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Bolívia e Paraguai também sofrem com queimadas

Incêndios atingem floresta tropical boliviana e pantanal paraguaio, produzindo crises políticas e exigindo investimento dos dois governos


Helicóptero militar despeja água de bolsa para tentar apagar queimadas na região de Roboré. na Bolívia. Foto de Carlos Orias B
Helicóptero militar despeja água de bolsa para tentar apagar queimadas na região de Roboré. na Bolívia (Foto de Carlos Orias B)

Por Giovanny Vera, de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia*

Agosto foi um mês trágico não só para a Amazônia brasileira, que sofreu com um recorde de queimadas, mas também para a Bolívia e o Paraguai, que, assim como o país vizinho, continuam combatendo focos de incêndios que se revitalizam cada dia, amparados pela baixa umidade e os fortes ventos. Com números cada vez maiores de queimadas e com um tímido, ou quase nulo, apoio ao combate ao fogo por parte de seus governos, agora a população exige uma luta ativa contra os incêndios florestais.

As queimadas e seus impactos vão além das fronteiras. Nas regiões do Pantanal, compartilhado entre Bolívia e Paraguai e também na Chiquitania boliviana, grandes queimadas tiveram sua contribuição para o rio de fumaça que chegou até São Paulo para cobrir seu céu e continuou até a região Sul do Brasil.

Houve dias em que a concentração de focos de calor e as emissões de dióxido de carbono (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2) foram muito altas. Elas se apresentaram simultaneamente nas áreas mencionadas, e coincidiram com os ventos vindos de norte a sul. Transportaram a fumaça desde a Amazônia, se juntando às emissões da Bolívia e Paraguai, conforme explicou Armando Rodríguez, gerente de projetos de geomática da Fundação Amigos de la Naturaleza (FAN), da Bolívia. De acordo com ele, a situação atual de queimadas tem fatores comuns, como “a época seca que começou mais cedo em relação a anos anteriores, fortes ventos atípicos neste período, e atividades humanas, como o desmatamento para abertura e habilitação de novas terras para plantios”.

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Outra coincidência aconteceu no Brasil e na Bolívia: o descaso dos governos dos dois países diante do iminente perigo de descontrole dos incêndios. Foram mais de 20 dias de queimadas sem apoio às instituições de combate ao fogo, até que, por pressões da população, os presidentes Jair Bolsonaro e Evo Morales, cada um em seu país, decidiram enviar ajuda. Foi assim que no dia 22 de agosto a Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) declarou Morales e Bolsonaro como personas non gratas em uma carta aberta aos povos indígenas.

Também foi elaborada declaração de emergência ambiental e humanitária pela Coica. Nesses documentos, os presidentes foram acusados de apresentar falta de vontade e incapacidade para proteger os povos indígenas e a biodiversidade, frente aos incêndios florestais em seus países.

Já no Paraguai, a Secretaria de Emergência Nacional (SEN) atuou desde a segunda semana de agosto no combate ao fogo no Pantanal paraguaio. Por isso, conseguiu controlá-lo logo, enviando aviões e especialistas à região afetada.

Incêndios na Serra de Ricardo Franco, no Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia. Foto do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso
Incêndios na Serra de Ricardo Franco, no Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia (Foto: Corpo de Bombeiros do Mato Grosso)

População em pânico

Na Bolívia, as regiões mais afetadas com as queimadas são a de Chiquitania, área de transição entre a Amazônia e o Chaco, e a do Pantanal. A partir da segunda metade de agosto, o fogo se descontrolou, ameaçando povoados e espalhando pânico entre os moradores, incapazes de apagá-lo.

Dados do Inpe mostram que na Bolívia os focos de calor começaram a se multiplicar a partir de junho, até somarem 14.307, num total de 19.871 pontos detectados em 2019. Por sua vez, o Sistema de Monitoramento e Alerta Precoce de Riscos de Incêndios Florestais (Satrifo), da Fundação Amigos da Natureza (FAN) da Bolívia, informou que foram registrados mais de 2,1 milhões de hectares queimados no país inteiro neste ano, até o dia 27 de agosto.

Apesar da emergência, Evo Morales declarou que a Bolívia tinha os recursos necessários para o combate ao fogo e se negou a solicitar ajuda estrangeira. Repetiu Jair Bolsonaro em relação às queimadas na Amazônia brasileira. Na quinta-feira, 22 de agosto, o governo boliviano anunciou a contratação do maior avião-tanque do mundo, o Supertanker Boeing 747, para ajudar na luta contra os incêndios. O avião vem operando junto a helicópteros militares e aeronaves agrícolas pulverizadoras.

