Mulheres bate-bolas de subúrbio carioca conquistam espaço na rua

Integrante das Brilhetes de Anchieta ajudavam os companheiros no Carnaval e agora montam suas próprias fantasias

Por Agência Brasil | ODS 11
Publicada em 11 de fevereiro de 2026 - 09:39  -  Atualizada em 11 de fevereiro de 2026 - 10:26
Tempo de leitura: 9 min

Turma feminina de bate-bola Brilhetes de Anchieta se prepara para o carnaval 2026, em Anchieta, Zona Norte do Rio: mulheres ganham espaço na rua (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

(Isabela Vieira*) – O segredo mais bem guardado do grupo Brilhetes de Anchieta está perto de ser revelado. Falta menos de uma semana para a saída da turma de bate-bolas, de 38 meninas e mulheres, nesta sexta-feira (13/02), quando será conhecida em detalhes toda a indumentária do grupo. A fantasia foi preparada com a máxima discrição ao longo de seis meses.

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Os bate-bolas são turmas de mascarados que usam fantasias temáticas ricas em cores e brincam o carnaval nas ruas do subúrbio do Rio de Janeiro. Parte indispensável da fantasia é a bola de borracha amarrada em um bastão.

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Eles se tornaram uma das principais expressões artísticas do carnaval. Bem diferente de antigamente, não assustam mais nem correm atrás de crianças, embora o som das bolas de borracha batendo no chão continue o mesmo.

Atualizando a tradição, quando o portão da garagem do quartel-general das brilhetes se abrir, ao som de fogos e muito funk, as bate-bolas desfilarão pela rua exibindo a fantasia do 13º ano. Ali, estarão desde crianças de 3 anos até mulheres de 58 anos, com diversas ocupações: professora, cuidadora, técnica em enfermagem, bombeira, estudante, pesquisadora de instituições culturais, entre outras.

Integrantes das Brilhetes de Anchieta se preparam para o Carnaval 2026: mulheres deixam de acompanhar companheiros para criar grupo de bate-bolas no subúrbio carioca (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)
Integrantes das Brilhetes de Anchieta se preparam para o Carnaval 2026: mulheres deixam de acompanhar companheiros para criar grupo de bate-bolas no subúrbio carioca (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Segunda família

Produtora cultural e líder das brilhetes, Vanessa Amorim fundou o grupo em 2013. Antes, ela desfilava como bate-bola na Turma do Brilho, do sogro, fundada em 1991 e hoje administrada pelo marido. Com o passar o tempo, contou, ela e outras mulheres decidiram disputar a rua. “Eu sempre via as meninas ajudando [os companheiros], levando bandeira, olhando criança, e eles à frente. As mulheres ficavam sempre na posição de mãe e esposa e nunca como brincante”, disse à Agência Brasil.

O grupo tornou-se também uma forma de desenvolver laços. Alexandra Cunha, de 44 anos, mãe de três filhos, conta que as brilhetes se tornaram sua segunda família. “É uma emoção grande fazer o que você vai vestir. Gliterar, pregar os lacres nas casacas, o buá…”, disse a dona de casa. “No dia da saída, com o bate-bola pronto, a gente chora de emoção”.

A estudante Ana Júlia Guimarães, de 17 anos, vai desfilar pela primeira vez, junto com a mãe. “Quando eu era pequena, eu tinha muito medo de bate-bola, mas, há três anos, minha mãe entrou na turma e eu vim juntou”, lembrou a adolescente, acrescentando que trabalha com prazer no barracão. “O processo de montar as roupas, a saída, é uma experiência muito legal”.

Para a tão aguardada saída, equipes de som de bailes estão contratadas, e o grupo ainda põe para funcionar um bar, com a intenção de cobrir custos remanescentes. Além de saírem em Anchieta, na zona norte do Rio, as Brilhetes e a Turma do Brilho, do marido de Vanessa, aparecem em bloquinhos do centro ou da zona sul do Rio, assim como prestigiam a saída de bate-bolas de outros bairros e cidades.

Barracão das Brilhetes, em Anchieta, Zona Norte do Rio: capricho nas fantasias para homenagear Conceição Evaristo (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)
Barracão das Brilhetes, em Anchieta, Zona Norte do Rio: capricho nas fantasias para homenagear Conceição Evaristo (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Homenagem a Conceição Evaristo

Em 2026, a turma de Anchieta homenageia a escritora mineira Conceição Evaristo, que completa 80 anos em novembro deste ano. Ela é autora de frases que inspiram as brilhetes ─ muitas delas, mulheres negras ─ como o lema “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”.

