Foto colorida de escombros e túmulos revirados no cemitério destruído pela enchente em Muçum

Enchente em Muçum atingiu cemitério local, destruiu lápides e revirou túmulos (Foto: Micael Olegário)

Muçum: uma cidade abalada por três enchentes consecutivas

Muçum: uma cidade abalada por três enchentes consecutivas

Por Micael Olegário ODS 13

Município foi devastado três vezes em intervalo de aproximadamente 8 meses. Com mais de 80% da área urbana afetada, desafio é encontrar locais para novas moradias

Publicada em 30 de abril de 2026 - 01:25

Muçum (RS) – Dois anos depois de ser devastada pela terceira enchente de grandes proporções em menos de um ano, a cidade de Muçum paira em suspenso. A combinação do silêncio – típico de uma pequena cidade – com lojas vazias e placas de casas à venda, passa a impressão de uma cidade em que o tempo parou.

“Não terminou, na verdade. Dois anos depois, a gente continua limpando”. O relato é de Leonardo Bastiani, 59 anos. Encontro ele organizando prateleiras de sua loja de produtos de limpeza e outros ítens variados, próxima à praça central de Muçum. Na quinta-feira de abril em que visitei o município do Vale do Taquari, o tempo estava nublado e uma garoa caía de forma tímida do céu.

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Em determinado ponto da conversa, Leonardo mostra alguns ítens recuperados da enchente, principalmente bases de vassouras de plástico, em liquidação desde então. Segundo ele, muita coisa está sendo vendida a preços mais baixos na cidade, inclusive, os imóveis. 

Muita gente foi embora em 2023 e em 2024, quando a enchente afetou cerca de 80% da área urbana de Muçum. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Muçum tinha cerca de 4.601 habitantes. Todos os moradores são unânimes ao dizer que esse número diminuiu, pelo menos, em cerca de 500 pessoas.

Fotos históricas de toda a cidade, do meu nascimento, da minha família, de todos os amigos, tudo se perdeu

Leonardo Bastiani
Comerciante de Muçum

Quando visitei a cidade, equipes trabalhavam na limpeza dos escombros de residências próximo ao cemitério local. É uma imagem que revela a impossibilidade de dimensionar o desastre. São lápides em meio a escombros, túmulos quebrados e abertos, além de quadros com fotos de antigos moradores espalhadas. É um cenário que mostra como a crise climática atinge também as memórias de um lugar.

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“A gente só saiu de casa por causa da enchente, porque (se pudesse) de lá não tinha saído”, conta Leni dos Santos Silva, 80 anos. A casa a que ela se refere é o local onde morou por 20 anos, no bairro São José, um dos primeiros e mais intensamente atingidos pela força da água durante o desastre de 2024.

O depoimento de Leni releva outro drama enfrentado pelo município: centenas de pessoas sem ter onde morar. Estimativas da prefeitura indicam a necessidade de construção de 500 novas moradias, parte delas já em andamento e algumas já concluídas. Porém, para uma cidade erguida na beira do Rio Taquari e cercada por morros, encontrar locais seguros para se construir é o desafio atual.

Foto colorida com vista aérea de como ficou a cidade de Muçum após as enchentes de setembro de 2023. Na imagem, diversas casas destruídas
Vista aérea da cidade de Muçum após as enchentes de setembro de 2023; cidade foi destruída três vezes em 8 meses (Foto: Maurício Tonetto/Secom)

Chuvas de 2023

Antes do Rio Grande do Sul enfrentar o seu pior desastre climático da história, em maio de 2024, as cidades do Vale do Taquari já tinham sido devastadas por enchentes severas. Era início de setembro, época em que chuvas são esperadas na região. Mas o que aconteceu, surpreendeu a todos.

“Estávamos planejando em 21 metros (nível em que o Rio Taquari chegaria), que foi a primeira informação, quando veio que a enchente chegaria em 25 metros, nós ficamos apavorados”. O relato é de Amarildo Baldasso, então vice-prefeito e hoje prefeito de Muçum. Na época, o Rio subiu 13 metros acima do normal e atingiu 29m45cm.

