Manifestação no Amapá durante o apagão: dezenas de atos de protesto não conseguiram tornar drama visível para a mídia nacional (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)

Manifestação no Amapá durante o apagão: dezenas de atos de protesto não conseguiram tornar drama visível para a mídia nacional (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)

Um apagão de 22 dias no Amapá invisível para a mídia nacional

Um apagão de 22 dias no Amapá invisível para a mídia nacional

Por Clarice Candido ODS 10ODS 7

Blecaute e caos no extremo norte do país recebem pouca atenção dos veículos de comunicação e revelam a desigualdade na cobertura jornalística

Publicada em 16 de junho de 2026 - 01:33

O blecaute que deixou o Amapá no escuro por mais de vinte dias, em novembro de 2020, também revelou outro tipo de apagamento enfrentado pela população: o da cobertura jornalística nacional. Enquanto moradores lidavam com prejuízos materiais, insegurança, desinformação e um cotidiano atravessado pela pandemia, a imprensa fora do estado acompanhou o episódio de forma breve, distante e incapaz de traduzir a dimensão humana da crise.

Em um cenário pandêmico marcado por pautas urgentes e sucessivas, o blecaute teve uma visibilidade desproporcional à gravidade do problema. Entre dificuldades de apuração à distância, ausência de equipes no território, desafios técnicos do setor elétrico e uma lógica de noticiabilidade que privilegia o eixo Sul-Sudeste, a história do Amapá acabou reduzida a flashes informativos, deixando em segundo plano os impactos sociais, os traumas coletivos e a realidade vivida pelos moradores.

Leu essas? Todas as reportagens do especial Entre o Apagão e o Apagamento

Para o estudante de Jornalismo Lucas Lima, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), e para milhares de outros amapaenses, a sensação de isolamento era absoluta. “Quando o assunto aparecia na grande mídia, era sempre naquele contexto do apagão, da pandemia, dos hospitais. Mas eu pensava: ‘gente, e o resto?’. Milhares de famílias perderam eletrodomésticos porque o apagão aconteceu justamente quando todo mundo estava em casa, com geladeira, televisão, tudo ligado, e simplesmente a luz apagou. E quem pagou esse prejuízo? Ninguém. Isso nunca apareceu“, afirma, referindo aos veículos nacionais.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

Além dos impactos diretos sobre o consumo de energia e o funcionamento dos serviços essenciais, o blecaute de 2020 produziu uma série de efeitos sociais que raramente foram incorporados às narrativas jornalísticas de alcance nacional. A desorganização da logística urbana, a circulação de informações desencontradas e o aumento de tensões sociais em diferentes pontos da cidade permaneceram, em grande parte, fora do enquadramento das notícias.

Tumulto nas ruas, crise na segurança e população assustada durante o apagão no Amapá: pouco visibilidade no resto do Brasil (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)
Tumulto nas ruas, crise na segurança e população assustada durante o apagão no Amapá: pouco visibilidade no resto do Brasil (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 08/11/2020)

Amapá num apagão de informações

Esse vácuo informacional evidenciou a importância do jornalismo em momentos de crise. Sem jornal, sem rádio, sem televisão e sem internet, tornou-se complexo entender o que se passava ao redor do estado. Nas redes sociais, moradores faziam denúncias e compartilhavam diferentes versões sobre o que poderia ter acontecido, aproveitando os breves momentos em que o sinal de celular voltava. As teorias variavam, da queda de um raio sobre um transformador até suspeitas de falha operacional, até que finalmente se confirmou a verdade: um incêndio na subestação de Macapá.

Foi apenas dias depois, quando o racionamento de energia começou, que o amapaense conseguiu recursos para entender a magnitude do problema. A estudante Andreia Tavares, colega de Lucas na Unifap, lembra que o público no Amapá recorreu ao rádio, demonstrando a resiliência do meio para o acesso à informação. “Nos três primeiros dias, a gente não conseguia nenhuma informação. Estávamos sem rádio em casa e ficamos totalmente sem internet. Só quando conseguimos acesso a um rádio que entendemos o que realmente tinha acontecido: acho que foi ali que percebemos, de verdade, a importância de ter um rádio em casa. Acabamos comprando um, porque naquele momento era a única forma possível de acompanhar as notícias”, conta Andreia.

