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O mundo não comporta mais donos

A cotidiana e necessária luta política por uma sociedade menos desigual


No nosso momento histórico, é preciso que seja possível tipificar os direitos das mulheres à não discriminação de gênero. Foto de Liam Norris/Cultura Creative
No nosso momento histórico, é preciso que seja possível tipificar os direitos das mulheres à não discriminação de gênero. Foto de Liam Norris/Cultura Creative

O conceito de machismo pode ser ao mesmo tempo muito fácil ou muito difícil de definir. Difícil, se considerarmos todas as sutilezas envolvidas na discriminação de gênero. Fácil se eu afirmar, por exemplo, que há machismo quando um homem se dirige a uma mulher de modo distinto do que faria se estivesse se dirigindo a outro homem. As feministas norte-americanas criaram pelo menos quatro categorias interessantes para pensar formas de machismo relacionadas a esta “distinção” na forma como homens se relacionam com mulheres: manterrupting, quando ele não me deixa terminar uma frase; bropriating, quando ele toma para si uma boa ideia que era minha (muito usado por chefes); gaslighting, quando ele me desqualifica por ser “louca” (ou estar em TPM, ou na menopausa, ou grávida…); e por fim o mais detestável e frequente, o mansplaining, aquele cara que sempre sabe mais do que eu sobre qualquer coisa.

O problema não é filosófico nem jurídico, mas político, porque trata-se de encontrar um modo mais seguro de impedir que mulheres, homossexuais, transexuais, negras/os sejam cotidianamente violados no seu direito mais básico e ao mesmo tempo mais fundamental de existir – na linguagem e no discurso.

Nada, absolutamente nada, pode ser tão insuportável no machismo nosso de cada dia quanto ouvir um homem te ensinado alguma coisa, em entonação, vocabulário e discurso como se estivesse falando com uma pessoa incapaz. A estratégia de desqualificação do discurso das mulheres vem de longe, muito longe. Como resistência, na Europa do século 18, as primeiras autoras escreviam sob pseudônimo masculino. Nos EUA do século 19, idem. No Brasil do início do século 20, também. Mas que nos idos do século 21 isso ainda exista, é ridículo.

Nenhum outro marcador – escolaridade, classe, raça ou mesmo subalternidade – se sobrepõe ao marcador de gênero nesse quesito. Você pode ser uma mulher com doutorado em Física e o seu interlocutor ser um mecânico de automóvel, ele fará uma explicação da rebimboca da parafuseta “for dummies”. Você pode ser uma economista com experiência internacional no FMI e o gerente do banco vai expor sobre opções de investimento como se você fosse uma dona de casa que mal sabe contar o dinheiro da feira. Você pode ser professora de Filosofia política e o taxista tem certeza que precisa te explicar, tim-tim por tim-tim, como e por que a presidente Dilma Rousseff caiu.

É assim com qualquer interlocutor masculino que ainda não tenha se dado conta de que ser homem não o faz o dono do mundo. Foto de Martin Bernetti/AFP
É assim com qualquer interlocutor masculino que ainda não tenha se dado conta de que ser homem não o faz o dono do mundo. Foto de Martin Bernetti/AFP

São situações hipotéticas nas quais a escolaridade ou a experiência profissional da mulher deveriam funcionar como superação do marcador de discriminação, hierarquia ou desigualdade de gênero. Na prática, simplesmente não funciona. O mero fato de ser mulher põe abaixo todas as suas outras possíveis qualificações. É assim com o vizinho, o vendedor, o contador, o gerente, o porteiro, o comissário de bordo, o médico, o mecânico, o gerente do hotel, enfim, com qualquer interlocutor masculino que ainda não tenha se dado conta de que ser homem não o faz o dono do mundo. E por uma razão muito fácil de entender: o mundo não comporta mais donos.

Esta tem sido, acredito, a grande contribuição das jovens feministas, empenhadas em desnaturalizar práticas machistas cotidianas às quais nós, de certa forma, cansamos de denunciar. Chega uma hora em que é mais fácil ignorar do que reivindicar, ou que é mais conveniente fingir que não está ouvindo do que denunciar. Até que um dia o seu vizinho fala com você como o meu vizinho falou comigo: usando de uma pretensão de autoridade advinda apenas do fato de que ele é homem. É neste momento em que você (re)descobre que ainda precisa brigar muito para explicar aos pretensos donos do mundo que o mundo não comporta mais donos.

Foi nessa circunstância que me surpreendi com o fato de que o machismo contido na abordagem do vizinho – usando aqui a definição mais simples dada no início desse texto, um tratamento “distinto” por ele ser homem e eu, mulher – não tem uma tipificação de crime por discriminação. Embora as estruturas autoritárias e patriarcais da sociedade brasileira venham sendo modificadas pelos movimentos sociais pautados pela ampliação de direitos civis, não é possível processar um homem por discriminação de gênero.

Em “A era dos direitos”, o cientista político Norberto Bobbio argumenta que existem três maneiras de fundar valores: “deduzi-los de um dado objetivo constante; considerá-los como verdades evidentes em si mesmas; e, finalmente, a descoberta de que, num dado período histórico, eles são geralmente aceitos”. No nosso momento histórico, por mais que os retrocessos nos ameacem como rolo-compressor, é preciso que seja possível tipificar os direitos das mulheres à não discriminação de gênero; os direitos dos homossexuais à não discriminação por homofobia; o direito das pessoas transgêneros à não discriminação por transfobia; assim como o movimento negro conseguiu tipificar o racismo na lei 7.716/1989 para reafirmar no campo jurídico aquilo que ainda não se modificou no campo da cultura: direitos iguais entre as pessoas negras e brancas.

Seguindo o argumento de Bobbio, o problema não é filosófico nem jurídico, mas político, porque trata-se de encontrar um modo mais seguro de impedir que mulheres, homossexuais, transexuais, negras/os sejam cotidianamente violados no seu direito mais básico e ao mesmo tempo mais fundamental de existir – na linguagem e no discurso. Brigar contra o mansplaining nosso de cada dia passa a ter, aqui, um caráter mais político e menos de mera chateação (por que é uma chateação, quanto a isso nenhuma dúvida), uma reivindicação legítima de um lugar discursivo que não seja só o do suposto saber homens, pelo menos desses que ainda não entenderam que o mundo não comporta mais donos.


Escrito por Carla Rodrigues

Carla Rodrigues

Professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ, mestre e doutora em Filosofia (PUC-Rio), e pesquisadora da teoria feminista. Coordena o laboratório “Escritas – filosofia, gênero e psicanálise” (UFRJ/CNPq). É autora, entre outros, de “Duas palavras para o feminino” (NAU Editora, 2013).

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