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“Eu ouvia as pessoas pedindo socorro e não tinha o que fazer, não tinha como chegar. Foi a pior cena que eu já vivi, naquela noite do dia 4 de setembro”. Amarildo descreve a angústia que se seguiu, com a tentativa de localizar cerca de 280 pessoas desaparecidas. Aos poucos, a maioria foi encontrada, mas nem todas. Muçum perdeu 21 moradores.

Muçum é daquelas cidades em que quase todo mundo se conhece e, quando se anda na rua – mesmo sendo de fora – as pessoas te cumprimentam. Por isso, a morte de tantas pessoas de uma só vez foi como um verdadeiro cataclisma, um choque.

“Na minha terra natal, chamada Linha Alegre, onde eu nasci e me criei, ali perdi uma prima, dois primos e a esposa de um primo meu. O Rio subiu a baranca e ganhou velocidade e levou a casa… quando notaram, arrastou tudo e eles estavam lá dentro”, relembra Vilmar Zílio, 70 anos, dono de um bazar e papelaria em Muçum.

Em outra casa, na esquina em que fica a loja de Vilmar, outras três pessoas também perderam a vida. Na enchente, a água atingiu todo o primeiro andar do prédio de três andares e chegou a cerca de 1,20 metros do segundo. Naquela noite, Vilmar e sua família tentavam salvar alguns de seus pertences e ouviram os gritos de socorro, também sem poder fazer nada. “Na manhã seguinte, estávamos aqui em cima e os bombeiros passaram com os três corpos desses nossos vizinhos”.

O cenário era de guerra: “não tinha mais escola, não tinha mais banco, não tinha mais loja ou farmácia na cidade, não tinha mais nada”, relata Amarildo. Na linha de frente, ele explica como se deu o trabalho de formar um comitê de crise para começar a limpar e reorganizar a cidade, processo que levou cerca de 3 meses, até uma nova cheia, em novembro de 2023.

“Nós tínhamos muita comida guardada, porque tínhamos recebido, mas perdemos tudo. As famílias que tinham voltado para as casas, tiveram que sair de novo”. Esse segundo episódio não foi tão severo como o anterior, além dos órgãos públicos já estarem em alerta e os próprios moradores mais atentos com as previsões meteorológicas.

Foto colorida de Neli e Nadia dos Santos Silva. Neli é uma mulher negra idosa, com cabelo grisalho e usa uma blusa laranja. Nadia é uma mulher negra, usa óculos e tem cabelo preto. Usa uma blusa cinza.
Neli, 80 anos, ao lado da filha Nadia, 60 anos; família se mudou para nova casa após perder tudo na enchente (Foto: Micael Olegário)

Novo desastre em meio à reconstrução

No início de 2024, Amarildo conta que a prefeitura estava planejando voltar a realizar eventos na cidade, como uma forma de recuperar a autoestima dos moradores. Em meio à retomada da normalidade no Vale do Taquari, vieram as chuvas e enchentes de abril e maio de 2024.

“A cidade ficou 14 dias sem luz que destruiu as redes. A última comunidade em que voltou a energia levou 62 dias”, menciona o prefeito, sobre a devastação na infraestrutura local, o que incluiu também as estradas e acessos às comunidades rurais. O hospital – em uma parte mais elevada do centro – passou a servir como gabinete de mais uma crise.

Após ter saído de casa em 2023, Leni tinha voltado a morar no Bairro São José, junto com a filha Nadia, 60 anos. “Não tinha muita correnteza para levar embora, mas condenou a casa, não dava mais para morar”, explica Nadia. Tudo foi perdido e Leni ficou apenas com a identidade, outros documentos e fotos da família desapareceram nas águas.

Foto colorida que mostra casas construídas após as enchentes no bairro Jardim Cidade Alta 2, em Muçum
Casas construídas no bairro Jardim Cidade Alta 2, em Muçum, para receber moradores atingidos pelas enchentes (Foto: Micael Olegário)

Moradias

Por um tempo, Leni e Nadia deixaram Muçum, porém, a saudade da cidade natal as fez voltar. Foi quando Nadia buscou apoio via aluguel social, benefício recebido ao longo de 1 ano, até fevereiro de 2026, quando elas se mudaram para a nova casa no Loteamento Jardim Cidade Alta 2, onde as encontrei. 

