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Filtro natural reduz contaminação da água por hormônios

Trabalho de pesquisadores do Rio Grande do Sul é premiado em evento de sustentabilidade nos EUA


Spohr e Cirio recebem o prêmio da International Sustainable World (Energy, Engineering & Environment) Project Olympiad, em Houston, Texas (EUA). Foto Arquivo Pessoal
Spohr e Cirio recebem o prêmio da International Sustainable World (Energy, Engineering & Environment) Project Olympiad, em Houston, Texas (EUA). Foto Arquivo Pessoal

Assim como os alimentos, os medicamentos que ingerimos produzem substâncias que, não sendo absorvidas pelo organismo, são eliminadas na natureza. Com os contraceptivos não é diferente. Perto de completar 60 anos, em 2020, a venda de pílulas anticoncepcionais e as suas consequências para o meio ambiente ainda são pouco debatidas. No entanto, o consumo elevado e a liberação desses produtos na água são um grave problema global. Estudos comprovam a relação clara com a diminuição de peixes e espécies anfíbias, a contaminação dos corpos hídricos e outros efeitos no ecossistema. Para equilibrar o volume de hormônios no ambiente, países como Estados Unidos e Alemanha já investem em processos como a ozonolização, oxidação e degradação dos compostos hormonais presentes na água. O procedimento, caro, torna-se inviável num país do tamanho do Brasil. Mas pesquisadores do Rio Grande do Sul desenvolveram um método mais barato para a solução do problema: a biorremediação.

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O objetivo dos gaúchos Eduardo Cirio, técnico em química, e Daniel Spohr, graduado em materiais e processos avançados na FAU, na Alemanha, ambos alunos pesquisadores bolsistas do CNPq na Unisinos, é implementar o processo no tratamento das águas do país. Para isso, Cirio trabalha no protótipo de uma Estação de Tratamento de Esgoto que utilize o meio de degradação, maneira possível de reduzir a concentração desses princípios através. Os resultados obtidos na pesquisa são significativos. Todas as combinações utilizadas pelos pesquisadores tiveram uma diminuição da concentração inicial dos compostos hormonais. O melhor resultado alcançado pelos autores foi com a bactéria Bacillus thuringiensis, em que houve uma taxa média de degradação de 82% do hormônio.

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Como parte do projeto, a dupla estudou e mapeou o comportamento das estações de tratamento de esgoto do país, para aproveitar sua estrutura. Eles identificaram o uso da biorremediação em Lagoas Aeradas, uma das formas de saneamento básico, e perceberam que os microorganismos não estavam dando conta da quantidade desses hormônios. Os pesquisadores, então, selecionaram bactérias específicas, obtendo melhores resultados. Depois de publicarem em 2014 o artigo “Utilização de microrganismos na degradação de hormônios estrógenos”, com as professoras Carla Kereski Ruschel (da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha) e Tânia Pizzolato (UFRGS), Spohr e Cirio deram continuidade ao trabalho sob orientação de Carla, e venceram o Prêmio de Incentivo à Pesquisa Carlos Armando Koch da Prefeitura de Novo Hamburgo, em 2013, e ficaram em terceiro lugar na categoria Meio Ambiente da I-Sweeep 2014 – International Sustainable World (Energy, Engineering & Environment) Project Olympiad, em Houston, Texas (EUA).

Os dois pesquisadores no evento em que receberam o Prêmio de Incentivo à Pesquisa Carlos Armando Koch da Prefeitura de Novo Hamburgo. Foto Arquivo Pessoal
Os dois pesquisadores no evento em que receberam o Prêmio de Incentivo à Pesquisa Carlos Armando Koch da Prefeitura de Novo Hamburgo. Foto Arquivo Pessoal

De acordo com Spohr, o fato de o Brasil ser privilegiado em volume de água vinha permitindo aos próprios rios e demais fontes de captação realizar a biorremediação: “Esses estrógenos são biorremediados naturalmente, e por isso não tínhamos esses níveis de estrógeno na água potável, na água da torneira. Mas, com esse excesso de consumo, isso está começando a chegar. E tende a aumentar, porque o recurso natural, a forma natural de biorremediação, não dá conta”.