O que aconteceu no Amapá é um exemplo de como casos ocorridos fora do ‘eixo do poder’ têm baixa visibilidade, um fenômeno que tende a piorar com os orçamentos cada vez menores da imprensa tradicional

Roberto Rockmann
Jornalista especializado no setor de energia

Enquanto isso, do outro lado do país, estava a grande mídia. Antes da pandemia, nas redações, a rotina dos jornalistas era bem dinâmica. O som que mais se ouvia nas mesas eram barulhos de teclados, conversas em ligações telefônicas, discussões sobre assuntos quentes e passos apressados de quem ia e voltava da chefia de reportagem.  Mas esse ritmo, tão marcado pelo contato humano, foi interrompido de forma brusca em 2020. O mundo inteiro precisou adaptar a forma como vivia, adquirindo dinâmicas mais frias e distantes. Isto refletiu diretamente no jornalismo, que agora precisava lidar com trocas entre telas, mensagens de texto, e o improviso – já tão natural à profissão –, colocou-se num lugar novo. Muitos veículos precisaram cortar orçamentos, reduzindo equipes e operando com o mínimo de recursos.

Foi nesse contexto que o apagão de 2020 atingiu o Amapá. Completamente no escuro e durante uma pandemia, o estado enfrentava um dos blecautes mais duradouros da história do Brasil, enquanto o país inteiro se preocupava com diversas outras pautas do período pandêmico. O mundo estava um caos, mas alguns lugares viviam numa situação mais precária do que outros.

Na imprensa especializada, o caso foi coberto quase diariamente, testemunha o jornalista Rodrigo Polito, na época repórter no website MegaWhat que cobre o setor de energia. “No dia seguinte ao apagão, já começou uma correria enorme por causa do impacto do que tinha acontecido lá. Sempre que cobrimos o setor elétrico, a primeira coisa que fazemos é tentar mapear o alcance da falha: qual foi o dano, quantas pessoas foram afetadas e por quanto tempo. No Amapá, desde o início ficou claro que o impacto era grande, grave e que precisaria ser acompanhado de perto”, relembra.

Andrew Costa, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap): a Amazônia precisa de mais jornalistas e mais especialistas em comunicação formados na própria região (Foto: Ricardo Beda)
Andrew Costa, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap): a Amazônia precisa de mais jornalistas e mais especialistas em comunicação formados na própria região (Foto: Ricardo Beda)

Apesar da mobilização dos veículos especializados, a narrativa sobre o blecaute não encontrou o mesmo espaço na mídia nacional ao longo dos dias. À medida que o caos persistia no Amapá, outras pautas ganhavam protagonismo no restante do país e a cobertura passava a disputar atenção num cenário já saturado pela pandemia. “A gente acaba olhando pouco para essas regiões, até porque a qualidade do serviço de lá não é tão boa. A distribuidora tinha problemas, como falta de investimentos, há anos. Então, pensando em critérios de noticiabilidade, não tem o impacto que tem quando cai a energia numa região adensada populacionalmente, com uma renda mais alta“, comenta a repórter Camila Maia, também da MegaWhat.

A Amazônia tem um processo próprio de construção política, social, cultural e econômica muito diferente dos demais. Isto se reflete na construção de identidade de populações. Tudo isso faz com que o restante do país tenha um pouco mais de dificuldade para olhar a Amazônia enquanto região

Andrew Costa
Professor de jornalismo da Universidade Federal do Amapá

Para compreender a cobertura desigual entre diferentes regiões do país, é preciso ter um olhar atento para as próprias estruturas da sociedade brasileira. Como explica o jornalista e pesquisador Andrew Costa, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e mestre em Comunicação Social pelo Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense (UFF), discutir jornalismo também significa discutir capitalismo, dando enfoque na relação histórica entre centro e periferia. No caso da imprensa, essa lógica se materializa no fato de que as principais empresas de comunicação estão concentradas no Centro-Sul do país. Isto acaba ditando aquilo que se torna prioridade na pauta midiática.

Essa centralização afeta diretamente os critérios de noticiabilidade. Segundo o professor Andrew, embora fatores políticos e econômicos sejam igualmente influenciáveis, a dimensão territorial se torna também decisiva, já que acontecimentos nas regiões privilegiadas do Brasil tendem a ganhar mais destaque e profundidade do que eventos proporcionalmente graves ocorridos em locais periféricos do país. A dinâmica se relaciona ao papel da imprensa no chamado de agendamento, ou seja, a capacidade dos veículos de comunicação de definir quais temas entram em debate público.