A citação estampa uma camiseta do “kit” da turma (blusa, short e meia que usam por baixo da fantasia ou em eventos). Vanessa Amorim diz que a intenção era celebrar Conceição ainda em vida. “Conceição é uma artista que escreve desde sempre e só recentemente foi notada”, destacou Vanessa. “Ela é professora aposentada, sai de uma comunidade para o Rio, uma mulher negra cuja história precisa ser conhecida e reverenciada”, completa.

Em 2025, a turma homenageou Marilyn Monroe, uma artista talentosa que acabou explorada como símbolo sexual. Em anos anteriores, trouxeram temas como a mãe natureza nas fantasias.

A cada ano, as Brilhetes de Anchieta investem em novos recursos, como luz de led e pinturas especiais para se destacar. Em 2026, Vanessa revelou que a máscara, que cobre totalmente o rosto das integrantes, foi pintada à mão, cor por cor, um trabalho que levou semanas. A maior parte foi feita no quintal de sua casa, o barracão ou quartel-general das brilhetes, como é chamado.

É ali que ocorrem tanto as confraternizações e preparação das fantasias ao longo do ano quanto a saída. É aí que vestem o traje completo: macacão bufante e máscara que garantem o anonimato, casaca gliterada (coberta por purpurina), buá, bandeira, bexiga, meia, luva e sapato estilizados.

Para financiar as fantasias, a turma se compromete com pagamentos mensais. No caso das brilhetes, são dez prestações de R$ 150, sem contar itens importantes como o tênis e a essência por conta de cada uma.

O “cheirinho” de bate-bola é uma das marca da manifestação cultural e, este ano, o aroma das mulheres será o de morango. Uma fantasia de bate-bola pode custar entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil.

Brilhetes de Anchieta aplicam essência na fantasia, elemento tradicional de bate-bolas do Rio de Janeiro: manifestação cultural do Carnaval busca mais reconhecimento (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)
Brilhetes de Anchieta aplicam essência na fantasia, elemento tradicional de bate-bolas do Rio de Janeiro: manifestação cultural do Carnaval busca mais reconhecimento (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Bate-bolas sem reconhecimento

Os grupos de bate-bola são extremamente organizados, segundo a professora de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Caroline Bottino. Com a possibilidade de concorrer a editais públicos, eles precisaram se registrar para funcionar.

O apoio financeiro do Estado, no entanto, é aquém do necessário e bem menor que o investimento nas áreas turísticas e centrais do Rio, afirma Caroline, mesmo que o bate-bola tenha sido reconhecido como Patrimônio Cultural, em 2012.

Para a professora, os bate-bolas descentralizam o carnaval, por fazerem a festa no subúrbio, mas só existem devido à resistência de seus integrantes há gerações. “É uma manifestação cultural muito forte do subúrbio, como as escolas de samba, que estão nas comunidades periféricas”, destacou. Entretanto a falta de apoio aos bate-bolas “escancara a segregação de investimentos na festa”, frisou Caroline Bottino. “O carnaval do Rio tem endereço certo e cada vez mais ele é projetado para atrair o turismo”, criticou.

Este ano, os bate-bolas pediram que a prefeitura aceitasse inscrições remotas para o concurso anual de fantasias, que será na Terça-Feira de Carnaval (17/02), no Centro do Rio. Até hoje, é preciso que representantes enviem um responsável presencialmente, pela manhã, para inscrever os grupos na competição, o que inviável para muitas turmas que vivem distante.

“Para a gente, é muito difícil, porque, daqui, saímos de trem, e isso pode demorar 1h, 1h20. É muito complicado ir até lá e depois voltar para pegar a fantasia. É longe”, explicou Vanessa Amorim, que quer participar. “Fizemos uma fantasia de muita qualidade e queremos poder exibi-lá e ter reconhecimento”, disse.

A Riotur, braço da prefeitura que organiza o carnaval, procurada pela Agência Brasil, não forneceu informações atualizadas sobre a competição e não comentou as críticas sobre a centralização de investimentos até o fechamento desta reportagem.

*Isabela Vieira, repórter da Agência Brasil no Rio de Janeiro, é jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com especialização em Sociologia Política e Cultura pela PUC-Rio e Competências Gerenciais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

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