São problemas graves que estão atrelados à água. O impacto na vida das pessoas é de assustar. Você começa a pensar ‘não vou mais beber água’. As pessoas utilizam os filtros nas casas e acham que a água é boa para tomar, mas o que se tira nos filtros são os resíduos sólidos

Daniel Sphor
Pesquisador

O alto consumo de pílulas no Brasil é verificável no Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico divulgado pela Anvisa. De todos os medicamentos, o 8º princípio ativo mais vendido (entre 50 milhões e 100 milhões) é uma fórmula de contraceptivos (levonorgestrel; etinilestradiol), à frente da nimesulida (10º no ranking), contra inflamação, dor e febre, e usado tanto por homens como por mulheres. Entre os 60 princípios ativos com maior faturamento em 2017 no país, cinco são contraceptivos, ou seja, cerca de 10% (o maior deles, gestodeno; etinilestradiol).

“São problemas graves que estão atrelados à água. O impacto na vida das pessoas é bem forte, é de assustar. Você começa a pensar ‘não vou mais beber água’. As pessoas utilizam os filtros nas casas e acham que a água é boa para tomar, mas o que se tira nos filtros são os resíduos sólidos. Eu me preocupo como consumidor dessa água e me sinto na obrigação de fazer alguma coisa na área da pesquisa”, diz Sphor.

O projeto procura sanar um problema de saúde pública que grande parte das pessoas desconhece, inclusive o poder público. “Conversamos com autoridades públicas, procurando parcerias na Estação de Tratamento em Porto Alegre. Mostraram interesse no nosso trabalho, mas tinham conhecimento zero do assunto”, conta Cirio.

Baixo também é o ritmo dos investimentos em saneamento no Brasil, que deveria ser de R$ 15 bilhões ano, mas ficou abaixo de R$ 7 bilhões, empurrando para perto de 2060 a estimativa da universalização do serviço. Assim, o Brasil está longe de garantir dois dos direitos humanos à população: o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário. Pelo menos 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada e 49% da população não é atendida por sistema de coleta de esgoto, segundo relatório do Instituto Trata Brasil. É como se 5.000 piscinas olímpicas de esgotos fossem despejadas na natureza diariamente. “Antes de querer tratar de problemas como estrógeno, a gente tem que tratar os problemas básicos”, afirma Daniel Spohr.

Ainda de acordo com o pesquisador, é mais fácil focar no tratamento da água do em  campanhas pelo uso consciente de anticoncepcionais ou antibióticos. “Mas, apesar das dificuldades em ambos os caminhos, é preciso modificar com urgência o cenário atual, uma vez que se trata de complicações preocupantes”.

Estudo publicado na revista Science, em 2016, aponta que os hormônios dispensados pelo organismo humano desregulam o organismo dos peixes ao chegarem a bacias e oceanos. De acordo com a pesquisa, a elevada concentração do hormônio leva os machos da espécie a apresentarem características femininas, fato que pode resultar na sua extinção. No Brasil, Karina Scurupa Machado, em dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Paraná, em 2010, demonstrou a presença desses compostos nos corpos hídricos e até nos efluentes domésticos da Bacia do Alto Iguaçu, região metropolitana de Curitiba.

Entre 2013 e 2017, o Programa de Consolidação do Pacto Nacional pela Gestão das Águas (Progestão) transferiu R$ 73,8 milhões aos estados para o desenvolvimento da gestão de recursos hídricos. O Progestão é um programa de incentivo financeiro da Agência Nacional de Águas (ANA) aos sistemas estaduais, para aplicação exclusiva em ações de fortalecimento institucional e de gerenciamento de recursos hídricos. A quantia de até R$ 5 milhões por estado é liberada mediante o cumprimento das metas pactuadas e da efetivação de investimentos com orçamento próprio mínimo de R$ 250 mil.

65/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


Escrito por Beatriz Vilardo

Estudante de jornalismo da PUC-Rio e bolsista de Iniciação Científica, em pesquisa sobre livros-reportagem. Estagia desde o primeiro período da faculdade, como assistente de comunicação do Centro Loyola de Fé e Cultura, apresentadora e produtora do CNT Notícias RJ, produtora e roteirista de documentário do Coral da PUC-Rio.
Amante da natureza, se dedica a causas ambientais.

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