ODS 1
Turquia e Austrália assumem presidência compartilhada da Conferência do Clima sob pressão
Reunião na Alemanha é o primeiro teste da inédita liderança dividida da COP31 em meio a guerras, tarifas e crise energética
(Cínthia Leone*) – Pouco mais de seis meses após a COP30 em Belém, negociadores da Convenção do Clima da ONU voltam a se reunir entre os dias 8 e 18 de junho em Bonn, na Alemanha. Tradicionalmente vista como uma etapa técnica de preparação para a COP seguinte, a conferência deste ano terá peso político especial: será o primeiro grande teste da inédita presidência compartilhada da COP31 entre Turquia e Austrália, um arranjo sem precedentes na história das negociações climáticas da ONU.
O encontro acontece em meio a um ambiente geopolítico particularmente turbulento. Conflitos armados, a maior crise energética da história, disputas comerciais, dificuldades econômicas e divergências crescentes entre países ricos e em desenvolvimento vêm pressionando a diplomacia climática. E isso ocorre justamente no momento em que o foco das discussões começa a migrar da negociação de compromissos para sua implementação prática. Em Bonn, a principal questão será saber se os avanços obtidos em Belém conseguirão sobreviver a esse contexto mais fragmentado.
Leu essa? Mapas do caminho para fim dos fósseis e desmatamento zero no caminho para a COP31
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Entre os principais temas da agenda está a continuidade dos processos lançados pela presidência brasileira da COP30. O Brasil apresentará atualizações sobre os “Mapas do Caminho” para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para o combate ao desmatamento e à degradação florestal, iniciativas que receberam centenas de contribuições de governos, empresas, especialistas e organizações da sociedade civil ao longo dos últimos meses. A expectativa também é de novos sinais sobre como a COP31 pretende tratar o tema da transição energética e o papel desses roteiros no processo multilateral.
Outro destaque será a consolidação da Agenda de Ação, que ganhou novo protagonismo em Belém ao ser transformada em um instrumento voltado à implementação dos compromissos assumidos pelos países. A Turquia deve apresentar sua estratégia para dar continuidade a esse trabalho, com foco em áreas como eletrificação, industrialização verde, economia circular, sistemas alimentares e cidades resilientes. O movimento é acompanhado de perto por governos e observadores que enxergam na Agenda de Ação uma das principais apostas para acelerar resultados concretos em um momento de crescente dificuldade para alcançar consensos nas negociações formais.
O encontro também marcará a primeira reunião do Fórum Integrado sobre Mudanças Climáticas e Comércio (IFCCT), iniciativa criada pelo Brasil durante a COP30. O novo espaço pretende aproximar as agendas de clima e comércio em temas como transparência nas contabilidades de carbono, setores industriais de difícil descarbonização, cadeias produtivas estratégicas e políticas industriais verdes. A expectativa é que o fórum funcione como uma plataforma permanente de diálogo entre negociadores da Organização Mundial do Comércio (OMC) e diplomatas de clima que estão lidando com temas de impacto comercial, além de representantes de instituições ligadas ao comércio internacional.
Na área científica, Bonn sediará ainda o lançamento da nova edição dos Indicadores Globais de Mudança Climática (IGCC), iniciativa internacional criada para fornecer atualizações anuais dos principais indicadores utilizados pelo IPCC. O esforço busca reduzir o intervalo entre os grandes ciclos de avaliação do painel da ONU e fornecer aos formuladores de políticas uma fotografia mais atualizada da evolução da crise climática.
A sociedade civil chega à conferência defendendo que Bonn avance na operacionalização do Mecanismo Belém-Antália para Transição Justa (BAM), criado na COP30, e reforçando a pressão por mais financiamento climático para adaptação, transição energética e implementação dos compromissos assumidos pelos países.
Para muitas organizações, a capacidade de mobilizar recursos será o principal teste da credibilidade do regime climático internacional nos próximos anos. “A conferência de Bonn tem uma série de tarefas fundamentais a cumprir na negociação e um elefante na sala. É preciso dar contorno ao mecanismo de transição justa para torná-lo operacional na Antália, e é preciso avançar em várias agendas de adaptação e no novo programa sobre financiamento”, afirma Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
A tradicional Conferência de Bonn ocorre dois meses depois da inédita 1ª Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, Colômbia. “O mais importante segue fora da agenda formal do encontro: como implementar a transição para longe dos combustíveis fósseis, a única saída possível para a crise climática. A onda política iniciada em Belém, que ganhou impulso em abril em Santa Marta, não pode arrefecer. Tanto a coalizão de Santa Marta quanto a presidência da COP30 precisam usar o encontro em Bonn para fazer avançar esse debate”, destaca Claudio Angelo.
Para Manuel Pulgar-Vidal, líder global de Clima e Energia do WWF e presidente da COP20, a luta não deve ser mais sobre decisões mas sobre implementação. Os negociadores devem demonstrar que conseguem superar as atuais pressões geopolíticas e responder ao apelo da comunidade global por um futuro seguro e habitável para todos. As negociações climáticas da ONU continuam sendo o principal fórum para definir o rumo, coordenar ações e responsabilizar os países. Mas coalizões e iniciativas paralelas podem traduzir sinais políticos em resultados concretos e mais rápidos”, aponta Pulgar-Vidal.
*Cinthia Leone é jornalista, doutora em Ciência Ambiental pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora de diplomacia climática do ClimaInfo
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