Trata-se de uma casa pré-moldada, idêntica às residências vizinhas. O espaço é pequeno, com dois quartos, um banheiro e sala e cozinhas conjugadas. Leni e Nadia mencionam o desafio da readaptação, principalmente, em relação ao tamanho da residência anterior, por outro lado, destacam o acolhimento e as doações recebidas.

As residências foram construídas com recursos do Movimento União BR e aporte do governo do RS e da prefeitura. Ao todo, são 42 casas dessa iniciativa. Em outro loteamento, chamado Renascer, a previsão é de mais 72 casas. Muitas famílias também conseguiram comprar residência via Compra Assistida, programa do governo federal.

“Nós temos casas suficientes, juntando todos os programas e incluindo o Compra Assistida para realocar todas as famílias. Mas o nosso problema é onde. As áreas ou tem nível de inclinação que não permite construção de casas ou o investimento em infraestrutura é muito alto”, explica Wagner Capitânio, secretário de Planejamento e Habitação de Muçum.

Em outra área, na linha Santa Lúcia, a previsão é de construção de mais 110 a 120 casas, porém, a prefeitura ainda aguarda recursos para concretizar a desapropriação. Além disso, todas as construções em uma área da cota de inundação de 23 metros foram proibidas e serão transformadas em parques.

Foto colorida de Leonardo Bastiani, em frente à fachada de sua loja no centro de Muçum. Ele é um homem branco, com cabelo grisalho, usa uma camiseta cinza e bermuda jeans
Leonardo ainda está limpando e recuperando mercadorias atingidas pelas enchentes (Foto: Micael Olegário)

Um futuro nublado

“Te falo que com um pouquinho de arrependimento, porque não sei se eu devia ter investido praticamente 80% das minhas fichas aqui de novo. Mas é que a gente não tinha, era ou parar ou tentar de novo”, afirma Leonardo Bastiani. A enchente de setembro destruiu uma indústria de produtos de limpeza que ele mantinha na parte mais baixa da cidade.

A partir desse momento, o empresário começou a acumular dívidas. Muitos comerciantes, porém, decidiram ir embora. O que explica os diversos espaços comerciais com placas de “aluga-se” no centro da cidade. “Os poucos que ficaram ainda estão correndo risco tudo de novo”, cita Leonardo, em relação à incerteza com o futuro.

Além das perdas financeiras que teve com a indústria e com a loja, Leonardo menciona a desvalorização dos imóveis e as perdas que atingem a memória de sua infância. “A minha mãe tinha um acervo fotográfico enorme. Meu irmão de discos, de vinil, umas coletâneas enormes, bonitas. Perdeu tudo. Fotos históricas de toda a cidade, do meu nascimento, da minha família, de todos os amigos, tudo se perdeu”.

Foto colorida de Vilmar Zilío, em seu bazar e papelaria no centro de Muçum. Ele é um homem branco, idoso, com cabelo branco, usa óculos e camiseta cinza com detalhes pretos
Vilmar é dono de bazar e papelaria no centro de Muçum; movimento diminuiu drasticamente depois das enchentes (Foto: Micael Olegário)

Nascido no interior, Vilmar foi agricultor antes de se tornar comerciante. Depois da primeira enchente, ele e a esposa pintaram novamente a loja, mas aí veio a segunda e depois a terceira. “Nós pegamos oito enchentes em 25 anos, mas que nem essas de 2023 e 2024 nunca aconteceu. As outras nós sempre levantávamos as prateleiras, o rio entrava meio metro, um metro ou dois”. Em um intervalo de oito meses, quatro vezes a água invadiu a sua loja.

Em caso de um novo desastre, Vilmar pretende fechar a loja e seguir morando no segundo piso. Segundo ele, os filhos desejam que ele e a esposa se mudem, porém, como deixar para trás o que foi construído ao longo de uma vida toda? “É o que a gente tem, é o que trabalhamos para ter”, enfatiza.

O ambiente em torno da cidade é de insegurança novamente por conta das previsões do fenômeno El Niño, o mesmo que estava ativo em 2023 e 2024. Apesar disso, todos os moradores enaltecem a qualidade de vida em Muçum, assim, a vontade de permanecer ainda prevalece, apesar do medo.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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