchente, em um deslizamento ou em uma seca que torna a terra inabitável.
Durante a COP 30, organizações como TETO Brasil, WRI Brasil, ONU-Habitat, Habitat para a Humanidade Brasil e Fundação Tide Setúbal lançaram a iniciativa Re.Habita para conectar explicitamente as agendas de clima e habitação, ainda tratadas separadamente nas políticas públicas brasileiras.
Dados do Panorama Climático, estudo publicado pela TETO Brasil em 2025, mostraram que 35% das comunidades entrevistadas relataram perda de esperança após eventos climáticos e 47% apontaram impactos negativos na saúde mental. Uma casa destruída não é apenas um bem material perdido. É pertencimento, identidade e projeto de vida.
Pesquisadores e organizações convergem em torno de medidas urgentes: incorporar critérios de vulnerabilidade climática ao Minha Casa, Minha Vida; condicionar novos empreendimentos à avaliação de risco climático; revisar sistemas de proteção contra enchentes; e garantir assistência técnica gratuita para adequação de moradias em áreas de risco.
Mesmo com o novo arcabouço fiscal representando avanço em relação ao antigo teto de gastos, o Brasil ainda enfrenta um dilema estrutural: a crise climática exige investimentos públicos massivos e contínuos, enquanto o regime fiscal permanece orientado pela contenção de despesas. Isso limita a capacidade de financiar transformações urbanas estruturais, especialmente em favelas e comunidades onde saneamento, infraestrutura resiliente e adaptação climática permanecem insuficientes.
Em um contexto de enchentes, ondas de calor e eventos extremos cada vez mais frequentes, tratar a moradia apenas como política econômica ou social já não responde à dimensão do desafio. É necessário reconhecer a habitação como infraestrutura essencial de proteção climática, capaz de salvar vidas, reduzir desigualdades e fortalecer a resiliência das cidades.
A gangorra climática vai se mover novamente. O Sul vai alagar. O Norte e o Nordeste vão secar. E famílias que já vivem no limite terão suas casas destruídas ou tornadas inabitáveis.
A pergunta que o Brasil precisa responder antes que isso aconteça não é técnica. É política. É a ética. O Estado brasileiro está realmente cumprindo seus compromissos com os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais da população mais vulnerabilizada?
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Camila Jordan e Naira Wayand
Camila Jordan, formada em engenharia ambiental pela Universidade Nova de Lisboa e com mestrado em administração pública na Universidade de Columbia, é urbanista e ativista; foi CEO da TETO Brasil (2020-2024), onde hoje atua como diretora de Relações Institucionais. Naira Wayand, com MBA e Pós-Graduação em gestão social, políticas públicas e direitos humanos. é pesquisadora da RIPERC, rede internacional de pesquisa sobre clima, professora de Justiça Climática na PUC Minas, e fundadora e conselheira do Instituto DuClima






































