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Do nugget ao silêncio, processado o suficiente pra fazer feliz

Como no caso dos ultraprocessados, silenciamento das mulheres vem cheio de aditivos perigosos

ODS 3 • Publicada em 7 de abril de 2026 - 08:37 • Atualizada em 7 de abril de 2026 - 10:16

Esses dias conversava com a minha amiga Bia sobre como a gente deve ter sido a geração que comeu mais ultraprocessados sem conhecimento dos riscos que eles realmente ofereciam. Era prático, era mais acessível do que havia sido em outras gerações e, obviamente, era tudo gostoso. Milimetricamente fabricado pra fazer a gente querer mais.

E, como era de se esperar, tem mais gente pensando nisso. Um ou dois dias depois, li uma notícia dizendo que alimentos ultraprocessados ainda são vistos como símbolo de “infância feliz”, e fiquei encafifada, mas nem um pouco surpresa. O estudo do Unicef mostra que metade das crianças consumiu esses produtos no lanche no dia anterior à pesquisa, que 55% das pessoas nunca leem os rótulos e que uma parcela significativa acredita que produtos ultraprocessados são saudáveis. Iogurtes com sabor (ainda que os mais loucos, tipo flocos) são considerados saudáveis por mais da metade dos entrevistados; e quase metade acha o mesmo de nuggets se forem feitos na air fryer, mesmo sendo um mexidão de sabe-se lá o quê sabor frango.

Os ultraprocessados e o silêncio das mulheres: sabor de paz e felicidade que faz muito mal e pode até matar (Foto: Freepik)
Os ultraprocessados e o silêncio das mulheres: sabor de paz e felicidade que faz muito mal e pode até matar (Foto: Freepik)

Uma revisão publicada no BMJ (British Medical Journal), reunindo dados de milhões de pessoas, associou o consumo de ultraprocessados a mais de 30 desfechos negativos de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, depressão e maior risco de morte. As evidências mais fortes aparecem justamente nas doenças que mais matam. E, ainda assim, esses produtos seguem ocupando lugar afetivo nas nossas rotinas, o que é perfeitamente compreensível.

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Leu essa? Pelo direito inalienável das mulheres a uma vida que preste

É o miojo de tomate da Turma de você-sabe-quem. É o macarrão com salsicha feito com molho pronto na época de vacas magras da faculdade. É o refri mais famoso do mundo, geladíssimo, para curar uma ressaca. É o sorvete cheio de gordura hidrogenada para afogar as mágoas. Não necessariamente nesta ordem, neste menu, e por esses motivos.

Também não dá pra esquecer o viés socioeconômico, ultraprocessados têm ficado cada vez mais baratos, muito mais que os produtos in natura. Por isso,  muitas vezes se tornam a opção mais viável para incontáveis famílias sub-remuneradas e sobrecarregadas, que não podem ser dar ao luxo da “comida de verdade”. Mas dito tudo isso, me chama muito a atenção uma pesquisa relacionar “infância feliz”  com o consumo destes produtos que, no limite, podem matar.

E fiquei pensando que a gente faz algo muito parecido com meninas.

Ensina cedo que ser boa é não incomodar, mas isso raramente vem dito de forma tão direta. Vem em pequenas correções, em elogios seletivos, em recompensas sutis. A menina “educada” é a que não interrompe, a que não insiste demais, a que percebe o clima e se ajusta. A que aprende a antecipar o desconforto dos outros antes mesmo de entender o próprio. A que entende rápido que ser aceita depende menos do que ela é, e mais de como ela se regula. Isso vai sendo transmitido como cuidado, como formação, como preparo para a vida: “fale baixo”, “cruze as pernas”, “contenha-se”, “não exagere”…

Pode até funcionar a curto prazo e criar meninas comportadíssimas, mas o tiro sempre sai pela culatra. Na dificuldade de dizer não, na confusão entre gentileza e submissão, na vergonha de parecer exagerada, na tendência a se calar para não incomodar.

A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada três mulheres sofrerá violência ao longo da vida. No Brasil, quase metade das mulheres que sofrem agressão não faz nada depois do episódio. O silêncio não é acaso. É aprendido.

E, como no caso dos ultraprocessados, esse silêncio também vem cheio de aditivos. Ele ganha sabor de paz quando tudo cheira à normalidade, sabor de maturidade quando a mulher engole o próprio incômodo, sabor de equilíbrio quando ela escolhe não tensionar o ambiente. Só que, assim como o corante dos salgadinhos que ainda reinam na ideia de infância feliz, essa aparência de tranquilidade também engana. E assim como os ultraprocessados, o que desce fácil – e para alguns, feliz até – nem sempre é inofensivo. Às vezes, é justamente isso que mata.

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