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O subúrbio mostra a sua cara

Autores saem da internet para as páginas dos livros e contam uma nova história da cidade


Leandro Leal,, um dos autores suburbanos, nascido e criado em Cascadura e hoje morador do Méier. Foto divulgação
Leandro Leal, um dos autores suburbanos, nascido e criado em Cascadura e hoje morador do Méier. Foto: divulgação

Dia desses, o empresário Leandro Leal estava no shopping quando notou que uma mulher o encarava. Achou que se tratava de mais um entre tantos casos de racismo sofridos por ele. “Eu saí da loja. Fiquei com raiva. Estava todo desarrumado, achei que ela estava com medo de mim”, lembra ele. “Peguei o telefone e lá estava uma mensagem dela: ‘Você estava na loja tal agora?’ Eu disse: ‘Sim.’ E ela: ‘Voltaaaaaaaaaaaaaa, quero tirar uma foto com você!!!'”

As redes sociais proporcionaram um palco para essa galera suburbana que talvez jamais tivéssemos nas grandes mídias.

Vitor Almeida
Criador do Suburbano da Depressão

Leandro, 32 anos, nascido e criado em Cascadura e hoje morador do Méier, é parte de uma leva de autores revelados pelo Facebook e que agora sai das redes para ocupar as estantes de livrarias. Em comum, além do sucesso na internet e o reconhecimento dos fãs nas ruas, eles têm o fato de que são, todos, crias do subúrbio (e com muito orgulho), dando voz a um olhar sobre a cidade que contrasta com a narrativa predominante na mídia tradicional e na literatura. São nomes como Elika Takimoto, Anderson França, Maria Gabriela Saldanha e Vitor Almeida, o homem por trás da página Suburbano da Depressão e fundador do selo Subúrbio Editorial, que lançará o livro de estreia de Leandro e o novo de Elika.

Elika Takimoto, escritora, professora e coordenadora de física do Cefet. Foto divulgação
Elika Takimoto, escritora, professora e coordenadora de física do Cefet. Foto: divulgação

“As redes sociais proporcionaram um palco para essa galera suburbana que talvez jamais tivéssemos nas grandes mídias. Se você parar para pensar, nas mídias tradicionais você precisa ter alguém que te indique ou ser parente de alguém. Nós quebramos esse paradigma. As plataformas das redes sociais são o quinto poder, onde muitas ideias circulam, tanto para o bem como para o mal. E, dentre essas ideias, surgiram nossas escritas, que acabam representando a maior parcela da população fluminense e carioca, que você jamais imaginaria ver em um texto dos grandes escritores com acesso à grande mídia, senão de uma forma exótica e pitoresca. Falamos de nossos vizinhos, nossos problemas e improvisos com bom humor, o que acaba sendo o cotidiano de muita gente”, comenta Vitor, um estudante de história de 28 anos que viveu até os 26 anos em Olaria e hoje mora em Santa Cruz. Ele próprio lançou um livro em dezembro passado, ‘Suburbano da Depressão: causos, contos e crônicas’ (editora Autografia).

“Repercutiu até mais do que eu esperava: fui parar em jornais como O Globo, Extra, o Dia e Jornal do Brasil. Realmente, para quem vive no subúrbio, em nosso imaginário, somente quem mora em bairros privilegiados é que tem acesso a isso. E, para falar a verdade, isso é muito mais importante para mim do que o retorno financeiro em si. Como historiador e escritor popular, fico muito contente em estar participando de um movimento que está escrevendo uma nova história da cidade, uma história escrita com o Cristo Redentor de costas para nós”, comemora o escritor, que tem mais de 240 mil seguidores em sua página.

Eu já falei sobre tudo: política, sexo, drogas, preconceito… só me escutaram quando eu falei do que eu mais entendia: ser pobre e tentar se dar bem fingindo não ser

Leandro Leal
Empresário e escritor

Maria Gabriela Saldanha, 33 anos e 36 mil seguidores, viveu em Vigário Geral, Madureira (onde ficou por mais tempo), Ilha do Governador, Rocha Miranda, Bangu, Tijuca, Centro e hoje está no Catete. Atualmente, está finalizando três livros, que lançará de forma independente: “Um que seria uma espécie de coletânea de textos já publicados no Facebook, um de humor, que dá elementos para que as mulheres retirem os homens do lugar da adoração determinado pela socialização de gênero, e um que ativa esse imaginário ligado à condição de bruxa e à memória ancestral, enquanto metáforas da autonomia feminina e da ressignificação histórica”, adianta ela, que é militante feminista e atualmente, além de escrever, dá cursos ligados ao desenvolvimento feminino.

