ODS 1


Registros do programa Hortas Cariocas dentro das Escolas Municipais Alzira Araújo e Edmundo Bittencourt. Foto: Ana Clara Ferreira/ Equipe E.M. Alzira Araújo
Programa Hortas Cariocas cria um ambiente sustentável em escolas do Rio
Presente em mais de 25 unidades espalhadas pela cidade, projeto é um dos principais agentes de educação ambiental urbana
O que um pé de alface pode significar em meio ao corre-corre da vida urbana? É difícil parar para pensar na origem do que comemos. As prateleiras dos supermercados, com seus plásticos brilhantes e códigos de barras, quase nos convencem de que tudo nasce embalado. Mas algumas escolas públicas no Rio de Janeiro estão redescobrindo, com as mãos na terra, literalmente, que o alimento começa no solo, e pode florescer junto com o conhecimento. O Hortas Cariocas é um projeto da prefeitura em parceria com a Secretaria Municipal do Ambiente e Clima (SMAC), que desde 2006 atua promovendo práticas voltadas à agricultura urbana e à sustentabilidade. Locais anteriormente marcados pelo abandono ou por usos inadequados se transformaram em grandes plantações e espaços produtivos. Além de gerar alimentos e renda, essas áreas também contribuem para o paisagismo da cidade, dando lugar a jardins e áreas verdes que promovem o bem-estar coletivo em meio ao concreto.


Os números, até aqui, são impressionantes. Ao longo de quase 20 anos, o programa já produziu mais de 1.000 toneladas de alimentos livres de Agroquímicos (como Adubo Mineral, Agrotóxicos ou Defensivos Agrícolas). Os cerca de 24 hectares distribuídos pela cidade são responsáveis por abrigar em torno de 4.000 canteiros: “O Hortas Cariocas, para além da questão nutricional, vem para romper com um ciclo — característico das grandes cidades — de desperdício de alimentos. Conhecer o processo de desenvolvimento de um alimento te faz valorizar muito mais aquele produto”, diz Vinícius Rocha, agrônomo e líder do programa na prefeitura.
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A divisão dessas colheitas acontece da seguinte forma: 50% é destinada a doações, que vão para orfanatos, casas de idosos, creches e famílias em situação de vulnerabilidade — o que já beneficiou aproximadamente 60 mil lares cariocas, segundo dados da prefeitura. Os outros 50% são comercializados pelos hortelões responsáveis, que precificam e cuidam de todo o processo de comercialização dos produtos, o que também gera renda complementar para seus núcleos familiares. Excepcionalmente, no período da pandemia de covid-19, 100% das colheitas foram doadas.


Nas escolas, o Hortas vai além das plantações e se transforma em ferramenta de letramento ambiental, fruto de um trabalho que sintoniza os saberes acadêmicos com os saberes da terra. A iniciativa combina estratégias de educação, saúde pública, economia verde e justiça social, se consagrando como um programa multidisciplinar. Hoje, presente em cerca de 29 unidades da rede municipal de educação — entre elas, as escolas municipais Alzira Araújo, em Campo Grande (Zona Oeste), e Edmundo Bittencourt, em Benfica (Zona Norte) — o projeto se consolida como agente de educação sustentável, proporcionando o contato direto com a terra e incentivando práticas agroecológicas no ambiente escolar. “Eu gosto muito de plantar alface, de andar lá (horta), pegar frutas e observar as plantas quando eu visito”, diz Heitor, 8 anos, da E.M. Edmundo Bittencourt.
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Veja o que já enviamosPara Vitória Casagrande Viel, consultora socioambiental e autora do artigo Hortas Escolares para desemparedar, cultivar cidadania e (re)existir, as hortas no contexto escolar são pilares essenciais para a formação de cidadãos que tenham consciência ambiental. “A horta é uma ferramenta pedagógica fantástica. Ao cultivar uma horta, a criança entra em contato com a terra, observa seu funcionamento e percebe a nossa ligação com tudo isso na prática. Na verdade, somos natureza e, ao entrar em contato com a horta, observamos e sentimos esta conexão. Só amamos e protegemos aquilo que conhecemos”.
A diretora da E.M. Alzira Araújo, Simone Pralon, concorda: “É um benefício pedagógico, porque as crianças deixam de estudar de uma forma confinada — só sala de aula e corredores — e vêm para fora, tendo contato com as árvores e a natureza”. Ela completa: “Reativar a horta foi trazer vida para esse ambiente”. Márcia de Carvalho, vice-diretora da escola, reforça a fala da colega: “É incrível ver que a partir da horta, as crianças também desenvolveram uma consciência ambiental. Até mesmo a questão com o tempo, porque a vida deles (alunos) é muito acelerada, mas aqui, eles precisam esperar, é a natureza quem manda, então precisa ter o tempo de plantio, de colheita. Isso ajuda até com a ansiedade”. De fato, as hortas escolares também funcionam como ferramentas terapêuticas, auxiliando no enfrentamento de doenças mentais, distúrbios do sono e questões comportamentais.


