Foto colorida da cidade de Arroio do Meio submersa após as enchentes de setembro de 2023

Imagem aérea de Arroio do Meio após a enchente de setembro de 2023; mais de 200 casas foram destruídas na época (Foto: Maicon Schnorr/Prefeitura de Arroio do Meio - 12/09/2023)

Por que o Vale do Taquari sofre tanto com enchentes

Por que o Vale do Taquari sofre tanto com enchentes

Por Micael Olegário ODS 13

Geografia regional possui características de planície de inundação. Desmatamento de encostas e ocupação irregular de margens eleva risco de desastres

Publicada em 30 de abril de 2026 - 01:28

Vale do Taquari (RS) – “Mataram a barranca dos rios, tiraram a proteção do rio. Tinham muitas árvores que seguram a terra”. A observação é de Leni dos Santos Silva, 80 anos, todos vividos às margens do Rio Taquari, em Muçum. As chuvas extremas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2023 e 2024 teriam, inevitavelmente, aumentado o nível dos Rios, porém, a dimensão dos desastres se deve muito às dinâmicas de ocupação urbana e às infraestruturas das cidades.

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A região do Vale do Taquari sempre enfrentou cheias e enchentes. Porém, no contexto de mudanças climáticas, os impactos ficaram mais intensos e os eventos extremos mais frequentes. Em 2 de maio de 2024, o nível do Rio Taquari atingiu 33,66 metros em Lajeado, superando os recordes anteriores de 29,92 metros, em 1941, e 29,5 metros, da enchente de setembro de 2023.

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“A água está subindo cada vez mais rápido. Isso quer dizer que a chuva nas cabeceiras e nas cidades está chegando cada vez mais rápido no Rio, porque a cidade está cada vez mais pavimentada, com uma drenagem mais em tubulação e menos permeável”, aponta Marcelo Heck, arquiteto e professor universitário. 

Marcelo foi um dos responsáveis por coordenar o processo de revisão dos planos diretores de sete municípios do Vale do Taquari. Segundo ele, além de cuidar das matas ciliares nas margens do Rio, é preciso olhar para a terra. “Temos que pensar na cidade inteira, para que ela tenha maior permeabilidade do solo, para que a chuva vá penetrando no solo e evite a ocorrência de grandes enxurradas”.

Mas as ocupações irregulares e o desmatamento das matas ciliares, seja para construção de moradias ou para a agricultura, não é algo recente. “Estamos tentando resolver um problema que é histórico em um curto prazo de tempo”, pondera Luciana Turatti, professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Foto colorida de casa destruída pelas enchentes, com escombros na frente e um tronco de árvore que aparece atrás de uma área aberta
Resiliência climática envolve recuperação de matas ciliares e melhorar drenagem do solo nas cidades da região; casa no bairro Navegantes, em Arroio do Meio (Foto: Jonatan Soares)

Planície de inundação

Como o próprio nome indica, o Vale do Taquari é uma planície de inundação, ou seja, uma área de várzea que fica na parte mais baixa da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antes, que nasce nos Aparados da Serra. É comum que essas áreas possuam solos aluviais propícios para a agricultura, justamente, pela deposição de sedimentos trazidos pelo Rio.

“Recebemos toda a água que vem do Rio das Antas. Historicamente, estamos inseridos numa área exposta e suscetível”, explica Denise Berwanger, geógrafa com mestrado na área. Em sua pesquisa de dissertação, ela estudou justamente as áreas de risco de inundação em Arroio do Meio, município onde reside.

Denise chama atenção para o fato de existirem registros de enchentes na região desde 1873, mesmo assim, a infraestrutura urbana seguiu avançando para as bacias de alagamento do Rio. Parte do desafio de adaptação climática, na visão da geógrafa, está ligada à falta de profissionais para atuar na Defesa Civil desses municípios.

Outro fator que dificulta esse trabalho de pensar a médio e longo prazo está na mudança de gestão política. “A cada 4 anos temos mudanças nas defesas civis, porque são cargos comissionados, Então, toda aquela experiência técnica daquele profissional, quando muda a prefeitura, geralmente se perde”. aponta Denise. Como alternativa para lidar com esse problema, ela menciona a criação de Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) nas cidades da região.

Além disso, segundo balanço do governo estadual, o quadro da Defesa Civil do RS foi ampliado de 42 militares para 131, com incorporação de 32 técnicos especializados – entre eles: meteorologistas, geólogos e engenheiros. Também foi criado um Centro de Monitoramento, com operação 24 horas por dia, e adotada uma plataforma para a Divulgação de Alertas Públicos (Idap), enviados por celular.

Foto colorida com placa que informa se tratar de uma área de arraste. Ao fundo, terra e margem do Rio Taquari
Placa que alerta população sobre riscos na área de arraste; bairro Navegantes, em Arroio do Meio (Foto: Jonatan Soares)

Solos e cidade-esponja

Marcelo Rech lembra que não são apenas as estruturas de concreto que impermeabilizam o solo, ainda que a urbanização seja a principal responsável por esse processo. “Uma área rural, quando não tem rotatividade de culturas ou em culturas específicas, por exemplo, a soja, quando tem uma rotatividade de cultura, impermeabiliza o solo quase tanto quanto uma área urbanizada”.

A reconstrução do Vale do Taquari contou também com um mapeamento de áreas de risco, considerando a vulnerabilidade para enchentes e/ou deslizamentos. Nesse processo, o conceito de cidade-esponja tem aparecido com certa frequência, principalmente, ao se considerar o que fazer nas áreas de arraste, onde a força do Rio destruiu quase tudo e o risco de novas enchentes é elevado.

Segundo Marcelo, a ampliação das áreas verdes e a recomposição das matas ciliares podem ajudar nesse processo de tornar as cidades mais resilientes a eventos extremos. Porém, o arquiteto ressalta que isso não pode ser restrito apenas às margens do Rio. “A cidade inteira – em alguma medida – precisa funcionar como uma esponja”.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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