O agendamento influencia desde conversas descontraídas em mesas de bar até na formulação de políticas públicas. “Quando a imprensa volta seu olhar para determinadas contradições sociais, cria condições para que o poder político reconheça esses problemas e busque soluções. Por isso, a mídia carrega uma responsabilidade significativa ao narrar crises humanitárias e denunciar desigualdades. Mesmo que a solução não dependa exclusivamente dos jornalistas, ela necessariamente passa pelo compromisso da imprensa com uma cobertura mais ampla e equânime das diversas realidades do país”, avalia Andrew Costa.

Macapá inteiramente às escuras: apagão também de informações no Amapá (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)
Macapá inteiramente às escuras em 2020: apagão também de informações no Amapá (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 08/11/2020)

Menos jornalistas, mais desigualdade

​A situação se agrava em um ambiente jornalístico cada vez mais pressionado por métricas digitais e com equipes reduzidas. A hierarquização de pautas, antes limitadas pelo espaço físico do jornal impresso, agora é guiada também pela disputa por atenção online. Com menos profissionais escalados e maior demanda por uma produção veloz, temas considerados de baixo retorno capital acabam cedendo espaço para conteúdos populares ou até de entretenimento, que garantem tráfego imediato. “O que aconteceu no Amapá é um exemplo de como casos ocorridos fora do ‘eixo do poder’ têm baixa visibilidade, um fenômeno que tende a piorar com os orçamentos cada vez menores da imprensa tradicional”, opina o jornalista Roberto Rockmann, com mais de 20 anos de experiência na cobertura do setor de infraestrutura, com destaque para a área de energia.

Acho que o pior de tudo foi perceber como a mídia nacional simplesmente esqueceu da gente. Depois de tanto sofrimento, veio também essa sensação de exclusão, de não fazer parte. Ninguém falava sobre o que estávamos passando

Walinson Bezerra
Universitário e morador de Macapá

Existe, então, uma assimetria histórica na forma como diferentes regiões do país entram no radar da imprensa nacional. Nem sempre temas vindos do Norte conseguem competir, em termos de atenção, com assuntos concentrados nos grandes centros econômicos do Sul-Sudeste. Assim, acontecimentos graves acabam recebendo uma cobertura mais episódica, marcada por flashes informativos que não dão conta da complexidade dos fatos. Isso cria um descompasso de que, enquanto as redações locais produzem um acompanhamento contínuo e detalhado, a imprensa nacional tende a oferecer uma visão mais apressada e limitada, que pouco revela sobre as experiências vividas pela população afetada.

A limitação física, intensificada pelas restrições sanitárias da época, também expôs um problema recorrente do jornalismo brasileiro: a ausência de profissionais alocados em regiões do Brasil fora do eixo Rio-São Paulo. Quando não há repórteres no território, a cobertura se baseia exclusivamente na visão de quem observa à distância, sem um contato real com o problema.

Andréia Tavares, estudante de jornalismo da Unifap, critica a cobertura da mídia durante o apagão no Amapá: "acho que a gente precisava de um pouquinho mais de ajuda e ela nos foi negada" (Foto: Ricardo Beda)
Andréia Tavares, estudante de jornalismo da Unifap, critica a cobertura da mídia durante o apagão no Amapá: “acho que a gente precisava de um pouquinho mais de ajuda e ela nos foi negada” (Foto: Ricardo Beda)

O colunista Roberto Rockmann, na época na Agência Infra, aponta uma dimensão estrutural do problema, a falta de correspondentes no Norte. Para ele, questões regionais frequentemente ficam sem cobertura aprofundada porque poucos veículos dispõem de verba para enviar repórteres. “Existe uma falta de correspondentes in loco. Há vários sites sobre energia: algum tem correspondente no Nordeste, Sul, Centro-Oeste ou Norte? Algum faz matéria in loco ou só faz quando a matéria é feita e assinada e recebe ‘viajou a convite da empresa’?”, indaga.