Nesse esforço conjunto, para além do suporte do Hortas Cariocas, instituições parceiras como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), contribuem para o desenvolvimento de políticas de educação ambiental mais robustas dentro das escolas — nesse caso, a Alzira de Araújo —, unindo conhecimento técnico científico às práticas acessíveis, como oficinas de compostagem e cultivo hidropônico. A parceria amplia o alcance pedagógico do projeto e conecta ciência e natureza à rotina escolar. “Projetos de hortas urbanas como a da Alzira, fazem com que os alunos — principalmente os periféricos — se sintam mais inseridos na sociedade. Estando em contato com a tecnologia na prática, eles enxergam a ciência, e com isso, popularizam esses conhecimentos, inserindo-os em suas rotinas”, comenta Rodrigo Campos, técnico do setor de Transferência de Tecnologia da Embrapa.
Ao citar hortas e cuidados com a terra, é comum pensarmos em atividades ligadas apenas às ciências biológicas. Mas o professor de matemática e física da escola de Campo Grande, Prof.D, mostra o contrário: “Uma horta é um plano geométrico, aqui juntamos as aulas de matemática e física com a natureza, e é um máximo! Para cá (espaço da horta), eu já auxiliei os alunos a produzirem tensiômetros — dispositivo que mede a tensão de água retida pelo solo — e geralmente fazemos os cálculos de hidroponia aqui também”. Orgulhoso, ele revela os passos futuros: “Agora queremos fazer a horta brilhar, estamos vendo de fazer isso com luzes LED, junto de um projeto de energia eólica. Ou seja, vamos ver na prática o que eu ensino em aula. Os alunos adoram, sempre se agitam para vir”.


“A gente tem um privilégio, porque muitas escolas não têm hortas, e se tem, são muito pequenas”, diz Arthur, aluno do 7º ano da Alzira de Araújo. Daniel, colega de classe, completa: “Eu gosto de vir para cá (horta), queria vir mais vezes, mas a professora da horta foi embora. Com ela, aprendemos a fazer e comer várias coisas, tipo miojo saudável, e eu até gostei”.
As diretoras confirmam os relatos dos alunos e expõem que uma das maiores dificuldades hoje para manter a horta ativa, é a falta de mão de obra especializada. “Precisamos de um professor que possa estar aqui integralmente. A professora que a gente tinha, ela fazia o link perfeito entre a prática e o saber sustentável. Para o aluno aprender, eu preciso de alguém que entenda do assunto, e mais, entenda que essa iniciativa também é uma ferramenta de educação. Isso é fundamental”. Elas ainda destacam a carência de financiamento para projetos de sustentabilidade no ambiente escolar, o que dificulta a expansão das atividades: “A gente tem um projeto de redução de recursos hídricos na escola, mas que não sai do papel. O plano é apresentado, nada caro, mas não tem verba, então não conseguimos fazer. A horta se tornaria muito mais sustentável se conseguirmos implementar essa ideia”.