Professora e coordenadora de física do Cefet/RJ (Centro Federal de Educação Tecnológica), Elika Takimoto, 43 anos, quase 157 mil seguidores em seu perfil e outros 30 mil na fanpage, era a única que já tinha livros lançados antes da fama no Facebook: um de física e um de crônicas, ‘Minha vida é um blog aberto’ (2015), publicado pela Editora Saraiva quando ela venceu o Prêmio Saraiva Literatura na categoria. Ela é mais uma aposta do Subúrbio Editoral, por onde sairá o volume de crônicas ‘Beleza suburbana’, previsto para ser lançado na Bienal do Livro junto com o de Leandro e outros títulos do selo. Elika cresceu em Pilares e depois se mudou para Madureira, onde mora até hoje, com seus três filhos. “O Vitor entrou em contato comigo, me convidando para fazer parte do projeto dele de escritores suburbanos, perguntou se eu estava a fim de publicar com o selo. Eu achei a ideia muito interessante, porque eu acredito, pela minha experiência, que a gente precisa mesmo de representatividade, é uma coisa séria e necessária. O preconceito com o suburbano é muito forte”, explica ela.

Vitor Almeida, estudante de história e criador do Suburbano da Depressão. Foto divulgação
Vitor Almeida, estudante de história e criador do Suburbano da Depressão. Foto: divulgação

A resposta a isso vem em forma de exaltação do modo de vida dos que moram fora do eixo Centro-Zona Sul. “Quando você começa a ir ‘para o outro lado do túnel’, como as pessoas falam, entra num choque de culturas. Ouvir o que se tinha por aqui desse lado não era uma coisa natural. O que existe aqui que não tem lá? Muita solidariedade, muito companheirismo, muita amizade entre os vizinhos. Vizinhos aqui no subúrbio são como se fossem família, a gente se ajuda o tempo todo”, ensina Elika. Vitor Almeida concorda. “Eu me descobri suburbano quando percebi que, através da história, os suburbanos se reinventam e sobrevivem na base do improviso e da criação de redes de vivência. Esse estado de espírito e modo de vida, geralmente sem protocolos, é o que fez e faz o suburbano ser o que é: a verdadeira alma do ser carioca”, decreta.

Maria Gabriela Saldanha, está finalizando três livros, que lançará de forma independente. Foto divulgação
Maria Gabriela Saldanha, está finalizando três livros, que lançará de forma independente. Foto: divulgação

O discurso desses escritores muitas vezes passa, também, pelo humor, ao brincar com certos estereótipos do subúrbio. Leandro, mais de 26 mil seguidores no perfil e 13 mil na fanpage, é um adepto. “Eu já falei sobre tudo: política, sexo, drogas, preconceito… só me escutaram quando eu falei do que eu mais entendia: ser pobre e tentar se dar bem fingindo não ser”, diverte-se ele. Sobra também para a região mais abastada da cidade. “O tipo de humor que faço retira o suburbano, o favelado, o morador da Baixada desse lugar da exotização, para mostrar o estranhamento que o modo de vida na Zona Sul pode causar. Para deixar claro que eles não são uma regra, um padrão a ser seguido, e que a felicidade não existe só na orla. Para mostrar que eles são tão ‘alienígenas’ quanto nos acusam de ser, que a autoestima de quem não se vê no Leblon das novelas pode ser nutrida por outros fatores. Quando cunho expressões como ‘É falta de trem pra Japeri na vida da pessoa’, estou dizendo que contamos com o diferencial de termos nos fortalecido à luz das dificuldades. Assim, vou dando ferramentas para que as pessoas repensem suas narrativas de vida e deixem de se intimidar pela vergonha, pelo sentimento de inferioridade, pela segregação”, explica Maria Gabriela Saldanha. Leandro diz que também adora pegar no pé de quem mora na Zona Sul, mas tem uma coisa de que gosta ainda mais: zoar os tijucanos. “Eles sofrem mais. Respondem, retrucam tudo. E eu fico chorando de rir. Posto e fico vendo o problema acontecer.”


Escrito por Kamille Viola

Kamille Viola

Carioca da Tijuca e jornalista formada pela Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou no jornal O Dia, por onde ganhou o Prêmio Imprensa Embratel em 2009 e o Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2014. Também escreveu as revistas Bizz e Billboard. Atualmente, é colaboradora do site Women and Girls Hub, do site e da revista da União Brasileira de Compositores (UBC) e faz pesquisa e produção musical da série Show Mambembe, do Canal Futura. Está escrevendo a biografia autorizada de Martinho da Vila.

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