Em uma primeira avaliação, a devastação tinha atingido, até 24 de agosto, mais de 700 mil hectares de bosques, em 35 comunidades de 11 municípios, afetando, pelo menos, 1.817 famílias, de acordo com Javier Zavaleta, ministro da Defesa boliviano. Com o fogo se agravando, e depois de uma semana marcada por manifestações de moradores e autoridades da região afetada, no domingo, 25 de agosto, Morales aceitou a oferta de ajuda de Argentina, Peru, Paraguai, Chile e Espanha, além de apoio financeiro oferecido pela Corporação Andina de Fomento (CAF).

Pesquisadores, autoridades e instituições ambientalistas bolivianas avaliam que as queimadas estão relacionadas a uma série de medidas que o presidente vem tomando na área do meio ambiente. Um exemplo é o assentamento de colonos ligados ao seu partido político, dentro de unidades de conservação na Chiquitania, conforme comentou Rosa Virginia Suárez, coordenadora da ONG Probioma. “Grupos de pessoas são trazidos para a região para colonizar e para abrir novos campos agropecuários, em unidades de conservação que fornecem água ao Pantanal e para toda a região”.

Para Vincent Vos, biólogo pesquisador, “os incêndios são resultado direto de políticas governamentais focadas na ampliação da fronteira agropecuária e o fomento ao agronegócio, com custos ambientais e sociais inaceitáveis”. Segundo ele, o governo boliviano tem realizado alterações nas normas ambientais que “favorecem e promovem o desmatamento, novos assentamentos e atividades agropecuárias em zonas com vocação florestal”, sem respeitar recomendações técnicas e científicas. O presidente Morales promulgou decreto, um mês antes de as queimadas se descontrolarem, no qual foram autorizados, nas regiões de Santa Cruz e Beni, o desmatamento e a queima controlada de mata, com o objetivo de favorecer atividades agropecuárias.

Unidades de conservação atingidas no Paraguai

Bombeiros em área de queimada no Paraguai (Foto da Secretaria de Emergência Nacional
Bombeiros em área de queimada no Paraguai (Foto da Secretaria de Emergência Nacional

A Bolívia e o pantanal paraguaio enfrentaram incêndios simultâneos que devastaram cerca de 39 mil hectares de áreas de floresta e pastagens. Além disso, ainda afetaram duas unidades de conservação, segundo a Secretaria de Emergência Nacional (SEN) do Paraguai. O fogo teria se iniciado no lado boliviano, e de lá pulou para Bahía Negra e Chovoreca, na região Alto Paraguai, a mais de 800 quilômetros de Assunção. Até a terceira semana do mês de agosto foram registrados 10.723 focos de calor.

Joaquin Roa, ministro da SEN, informou que os incêndios no pantanal paraguaio foram controlados pelas equipes enviadas de Assunção, mas devido às situações críticas nos lados boliviano e brasileiro, o presidente Mario Abdo Benitez orientou que a Secretaria esteja pronta para novos casos de queimadas. O plano terá como base a cidade de Forte Olimpo, a quase 800 quilômetros da capital.

De acordo com Oscar Rodas, diretor de Mudanças Climáticas da WWF Paraguai, as queimadas afetaram mais de 20 mil hectares do Parque Nacional Rio Negro, que é Pantanal, e, pelo menos 10 mil hectares na zona da Reserva Natural Chovoreca, onde a vegetação é de bosque seco. “Chovoreca poderá ser ainda mais afetado, dependendo da intensidade dos incêndios, levando em conta que a época de queimadas está começando e vai até outubro”.

Diante da situação das queimadas, o Senado paraguaio declarou situação de emergência ambiental para as duas regiões afetadas pelas queimadas: Alto Paraguay e Boquerón. O regime especial terá duração de dois meses, com objetivo de apoiar a população local e instituições, disponibilizando recursos para o combate ao fogo.


Escrito por Amazônia Real

A agência de jornalismo independente Amazônia Real é organização sem fins lucrativos, sediada em Manaus, no Amazonas, que tem a missão de fazer jornalismo ético e investigativo, pautada nas questões da Amazônia e de sua população, em especial daquela que tem pouca visibilidade na grande imprensa, e uma linha editorial em defesa da democratização da informação, da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

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