Por isso, acordos como o que foi firmado com o programa Hortas Cariocas se mostram fundamentais. “É imprescindível ter a parceria do Hortas porque eles nos dão dois hortelões”, conta Simone. O que faz sentido, já que a escola possui uma horta enorme e que precisa de manutenção diária.
As bolsas oferecidas pelo programa têm valores fixos de R$630 para os encarregados das hortas — que são aqueles responsáveis por cada horta, e que ficam em contato direto com a gerência— , de R$500 para os hortelãos voluntários e R$1.000 para os cinco integradores comunitários — que realizam o trabalho de mobilização e disseminação de práticas entre múltiplas hortas. Esse incentivo garante a assiduidade dos trabalhadores no projeto e contribui diretamente para a economia de seus lares. Indiretamente, fortalece a própria economia das comunidades atendidas.


Mas como o programa chega até às escolas e comunidades? Os processos são diferentes para cada caso. Nas instituições de educação, a solicitação deve vir da direção da unidade, por meio de um ofício enviado à SMAC. Já no caso das hortas comunitárias, um representante da localidade interessada deve manifestar o pedido através do e-mail institucional da SMAC, vale ressaltar que os grupos já mobilizados recebem prioridade. A partir dessas solicitações, a equipe técnica do Hortas Cariocas realiza uma avaliação do espaço físico, verificando condições como disponibilidade de água, insolação e viabilidade da área. Se o local for considerado adequado, os trâmites seguem para a formalização da concessão, incluindo relatórios técnicos com estimativas de investimento, insumos e mão de obra necessária para a implantação da horta.
A partir da concessão, as hortas ganham vida própria. Nas hortas escolares, por exemplo, a produção era, até então, totalmente voltada para a merenda dos estudantes. Com a expansão dos espaços cultiváveis e o aumento do volume colhido, essas unidades passaram a destinar seus insumos excedentes para outras instituições da rede municipal. “Nossa produção (alface, principalmente) não fica só entre nós, ela é doada para escolas parceiras. A gente sai dos muros da Edmundo (escola) e alcança outros lugares”, comenta Rôse B. Peixoto, diretora adjunta e coordenadora do projeto na E.M. Edmundo Bittencourt. Além das doações, a iniciativa de comercializar parte desses alimentos de forma colaborativa — gerando retorno para a horta — também se tornou rotina, assim como a distribuição para as famílias dos alunos e comunidades vulneráveis do entorno.
Na escola da Zona Norte do Rio, o cultivo da horta começou antes mesmo da chegada oficial do programa Hortas Cariocas. O projeto nasceu de uma inquietação pessoal de Rôse, que desejava unir o aprendizado acadêmico aos conhecimentos da terra, uma proposta que sintoniza com a história e o espírito do local. “O Conjunto do Pedregulho foi pensado para o ser humano”, diz, referindo-se ao projeto modernista de 1947, assinado por Affonso Eduardo Reidy. “Ele pensou em moradia, saúde, educação, esporte e cultura, para que tudo fosse harmônico. Daí vem minha inspiração: aqui, a horta também é sala de aula”, resume, caminhando entre os canteiros da escola.


