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O amor em tempos de GPS

‘Queering the map’ cria uma colorida cartografia das relações amorosas ao redor do mundo


O “Queering the map” entra em 2019 com sua superfície tomada por manchas pretas, tantos são os pins acumulados em várias partes do mundo. Foto Reprodução
O “Queering the map” entra em 2019 com sua superfície tomada por manchas pretas, tantos são os pins acumulados em várias partes do mundo. Foto Reprodução

Em um ponto do mapa, próximo a Krasnoyarks, na Rússia de Putin, alguém aponta: “Tenho 16 e estou, finalmente, feliz por descobrir que sou uma pessoa não-binária. Deixei a cidade onde passei os piores anos da minha vida. Este é o único lugar que gosto de lá porque era onde eu passava o tempo quando todos me insultavam”.  Em Copacabana, no Rio de Witzel e Crivella, alguém crava: “Era o réveillon de 2012. Estava com meus primos héteros, até que me perdi. Vi a bandeira do orgulho no meio da multidão e, sem hesitar, fui para lá. Embora estivesse bêbado e sozinho, me senti à vontade cercado pela minha gente. Logo, encontrei alguém interessante. Já tinha ficado com homens, mas aquele encontro me realizou completamente. Fiquei muito feliz e orgulhoso de ser quem eu era”.

Antes, no mundo físico, esses espaços eram claramente demarcados: um bar, uma discoteca, uma livraria etc. Agora, podemos ver que tudo é muito mais amplo e muito mais complexo. E também marcado pelas mais variadas recordações

Lucas LaRochelle
Criador do “Queering the map”

Marcado por lembranças amargas e doces como essas duas, “Queering the map” – projeto colaborativo do designer canadense Lucas LaRochelle – faz uma inusitada cartografia do amor em tempos de GPS. Como o título dá pinta, é a comunidade LGBT que habita esse emocionante mapa digital, feito em azul e rosa, rosa e azul, e todas as outras cores misturadas.

“‘Queering the map’ serve para atualizar a ideia de espaço queer em um mundo digital”, conta LaRochelle, em um papo via Skype. “Antes, no mundo físico, esses espaços eram claramente demarcados: um bar, uma discoteca, uma livraria etc. Agora, podemos ver que tudo é muito mais amplo e muito mais complexo. E também marcado pelas mais variadas recordações”.

Lucas LaRochelle, o designer canadense criador do projeto colaborativo. Foto Tess Kuramoto
Lucas LaRochelle, o designer canadense criador do projeto colaborativo. Foto Tess Kuramoto

Indicado ao Lumen Prize e ao World Design Guide (na categoria “prêmio de impacto social”) de 2018, “Queering the map” foi desenvolvido por LaRochelle inicialmente como um trabalho acadêmico, até ser lançado, publicamente, em maio de 2017. A inspiração veio de uma lembrança pessoal do autor em sua própria cidade, Montreal.

“Eu sempre passo de bicicleta por um parque onde há uma árvore que marcou meu primeiro relacionamento sério. Sempre nos encontrávamos e tínhamos longas conversas embaixo dessa árvore. Minha identidade queer está ligada àquele lugar. Pensei, então, que certamente existiriam outros lugares que marcaram a vida de outras pessoas, sem serem necessariamente pontos tradicionais de encontros. De fato, descobri que essas conexões são muito mais fluidas do que eu imaginava”.

Para o público, o formato do site é bem simples: basta localizar um lugar no mapa, colocar um pin e publicar o seu depoimento, não assinado (“Quis que fosse assim como uma reação ao individualismo e o egocentrismo das redes sociais”, explica). Inicialmente projetado para ter um alcance limitado a Montreal e aos amigos e conhecidos de LaRochelle, o mapa começou a chamar mais e mais atenção, exigindo virtualmente novas fronteiras para o trabalho do designer. Logo, ele passou a ganhar pins de outras cidades canadenses, seguidos por pins dos Estados Unidos e, momento da virada, da Austrália.

“Em menos de um ano, passamos de 50 pins iniciais para 600. Depois, passamos para 10 mil. Quando o projeto viralizou, no começo de 2018, depois de entrar na Austrália, não paramos mais”, conta ele sobre o projeto que tem 28 mil pins publicados.

Na verdade, houve uma pausa, por força bruta maior. “Queering the map” se expandiu de tal forma que chamou a atenção dos obtusos apoiadores do presidente norte-americano Donald Trump. De um dia para o outro, o site foi hackeado e amanheceu, em fevereiro de 2018, tomado por mensagens pró-Trump e por comentários homofóbicos. Para sanar esse problema, LaRochelle contou com a mesma atitude coletiva que, desde o começo, vem tornando o mapa tão interessante.

“Passado o susto, tirei o site do ar e pedi a ajuda de pessoas com um maior conhecimento técnico do que o meu. O projeto tinha algumas falhas porque nunca imaginei que ele fosse crescer tanto”, lembra. “Felizmente, logo surgiram desenvolvedores que me ajudaram a criar códigos de proteção para o mapa. Montamos também uma equipe de moderadores, que hoje filtra qualquer comentário que seja desrespeitoso ou malicioso. Essa reação coletiva foi muito bonita. Voltamos ao ar em poucos dias, mais fortes e seguros ainda”.

“Queering the map” entra em 2019 com sua superfície tomada por manchas pretas, tantos são os pins acumulados em determinadas áreas. E as histórias vão sendo contadas, seja em Montreal (“Jogaram uma Bíblia na gente porque estávamos nos beijando, mas que se fodam. Vamos resistir”), em Tóquio (“Foi numa cafeteria no terraço de um prédio que falei pela primeira vez, frente a frente com outra pessoa, que era bissexual. Ela era também e nós ficamos amigos”), em Lucknow, na Índia (“Meus pais queriam um filho. Ainda não tive forças ou coragem para dizer a eles que tiveram o seu sonho realizado. Nem sei se terei um dia”), em Riad, na Arábia Saudita (“É muito solitário aqui”) e em Nairóbi, no Quênia (“Nunca tive tanto medo de beijar alguém, nunca me senti tão viva”).

“Ainda hoje leio quase todas as mensagens que chegam ao site. E é difícil não ser tocado pela carga emocional que elas trazem”, admite LaRochelle, que finaliza o projeto de um “spin off” de “Queering the map”, um livro, físico, com alguns dos depoimentos acoplados a imagens do Google Street View. “Quando pensava em transformar esse material em um livro, tinha receio de que ele perdesse um pouco de sua magia fora da internet. Mas acho que é importante ele ser estendido em formato físico também.  Isso vai dar uma maior legitimidade ao projeto”.


Escrito por Carlos Albuquerque

Carlos Albuquerque (ou Calbuque) é jornalista de cultura, biólogo, DJ (daqueles que ainda usam vinil) e ocasional surfista de ondas ridiculamente pequenas. Escreve com a mão esquerda e Darwin é seu pastor.

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