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Hortas comunitárias no metrô de Londres

Moradores e funcionários se juntam para plantar legumes e verduras nas estações da capital inglesa


Horta comunitária na estação de Hamstead Heath, no Norte de Londres. Foto Divulgação/Energy Garden
Horta comunitária na estação de Hamstead Heath, no Norte de Londres. Foto Divulgação/Energy Garden

(Londres) – A ideia nasceu em Brondesbury Park, no Norte de Londres, em 2012: ao perceber que havia espaço ao ar livre sobrando na estação do metrô de superfície (overground) do bairro, Agamemnon Otero – um especialista em energia sustentável e projetos comunitários – imaginou ali uma área verde, saudando a partida e a chegada dos passageiros que lotam diariamente a plataforma. Com a ajuda de funcionários da estação e de moradores da região, o plano ganhou forma e virou uma horta comunitária de onde saíram, só no ano passado, 45 quilos de hortaliças. Potes de mel também são produzidos no pequeno jardim, que sobrevive aos períodos de seca no verão graças a uma bomba d’água movida a energia solar.

As comunidades se sentem inspiradas pelo fato de que, uma vez concluídos, esses jardins pertencem a elas, e terão apoio financeiro disponível para manutenção pelos próximos 20 anos.

Luke Jones
Gerente do Energy Garden

O sucesso do projeto piloto de Brondesbury Park, capaz de integrar num espaço público residentes locais que antes não conviviam uns com os outros, resultou num programa bem mais amplo. O Energy Garden, financiado por um fundo de apoio a projetos sociais, planeja desenvolver nos próximos dois anos 50 jardins comunitários em estações do metrô de superfície de Londres. Em cinco delas, a comunidade já construiu o seu espaço para plantio, produzindo e distribuindo tomate, abóbora, couve, pimenta, milho, ervas e flores. Outras dez farão o mesmo graças a uma verba de 750 mil libras (cerca de R$ 3,1 milhões) e ao apoio do sistema de transporte público da capital britânica e da ONG Repowering London, que promove iniciativas de energia sustentável.

A ideia de transformar áreas urbanas em hortas comunitárias vem ganhando popularidade mundo afora, mas o Energy Garden é o primeiro projeto a juntar o cultivo da terra com o aproveitamento da energia solar para manutenção dos jardins, iluminação e outras pequenas demandas das estações de trem.

Crianças participam de workshop promovido pelo projeto Energy Garden. Foto de Divulgação
Crianças participam de workshop promovido pelo projeto Energy Garden. Foto de Divulgação

– A reação das comunidades tem sido extremamente positiva. Nós percebemos desde o início do programa o quanto as pessoas sentiam necessidade desses espaços. Grupos comunitários e residentes continuam a participar das consultas públicas para se envolver no projeto, a fim de melhorar a infraestrutura local. Além disso, as comunidades se sentem inspiradas pelo fato de que, uma vez concluídos, esses jardins pertencem a elas, e terão apoio financeiro disponível para manutenção pelos próximos 20 anos – diz Luke Jones, gerente do Energy Garden.

Cabe a cada comunidade decidir o que plantar e como distribuir o resultado da colheita, entre frutas, verduras, ervas e flores. Todo o processo é colaborativo, dando voz aos moradores, em parceria com quem entende do assunto. Antes de qualquer coisa, é preciso indicar o interesse de uma estação em fazer parte do projeto. A partir daí, o time do Energy Garden guia o grupo de moradores que vai desenvolver e liderar o empreendimento, dando suporte, por exemplo, na instalação de painéis solares, na obtenção da licença municipal e na realização de consultas populares para implantação dos espaços verdes. Com o desenho aprovado e os voluntários recrutados e treinados, começa a instalação, que muda a cara e o clima das estações.

O impacto vai além dos canteiros bem cuidados. Numa metrópole onde o dia a dia frenético oferece poucas chances de integração, o projeto possibilita uma participação cívica, quebra barreiras entre diferentes grupos étnicos e sociais e incentiva a valorização de práticas sustentáveis. Jovens com menos de 25 anos podem se inscrever numa equipe de estagiários remunerados que recebem treinamento sobre tecnologia verde, jardinagem e assistência a trabalhos comunitários, aumentando suas chances de conseguir um emprego fixo. A venda de energia limpa financia a compra de sementes, plantas e materiais. Mesmo para quem não está diretamente envolvido, a simples visão de um espaço verde quando a gente salta de um trem, num dos muitos dias frios e cinzentos da vida em Londres, já faz um bem danado.

– Projetos como este podem transformar significativamente um bairro de várias maneiras. Em primeiro lugar, em algumas partes de Londres, há acesso muito limitado a espaços verdes. Interagir com a natureza é essencial para o bem-estar das pessoas. Além disso, projetos assim fortalecem as comunidades. Através do Energy Garden, os residentes podem se relacionar com a equipe de funcionários que controla a estação local, o que promove o orgulho cívico e um sentimento de pertencimento – explica Jones.

O Energy Garden também patrocina workshops para escolas, nos quais estudantes e professores aprendem sobre energia solar e a manutenção de jardins urbanos. O financiamento veio de uma loteria – a People’s Postcode Lottery (PPL) – que patrocina projetos sociais. Nos dias de confraternização, quem passa pelas estações incluídas no programa ganha vasinhos de flores ou um legume fresco vindo de um solo que antes não servia para coisa alguma.

Resultado do trabalho do Energy Garden, que planeja se espalhar por 50 estações do metrô de superfície de Londres em dois anos. Foto Divulgação
Resultado do trabalho do Energy Garden, que planeja se espalhar por 50 estações do metrô de superfície de Londres em dois anos. Foto Divulgação

Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King’s College.

18 posts

Um Comentário

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  1. Muuuito legal!
    Excelente idéia, que já existe timidamente por aqui em algumas comunidades carentes e em pequenas cidades, mas que com certeza deveria ser financiada e expandida aqui no país.

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