A iniciativa que começou de forma autônoma, se tornou projeto coletivo e hoje envolve toda a equipe escolar. Com o Hortas Cariocas, o espaço ganhou novos membros e atualmente conta com uma equipe de quatro hortelões, além dos membros voluntários. “Fomos convidados a participar do Hortas”, diz Rôse. Acontece que a visibilidade do projeto na comunidade chegou até os ouvidos do secretário do Meio Ambiente da época, que, intrigado, visitou a escola e constatou por si mesmo que o projeto tinha potencial. “Quando ele chegou aqui, ele viu resultados”, completa a diretora adjunta.
“Em 15 anos de município, eu nunca tinha visto uma horta como a da Edmundo. Na verdade, nunca trabalhei em uma escola que tivesse horta, então pra mim foi impressionante”, declara a recém-chegada professora Suzy da Rosa. Ela também compartilha que até a rotina dos alunos é perpassada pela iniciativa: “Quando tem colheita eles já dizem: Hoje tem salada!”.
A alimentação saudável é uma das principais preocupações da escola, que funciona em horário integral, o que faz com que os alunos realizem as principais refeições do dia no local. “As crianças cada vez mais estão comendo pior. Inclusive, os ultraprocessados são proibidos hoje na rede (municipal de ensino), mas muito antes disso, já tínhamos implementado essa política por aqui”, relata a pedagoga Bianca Monteiro.
O compromisso com práticas sustentáveis e com a formação cidadã dos estudantes da Edmundo vem gerando resultados. Em 2019, a unidade recebeu moção honrosa pelo vereador Prof. Célio Lupparelli por “preservar a natureza e zelar pela vida”, mas não parou por aí. Em seguida, a escola foi reconhecida pela produção de um mini documentário elaborado pelos próprios alunos, com apoio dos professores, que retrata o ciclo da horta, as mudanças no cardápio escolar e os aprendizados que a convivência com a terra proporciona. O título, também é obra da criatividade dos pequenos.


Mas a arte na escola de Benfica não é novidade, isso porque, os alunos, em conjunto com os hortelões e a equipe docente da escola, revitalizaram toda a rua em que o colégio está localizado. Sem muitos recursos, mas com muita vontade de fazer bonito, eles usaram um material, que à primeira impressão, não remete a algo esteticamente agradável: pneus velhos. Munidos de tinta, criatividade e muita força de vontade, arborizaram toda a extensão da rua — que também dividia espaço com depósitos de lixo e um paredão encardido de cara para os portões da unidade — com os pneus reciclados, que ganharam vida protagonizando canteiros e jardins do entorno.
Somente os pneus e jardins ainda não eram o bastante. Lembra do muro? Eles imaginaram e fizeram acontecer: aquele muro tristonho e propenso à pichação ganhou cor e se tornou arte. Pintado pelas crianças, ele se tornou símbolo de pertencimento, expressão artística e ferramenta de educação ambiental. As pinturas até hoje estampam a rua e embelezam o local. “Minha parte favorita de estudar aqui é mexer com as plantinhas, eu sempre levo pra casa e ah! Ter pintado o muro também foi bem legal, eu sempre lembro quando entro na escola”, revela Mariá (8), aluna da unidade de ensino.
Esse tipo de envolvimento é reflexo da potência do Hortas Cariocas, que segue colhendo frutos das sementes que plantou. O projeto já ganhou reconhecimento internacional pela Nações Unidas (ONU) em 2019, o Prêmio Empreendedor Sustentável de 2015, além da menção honrosa no Pacto de Milão na categoria Produção Alimentar, em 2019, e também, recebeu a inclusão do programa na lista de ações essenciais para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU.
O futuro é promissor e a estimativa é que o projeto se expanda e alcance novas frentes. Em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (SMDU), o Hortas em breve fará parte do cotidiano de todo carioca, já que a intenção é que a cidade se torne referência em sustentabilidade urbana no Brasil. Isso revela como uma política pública bem implementada pode transformar vidas e territórios. Mais do que plantar hortaliças, o programa semeia valores, saberes e pertencimento.
Ao trazer a natureza para dentro das escolas, o Hortas Cariocas proporciona para a próxima geração um futuro mais justo e consciente. E mostra que educar também é cultivar, e que tem que começar hoje, pois a colheita demanda seu tempo.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.


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Ana Clara Ferreira
Ana Clara Ferreira é graduanda de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem interesse em pautas ligadas ao meio ambiente, direitos humanos, política e temas internacionais. Hoje atua na cobertura jornalística da política brasileira, buscando traduzir o impacto das decisões públicas no cotidiano popular.





































