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A culpa não é da vítima

Cientista brasileira da Universidade de Oxford alerta para o perigo de colapso da floresta amazônica. Somente no dia 5/9 foram registrados 2123 focos de incêndio


Incêndio florestal em 2015, na região de Santarém, Pará (Foto Erika Berenguer)
Incêndio florestal em 2015, na região de Santarém, Pará (Foto Erika Berenguer)

Nem no Dia da Amazônia, a floresta foi poupada. Milhares de focos de incêndio foram detectados no bioma pelos sistemas de monitoramento do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A província do Amazonas foi criada por D. Pedro II, 168 anos atrás, num dia 5 de setembro, razão da efeméride. Mas, como comemorar se o número de queimadas na região, só em 2018, passa dos 20 mil?

Os cientistas sabem que a Amazônia está chegando no seu limiar de resiliência, quando a floresta entra em colapso. E eu faço um paralelo com o Museu Nacional, pois todos os pesquisadores e técnicos do museu sabiam que havia riscos de incêndio e fizeram inúmeros alertas. Nada foi feito e perdeu-se tudo. Nós também temos feito estudos, artigos e alertas de que a floresta vai colapsar. E o que tem sido feito?

Erika Berenguer

Erika Berenguer, pesquisadora sênior do Instituto de Mudanças Ambientais, da Universidade de Oxford, estuda há nove anos o impacto do fogo e da extração de madeira nos estoques de carbono e na biodiversidade da Amazônia brasileira. “Os cientistas sabem que a Amazônia está chegando no seu limiar de resiliência, quando a floresta entra em colapso. E eu faço um paralelo com o Museu Nacional, pois todos os pesquisadores e técnicos do museu sabiam que havia riscos de incêndio e fizeram inúmeros alertas. Nada foi feito e perdeu-se tudo. Nós também temos feito estudos, artigos e alertas de que a floresta vai colapsar. E o que tem sido feito?” analisa a cientista.

A fumaça dos incêndios se espalha na Amazônia (Foto Erika Berenguer)
A fumaça dos incêndios se espalha na Amazônia (Foto Erika Berenguer)

Em 2015, Erika e sua equipe estavam no Pará quando ocorreu um incêndio de grandes proporções na região de Santarém, que durou quatro meses e afetou mais de 7400 km2 de florestas. A cientista teve a oportunidade de coletar dados antes, durante e depois do incêndio florestal. “Um dos fatores que facilita o limiar do colapso é o desmatamento, e as taxas têm aumentado de 2015 para cá. A cada ano são 5 mil km2 perdidos somente na Amazônia brasileira”, lamenta a pesquisadora.

O fogo tem se espalhado de maneira descontrolada por grandes extensões de Floresta Amazônica graças à ação do homem. Quando a floresta morrer não será possível culpar a vítima.

A pesquisadora é co-autora em quatro estudos que serão publicados em novembro, numa edição especial sobre o El Niño do “Philosophical Transactions Royal Society”, primeiro periódico científico do mundo, publicado desde 1665. “Publicaremos um estudo sobre o impacto nas emissões de carbono durante os incêndios e, outro, sobre a regeneração das florestas após esses incêndios”, adianta Erika.

A pesquisadora Erika Berenguer numa foto com o antes e o depois dos incêncios (Foto arquivo pessoal)
A pesquisadora Erika Berenguer numa foto com o antes e o depois dos incêncios (Foto arquivo pessoal)

Há três anos a Amazônia viveu uma situação de seca extrema, intensificada pelo fenômeno climático El Niño. Nesse período, o INPE detectou mais de 87 mil focos de incêndios na região, um aumento de 48% em relação a 2014, ano em que não foi registrada a ocorrência do El Niño.

A comunidade científica alerta que o clima amazônico tem se tornado mais quente e seco, o que deixa a floresta mais inflamável por causa do estado de degradação – sua cobertura tem menos copas, ou seja, por ser mais aberta permite a entrada de mais sol e vento, tornando-se mais seca, um combo de vulnerabilidade para incêndios. Estudos anteriores, dos quais Erika participou, mostraram que, após o fogo, as florestas queimadas que já sofreram com a exploração madeireira predatória perdem, em média, 40% de seus estoques de carbono,  e apresentam até 94% menos espécies de árvores, 54% de aves e 86% de besouros rola-bosta, uma perda que pode persistir por décadas. “Historicamente, a Amazônia não é um sistema florestal que queima”, explica a cientista.

O fogo tem se espalhado de maneira descontrolada por grandes extensões de Floresta Amazônica graças à ação do homem. Quando a floresta morrer não será possível culpar a vítima.


Escrito por Marizilda Cruppe

Marizilda Cruppe

​Marizilda Cruppe tentou ser engenheira, piloto de avião e se encontrou mesmo no fotojornalismo. Trabalhou no Jornal O Globo um bom tempo até se tornar fotógrafa independente. Gosta de contar histórias sobre direitos humanos, gênero, desigualdade social, saúde e meio-ambiente. Fotografa para organizações humanitárias e ambientais. Em 2016 deu a partida na criação da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que envolve mulheres de todas as regiões do Brasil. Desde 2015 é nômade e vai onde a Fotografia a leva. Usa seu celular para fotografar as camas onde dorme nessa vida sem casa - já são 130 e contando!

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