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Melhor ficar no futebol – porque no resto…

Pentacampeão na bola, Brasil toma diversas goleadas da Suíça nos critérios de desenvolvimento


Escola primária em Genebra. Na Copa da Educação a goleada suíça é uma aposta certeira. Foto Amelie Benoist/BSIP
Escola primária em Genebra. Na Copa da Educação a goleada suíça é uma aposta certeira. Foto Amelie Benoist/BSIP

Melhor que a disputa entre Brasil e Suíça seja no futebol – porque na vida real, tem muito 7 a 1 para eles. Emparelhar a realidade do gigante sul-americano ao pequenino enclave da Europa Ocidental produz abismos, especialmente sociais. Culpa, registre-se, de pecados teimosos, que a terra de Neymar insiste em não corrigir. O paradoxo de uma economia enorme que não desconcentra sua riqueza pavimenta a derrota.

Item fundamental na conta social, a educação explica muito da diferença entre os dois países que se enfrentam neste domingo, pela Copa. O número de anos de estudo no Brasil é um vexame planetário: 7,89 (dado de 2010), o penúltimo da América do Sul, à frente apenas do Equador. Os europeus marcam 13,02 anos, atrás apenas dos Estados Unidos (13,18).

Dimensão territorial e população sempre poderão ser invocadas como desculpas na comparação entre os países das seleções que se enfrentam na primeira rodada da Copa do Mundo. Afinal, os brasileiros somos aproximadamente 207 milhões (em 2018), a quinta população do planeta, espalhada por 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o quinto maior território, com florestas, litoral e fronteiras gigantes.

Todos os viventes na Suíça, 8,4 milhões de pessoas, formariam cidade pouco maior do que o Rio. O país ocupa 41 mil quilômetros quadrados – o dobro de Sergipe – entre Itália, Alemanha e França. Num território tão pequeno, cercado por tanta riqueza, inexistem diferenças regionais, e a administração fica bem fácil.

Fica igualmente impossível comparar o futebol, no qual o Brasil é grande, referência, pentacampeão, ostenta alguns dos melhores jogadores em atividade. A Suíça luta contra a irrelevância (e só consegue algum sucesso ajudada por filhos de imigrantes africanos, que jogam pela seleção) e estará no lucro se sobreviver às oitavas de final da Copa. Eles até têm um Pelé em outro esporte – Roger Federer, o melhor tenista de todos os tempos, e um dos maiores atletas em atividade. Mas é na competição das questões sociais e ambientais, que padecemos vergonhosamente na série B.

O tenista Roger Federer, o verdadeiro craque da Suíça. Foto MARIJAN MURAT / DPA
O tenista Roger Federer, o verdadeiro craque da Suíça. Foto MARIJAN MURAT / DPA

O dado mais chocante só encontra paralelo em poucos rincões esquecidos da Terra: os homicídios. Em 2016, foram assassinados 59.772 brasileiros – ou 28,4 para cada grupo de 100 mil habitantes, número que inviabiliza sermos chamados de civilização. O sétimo pior do mundo, atrás de El Salvador (54,42 por 100 mil), Venezuela (39,75), África do Sul (36,37), Colômbia (35,34), Guatemala (35,14) e Honduras (32,86). Fica no Brasil metade das 50 cidades mais violentas do planeta.

A Suíça? Apenas 64 mortos (0,76 por 100 mil habitantes) de forma violenta ao longo do mesmo 2016. O sossego na terra dos relógios e do chocolate só perde, na Europa, para o Reino Unido (0,64 por 100 mil) e a Espanha (0,7 por 100 mil).

E não deveria ser assim, posto que a economia brasileira dá olé na suíça. No torneio do PIB, a terra de Tite esculacha – nono do planeta, com mais de US$ 1,7 trilhão em 2017, dez posições à frente dos US$ 664,6 bi produzidos pelo adversário na estreia do Mundial. No PIB per capita a conta vira – US$ 13.479 no Brasil, US$ 61.844 na Suíça.

Mas se ainda podemos ser chamados de país do futebol, também somos o lamentável endereço da desigualdade social e da concentração de renda. Vêm daí (quase) todos os problemas. O IBGE calcula, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), que a parcela 1% mais rica da população embolsa 36 vezes mais rendimentos do que os 50% mais pobres.

O economista irlandês Marc Morgan cruzou os dados da aferição do IBGE com informações da Receita Federal, para chegar a percentuais ainda mais agudos: os 10% mais ricos ficam com 55% da riqueza do país, enquanto os 50% mais pobres levam somente 12% do total. E você aí achando que o 7 a 1 foi grave.

No Índice de Desenvolvimento Humano, a goleada é bem mais contundente. Na conta que estabelece 1 como número máximo, o país europeu dá olé e fica em terceiro lugar, com 0,939, atrás de Noruega e Austrália; a terra de Phillipe Coutinho e Gabriel Jesus amarga a constrangedora 79ª colocação, com 0,754, entre Azerbaijão e Granada.

Item fundamental na conta social, a educação explica muito da diferença entre os dois países que se enfrentam neste domingo, pela Copa. O número de anos de estudo no Brasil é um vexame planetário: 7,89 (dado de 2010), o penúltimo da América do Sul, à frente apenas do Equador. Os europeus marcam 13,02 anos, atrás somente dos Estados Unidos (13,18).

Os suíços levam a taça na estatística da igualdade de gênero, à frente de Dinamarca e Holanda. O Brasil, machista como ele só, fica em 92º lugar. O indicador se baseia em vários itens: mortalidade materna, gravidez na adolescência, número de cadeiras no Parlamento, população com educação secundária e participação na força de trabalho.

Ah, mas a Suíça abrigam os bancos que guardam o dinheiro sujo dos ricos da Terra, paraíso fiscal símbolo da impunidade dos poderosos, dirá um brazuca ufanista. Já foi, querido – em 2017, o país mudou a regra desse jogo, colaborando com investigações de vários países (inclusive o Brasil). Hoje, aposta na modernização de sua infraestrutura, ostentando indústria com elevado nível de tecnologia, além de impostos baixos para empresas.

A Suíça está no topo dos principais rankings de inovação, como prova a quantidade de pedidos para patentes, uma das maiores do mundo. O dado está ligado diretamente à pesada aposta em pesquisa e desenvolvimento. Dados mostram que a fatia de investimentos no setor em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) é o dobro da média dos países da União Europeia. Universidades e empresas trabalham em parceria na criação de novos produtos e da tecnologia sustentável. É assim em áreas como a indústria de precisão, biotecnologia e tecnologia da informação.

(Também ficam no país as sedes da Fifa, da Uefa – a Federação Europeia de Futebol – e do Comitê Olímpico Internacional. Essa vergonha é toda deles.)


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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