Acho que a nossa empatia, como sociedade, é muito seletiva. Existem corpos que parecem merecer mais compaixão do que outros. Nós, aqui do Amapá, não fazemos parte desses corpos que despertam empatia. É fácil ver o país se comover com tragédias no Sul, por exemplo, mas não com o que acontece no Acre, no Maranhão ou aqui

Andréia Tavares
Estudante de Jornalismo da Unifap

Com equipes reduzidas e limitações para se deslocar, a cobertura se tornou um desafio logístico. A dificuldade de acesso, somada à pouca visibilidade do Norte nos grandes veículos, fez com que o apagão fosse noticiado, mas raramente compreendido em sua dimensão humana. A falta de interesse público para pautas voltadas ao Norte também é um dificultador na cobertura. Afinal, se não há uma vontade dos leitores de consumirem aquelas notícias, torna-se menos interessante para os veículos tratarem o assunto.

O professor de jornalismo Andrew Costa, da Unifap, encara a questão como um reflexo de desigualdades historicamente pautadas. “Seria quase natural dizer que a Amazônia não é muito Brasil. Quando olhamos para a formação socio-histórica da região, percebemos que ela segue um caminho muito diferente do restante do país. A Amazônia tem um processo próprio de construção política, social, cultural e econômica muito diferente dos demais. Isto se reflete na construção de identidade de populações. Tudo isso faz com que o restante do país tenha um pouco mais de dificuldade para olhar a Amazônia enquanto região”, analisa.

A visibilidade dada ao Amapá e à região pela mídia nacional, agora mais do que nunca, estrutura-se a partir de pautas ligadas a questões ambientais ou climáticas. Enquanto assuntos como a exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas tendem a gerar maior repercussão na mídia, crises sociais e de infraestrutura ficam em segundo plano. Temas como a fragilidade do sistema elétrico amapaense, por exemplo, dificilmente recebem o mesmo espaço, mesmo quando afetam diretamente a vida de centenas de milhares de pessoas.

Protesto no Amapá durante apagão: sem cobertura jornalística no resto do Brasil população do estado se sentiu invisível e sem voz (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)
Protesto no Amapá durante apagão: sem cobertura jornalística no resto do Brasil população do estado se sentiu invisível e sem voz (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 07/11/2020)

Menos de dois minutos em 22 dias de blecaute

Para quem viveu o apagão, ele não se resumiu a um fato noticioso que circulou por alguns dias e depois desapareceu. Para os moradores, a cobertura feita ao redor do Brasil não foi o suficiente para disseminar o que realmente aconteceu no estado. Pela falta de uma escuta mais ativa à população, os moradores se sentiram invisíveis, como se o lado humano de todo o apagão não fosse de interesse dos veículos. A falta de produção de reportagens com personagens que dessem um contexto do que ocorria no estado foi algo que sensibilizou os amapaenses. Afinal, como falar sobre o episódio sem dar voz aos que sofreram com o caso?

Na ocasião, o Fantástico, revista eletrônica dominical da TV Globo, chegou a produzir duas reportagens: uma no programa seguinte ao início do blecaute, e outra após 20 dias do apagão. Ambas as edições, porém, dedicaram menos de dois minutos de duração à crise no Amapá. Na primeira reportagem, a emissora carioca apresentou um panorama geral da interrupção do fornecimento, mencionando a explosão na subestação de Macapá, o início do racionamento e a mobilização das autoridades federais e estaduais. Embora tenha registrado a dimensão técnica do problema, as reportagens trouxeram pouca presença de personagens locais ou um acompanhamento sobre os impactos acumulados nos dias seguintes, elementos que continuariam a se desenvolver ao longo das semanas posteriores.

“Acho que o pior de tudo foi perceber como a mídia nacional simplesmente esqueceu da gente. Depois de tanto sofrimento, veio também essa sensação de exclusão, de não fazer parte. Ninguém falava sobre o que estávamos passando. A gente não tinha internet, não conseguia se comunicar, e quem tinha esse poder, essa capacidade de mostrar o que estava acontecendo, não fez”, lamenta o universitário Walinson Bezerra, morador de Macapá. “A reportagem do Fantástico, por exemplo, foi muito rápida e superficial. Logo depois, veio uma matéria sobre a atriz Cláudia Raia, com um tempo muito maior. Aquilo foi revoltante. A gente estava vivendo um caos e parecia que ninguém se importava”, critica.

