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O mar não está para peixe

Aquecimento das águas, acidificação e sobrepesca ameaçam a cadeia alimentar


A situação é mais grave no Atlântico Norte, onde a vasta maioria das espécies, como bacalhau, solha e linguado experimenta queda em seus números
A situação é mais grave no Atlântico Norte, onde a vasta maioria das espécies, como bacalhau, solha e linguado experimenta queda em seus números

“Nunca jamais se viu tanto peixe assim.”

(“Arrastão”, Vinícius de Moraes)

Corria o ano de 1965 quando Elis Regina subiu ao palco para fazer uma impressionante interpretação de “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, vencedora do festival de música brasileira da TV Excelsior.

Cinquenta anos depois, seria impossível compor uma canção tão otimista. Os peixes minguam, populações migram em massa com o aquecimento das águas, a acidificação do oceano ameaça a base de sua cadeia alimentar. Além disso, na falta de políticas claras (ou de sua execução), a sobrepesca continua a exibir números dramáticos.

A pesca pesada ao longo do tempo pode ter um papel importante nesta história. Os peixes grandes, que produzem as ovas maiores e mais saudáveis, estão sendo tirados da água em quantidade descontrolada, mesmo com programas de manejo e conservação.

Ainda, o aumento dos níveis de carbono pode intoxicar espécies marinhas. As concentrações na água alcançariam níveis altos o bastante para desorientá-los, uma festa para os predadores, segundo a Science World Report.

Há mais uma má notícia: a capacidade de reprodução de populações de peixes se encontra em declínio em todo o mundo. É o que diz estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Até onde sabemos, é o primeiro estudo em escala global a documentar o fato”, afirma Gregory Britten, estudante de doutorado da Universidade da Califórnia-Irvine.

Britten e colegas se debruçaram sobre uma base de dados mundial de 262 pontos de pesca comercial em dezenas de grandes ecossistemas marinhos no globo. E observaram um padrão de declínio em peixes juvenis (aqueles que ainda não chegaram à idade de reprodução) intimamente relacionado ao declínio na quantidade de fitoplâncton na água. Estas minúsculas algas são a base da cadeia alimentar marinha.

A pesca pesada ao longo do tempo pode ter um papel importante nesta história. Os peixes grandes, que produzem as ovas maiores e mais saudáveis, estão sendo tirados da água em quantidade descontrolada, mesmo com programas de manejo e conservação.

A situação é mais grave no Atlântico Norte, onde a vasta maioria das espécies, como bacalhau, solha e linguado apresenta queda nos números. No Pacífico Norte as alterações são menos significativas.

A diminuição dos estoques afeta na verdade o mundo todo, em menor ou maior escala. O Oceano Índico, por exemplo, que contém cerca de 20% da água da superfície da Terra, e banha Ásia, África e Austrália, sofre com o aquecimento rápido. “Ele está tendo um papel importante ao reduzir os fitoplânctons em até 20%”, disse ao Indibay o cientista Matthew Roxym, do Centro de Pesquisa da Mudança do Clima do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical. “Esta queda alarmante aconteceu nas últimas seis décadas. Uma região produtiva poderá se tornar um deserto ecológico”.

Jon Hare, oceanógrafo da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos EUA, é mais cauteloso. Segundo disse ele ao Wather Channel, são necessárias mais análises de espécies individuais e “as estimativas, são por enquanto, apenas estimativas”, acrescentando que “temos atualmente uma boa ideia de como os peixes serão afetados, em 20, 30, ou mesmo 50 anos, e devemos responder. Além disso, é difícil”.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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