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Violência como linguagem política

Especialistas atribuem os casos de violência nas eleições a estímulos, diretos ou não, no discurso de Jair Bolsonaro, que agora tenta se distanciar de agressores


Mulher protesta após a morte do capoeirista Moa no Largo do Pelourinho, em Salvador, na Bahia (Foto: Arisson Marinho / AFP)
Mulher protesta após a morte do capoeirista Moa no Largo do Pelourinho, em Salvador, na Bahia (Foto: Arisson Marinho / AFP)

A “festa da democracia” virou um circo de horrores. Desde antes do primeiro turno das eleições gerais, denúncias de violência de fundo político vêm pipocando e crescendo em gravidade em todo o país. Embora ressalte que as eleições brasileiras sempre foram violentas, o antropólogo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares vê no discurso do candidato do PSL, o deputado Jair Bolsonaro, um estímulo tácito à violência.

“As propostas e os discursos são de eliminação física do outro, definido como inimigo, mesmo de forma metafórica”, diz ele, em entrevista ao #Colabora, que pode ser lida aqui.

Em Porto Alegre, na segunda-feira, uma jovem de 19 registrou boletim de ocorrência numa delegacia do bairro de Cidade Baixa afirmando ter sido abordada e agredida por três homens. A vítima disse que os agressores a socaram e gravaram, com canivete, uma suástica em sua barriga. A jovem alega que o motivo da agressão foi o adesivo  com a hashtag #EleNão, em repúdio a Bolsonaro, que ela tinha colado em sua blusa.

Na noite de terça-feira, um jovem usando um boné no MST foi agredido a garrafadas por quatro integrantes de uma torcida organizada, que teriam gritado “aqui é Bolsonaro”. O ataque aconteceu em  frente à reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFP), em Curitiba.

Num dado momento, um homem veio e ameaçou estuprar minha amiga

Sabrina Alvarez,

O caso mais grave aconteceu na madrugada de segunda-feira, em Salvador, quando o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana assassinou o capoeirista Rômulo Rosário da Costa, o Moa, com 12 facadas. Na delegacia, Santana confirmou que o crime foi motivado por uma discussão política: ele defendia Bolsonaro e a vítima  criticava o candidato.

Nem sempre a agressão é física, mas o medo que ela traz é bem real. Na sexta-feira, dia 5 de outubro, a roteirista Sabrina Alvarez, de 26 anos, estava com uma amiga no metrô do Rio quando as duas começaram a ouvir comentários raivosos devido a broches com #EleNão que elas usavam:

“Num dado momento, um homem veio e ameaçou estuprar minha amiga. Ela ficou muito abalada e, quando eu tentava ampará-la, uma mulher arrancou meu broche e disse que ‘essa viadagem vai acabar’”, conta Sabrina. “No passado já fui vítima até de agressões mais sérias, mas agora voltei a ter medo.”

Incerteza leva ao ódio

Na avaliação de Luiz Eduardo Soares, a origem desse ódio político está na insegurança provocada por mudanças que acontecem em todo o mundo e fazem entrar em colapso pilares sobre os quais as pessoas estabeleciam sua relação com a sociedade.

“São os papéis familiares, as relações amorosas e afetivas, as convicções religiosas, as ideologias políticas, as relações de trabalho, etc. Isso forma a previsibilidade quanto ao futuro”, diz o antropólogo.

Embora avalie que muitas dessas mudanças possam ser criativas, ele reconhece que, associadas a uma crise econômica, elas geram uma profunda insegurança:

“Nessa hora, o discurso ultraconservador e dogmático, associado a uma figura de autoridade, acaba funcionando como a reconstituição de alguns desses pilares que estabilizam a experiência existencial conosco e com os outros.”

Manifestantes protestam na Avenida Paulista, em São Paulo (Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto)
Manifestantes protestam na Avenida Paulista, em São Paulo (Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto)

O resultado é uma mitificação que resiste a qualquer argumentação lógica ou mesmo a fatos, como mostra a presença das chamadas fake news nesta campanha, especialmente nas redes sociais.

“O que temos visto na Internet são histórias literalmente incríveis. Não dá para imaginar que uma pessoa minimamente sensata acredite, por exemplo, que as crianças vão ser retiradas das famílias aos 5 anos para serem pervertidas sexualmente. É um nível de fabulação que explora a crendice e resiste a qualquer tentativa de argumentação racional”, diz Soares.

‘O que eu tenho a ver com isso?’

Questionado sobre as denúncias de violência praticada por simpatizantes, Jair Bolsonaro respondeu inicialmente que lamentava “excesso”, mas se eximiu de responsabilidade e lembrou que ele próprio foi vítima – em setembro, o deputado sofreu um atendado a faca em Juiz de Fora (MG).

“Quem tomou a facada fui eu, pô! O cara lá que tem uma camisa minha, comete lá um excesso. O que eu tenho a ver com isso?”, disse o candidato. Diante da repercussão negativa, ele enfatizou o discurso e, nas redes sociais, disse não querer os votos de quem pratica agressões.

O candidato Jair Bolsonaro simula duas armas com as mãos. Gesto marcou a sua campanha. Foto Heuleer Andrey/AFP
O candidato Jair Bolsonaro simula duas armas com as mãos. Gesto marcou a sua campanha. Foto Heuleer Andrey/AFP

As vítimas da violência política não ficam restritas aos eleitores e militantes de esquerda. Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 124 jornalistas foram vítimas de ataques (64 virtuais e 60 físicos) desde o início do ano. No caso mais grave, uma jornalista do portal NE10 foi agredida com uma barra de ferro e ameaçada de estupro por dois homens, um deles usando uma camiseta com a foto de Bolsonaro, ao sair de uma sessão eleitoral em Pernambuco.

Sociedade violenta

O cientista político Jorge Chaloub, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, também vê um estímulo tácito à violência por parte do discurso de Bolsonaro e de candidatos ligados a ele, mas lembra que esse cenário é, em parte, reflexo de uma sociedade violenta cotidianamente:

“Tivemos, no ano passado, quase 60 mil homicídios; o número de linchamentos é muito alto em comparação com outros países. Essa sociabilidade violenta é, infelizmente, uma tradição.”

Para o professor, o radicalismo visto agora extrapola parâmetros supostamente consolidados da política.

“No caso dessa extrema-direita, o inimigo é tudo o que possa ser identificado como ‘de esquerda’, mesmo quando são ideias do liberalismo clássico”, avalia Chaloub.

Personagens e instituições associados ao liberalismo econômico, em tese defendido pelo candidato, são taxados de “comunistas” por criticarem Bolsonaro, como aconteceu ao historiador Francis Fukuyama e à revista inglesa “The Economist”.

Saída incerta

Ambos os especialistas veem com pouco otimismo uma solução para o clima de antagonismo que tomou o país. Chaloub acredita que seja necessário estabelecer pactos democráticos que implicam necessariamente o reconhecimento das minorias e de seus direitos. Já Soares alerta que isso só será possível com uma revisão ampla da sociedade. “Mas é um processo longo, profundo e multidimensional, que depende de um governo comprometido com a democracia”, conclui.


Escrito por Leonardo Pimentel

É jornalista freelancer. Foi editor da hompage do jornal O Globo, assessor de imprensa do TRE-RJ nas eleições de 2008, editor-executivo da revista "Nossa História" e editor de noticiário do no.com, a primeira revista virtual do Brasil. É autor de "Som no PC" (2006).

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