Mais do que esperar que grandes veículos do eixo Rio–São Paulo voltem sua atenção para as questões amazônicas, é fundamental que a Amazônia desenvolva seus próprios modos de produção jornalística

Andrew Costa
Professor de jornalismo da Universidade Federal do Amapá

Esta reportagem realizou uma pesquisa dos termos mais pesquisados entre os dias 5 a 29 de novembro daquele ano, usando de comparativo “Apagão no Amapá em 2020” e “Cláudia Raia”, usado como exemplo pelo Walinson. Os dados mostram que no dia da transmissão do Fantástico, as pesquisas para o nome da artista tiveram um pico, enquanto o colapso no Amapá se manteve em baixa. “Acho que a nossa empatia, como sociedade, é muito seletiva. Existem corpos que parecem merecer mais compaixão do que outros. Nós, aqui do Amapá, não fazemos parte desses corpos que despertam empatia. É fácil ver o país se comover com tragédias no Sul, por exemplo, mas não com o que acontece no Acre, no Maranhão ou aqui”, lamenta a estudante de Jornalismo Andréia Tavares, da Unifap.

​A experiência desencadeou um estado de vigilância constante, no qual qualquer oscilação climática reacende memórias do trauma vivido em 2020. O professor de Jornalismo, Andrew Costa explica que esse impacto emocional permanece entranhado no cotidiano da população. “É um trauma muito intenso. Quando começa a chover – e a chuva no Norte é muito característica, especialmente no período que chamamos de inverno, quando as precipitações são constantes – as pessoas já sentem aquela ansiedade, aquela angústia, achando que a qualquer momento a energia pode cair. E, se cair, surge o medo de que horas vai voltar”.

Para o professor, ampliar o olhar para o que acontece na periferia do país passa, antes de tudo, pela capacidade dessas próprias regiões de produzirem seus meios de comunicação. “Mais do que esperar que grandes veículos do eixo Rio–São Paulo voltem sua atenção para as questões amazônicas, é fundamental que a Amazônia desenvolva seus próprios modos de produção jornalística. Isso envolve também fortalecer os projetos de formação profissional existentes”, afirma. O curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá, por exemplo, tem menos de duas décadas e ainda está em processo de consolidação, o que revela como a estrutura de ensino e produção de conhecimento na região é recente do ponto de vista histórico.

Andrew Costa analisa que é essencial ampliar investimentos e incentivar a formação de jornalistas, mestres e doutores em comunicação que possam atuar diretamente no território, produzindo uma cobertura qualificada sobre as especificidades da região e uma reflexão crítica sobre como o jornalismo pode se desenvolver na Amazônia.

A ideia de construir uma prática comunicacional alinhada ao “bem-viver” – conceito presente em debates amazônicos contemporâneos – aponta justamente para a necessidade de produzir um jornalismo que dialogue com as realidades locais, respeite seus ritmos e traduza suas contradições a partir de dentro, e não apenas pelo olhar distante dos grandes centros.

​“Acho que a nossa missão é tentar ajudar as pessoas, mais do que informar. A informação é a única coisa que você pode fazer pra ajudar alguém e eu acho que foi isso que faltou nesse caso. Isso falta em muitos casos aqui no jornalismo amapaense e nesse caso no jornalismo nacional também: acho que a gente precisava de um pouquinho mais de ajuda e ela nos foi negada”, reflete Andréia.

O blecaute de 2020 expôs uma combinação de fatores que vão desde uma fragilidade do sistema elétrico do Amapá, até limites da cobertura do jornalismo brasileiro. A distância entre os grandes centros do país e a Amazônia influenciou a forma como o fato foi noticiado, contribuindo para um acompanhamento nacional mais breve e menos aprofundado do que o ocorrido no estado. Cinco anos depois, entre memórias de noites sem luz e traumas do que pareceu um pesadelo, o que permanece é a certeza de que o apagão deixou marcas na população e lições importantes para o jornalismo, evidenciando a necessidade de uma cobertura mais sensível às desigualdades na Amazônia.

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Clarice Candido

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Clarice trabalhou nos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e atua no setor de energia. Tem interesse em temas ligados a meio ambiente, mudanças climáticas, Amazônia, direitos humanos e transição energética. Ganhou o prêmio Expocom na categoria Reportagem Longform com “Entre o apagão e o apagamento”, republicada agora pelo #Colabora, em novo formato

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *