O que aprendi sobre a voz com as mulheres?

Vítimas de silenciamento em casa, no trabalho e na vida, mulheres são maioria entre as pessoas com queixas vocais (Ilustração: RosZie / Pixabay)

Vítimas de silenciamento em casa, no trabalho e na vida, mulheres são maioria entre as pessoas com queixas vocais

Por Luciana Oliveira | ArtigoODS 5
Publicada em 17 de abril de 2026 - 10:25  -  Atualizada em 17 de abril de 2026 - 10:28
Tempo de leitura: 6 min

Vítimas de silenciamento em casa, no trabalho e na vida, mulheres são maioria entre as pessoas com queixas vocais (Ilustração: RosZie / Pixabay)
Vítimas de silenciamento em casa, no trabalho e na vida, mulheres são maioria entre as pessoas com queixas vocais (Ilustração: RosZie / Pixabay)

Abril é o mês da voz. No dia 16, celebramos o Dia Mundial da Voz. Para mim, essa data sempre traz uma reflexão que vai além dos cuidados técnicos. Quando penso em saúde vocal, principalmente no caso das mulheres, inclusive aquelas que trabalham com a voz, é impossível não pensar nas questões de gênero. A clínica me mostrou que muitas vezes não é só a voz que adoece. É a experiência de não ser escutada, de precisar se impor para existir, de ter a fala atravessada por relações desiguais.

Houve um momento que mudou profundamente a minha forma de entender isso. Uma mulher chegou ao consultório e disse que sentia como se tivesse um sapo na garganta desde uma situação de abuso sexual que havia vivido. Aquela frase me atravessou de uma maneira que nenhum livro tinha me preparado. Eu tinha estudado anatomia, fisiologia, técnica vocal, mas não tinha aprendido a escutar uma história que se instalava diretamente na garganta. A partir dali, nunca mais consegui pensar voz sem pensar gênero. Nunca mais consegui separar a saúde vocal das experiências de silenciamento que muitas mulheres atravessam.

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Desde então, passei a dizer que a voz é mulher. Não no sentido biológico, mas no sentido simbólico. Porque trabalhar a voz é trabalhar aquilo que, na nossa cultura, costumamos reconhecer como feminino, e que na verdade é profundamente humano. A escuta, o cuidado, o tempo, a construção de vínculo. A voz não responde bem à imposição. Ela precisa de relação. Precisa de presença. Precisa de um espaço onde a pessoa possa existir antes de falar. Esse aprendizado veio, sobretudo, da escuta das mulheres na clínica de voz.

Não é à toa que a maioria das pessoas que chegam com queixas vocais são mulheres. Muitas trabalham em profissões pouco valorizadas, dão aula em vários turnos, cuidam de filhos, de familiares, de pacientes, repetem orientações o dia inteiro e, ao mesmo tempo, têm pouca oportunidade de serem ouvidas. Algumas relatam ambientes em que só as mulheres são interrompidas, cobradas ou expostas. Outras percebem que ficaram roucas depois de situações de humilhação no trabalho. A voz começa a carregar essas experiências.

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Esse silenciamento aparece também em espaços culturais importantes. No samba, por exemplo, tivemos e ainda temos vozes femininas fundamentais. Mas o ambiente, profissionalmente falando, nem sempre é acolhedor para elas. Quando pensamos na história do samba, é essencial lembrar dessas mulheres que sustentaram o canto, os saberes, as vivências. O samba começou, aqui no Rio de Janeiro, protegido por uma mulher, Tia Ciata. Nos terreiros acontece algo semelhante. Ainda que existam hierarquias e limitações, quando ouvimos as cantigas, a textura feminina aparece com muita força. É a voz de rezadeira, de coro, de quem sustenta a palma e faz ecoar o canto. Muitas vezes são as mulheres que mantêm essa vibração coletiva.

Existe uma potência muito singular nessas vozes. Uma potência que não está no volume, mas na vibração, na repetição, na memória. São vozes que entoam cantos essenciais para os terreiros, para o samba, para a música brasileira. A gente reconhece ali uma forma de cantar que nasce do corpo, do coletivo, da convivência. Ninguém está pensando em técnica vocal. A voz simplesmente acontece.

Também fui entendendo que, quando uma mulher canta, muitas vezes ela reza. Mesmo fora de um contexto religioso. Quando uma mãe canta para um filho, aquilo vibra como reza. Quando uma mulher acolhe a dor de outra mulher, também existe uma vibração ali. Essa dimensão do encontro aparece muito forte na voz feminina, e foi algo que fui aprendendo ao longo da prática clínica.

Foi com esse olhar que um encontro me marcou profundamente. Durante a pandemia, eu estava em casa e vi a Áurea Martins falando, numa entrevista, com a voz muito comprometida. Aquilo me deu uma dor imediata. Pensei que não era possível uma cantora daquele tamanho estar naquela condição. Senti que precisava fazer alguma coisa. Entrei em contato, me propus a atendê-la e ela aceitou prontamente.

Ao longo do processo, fui percebendo que não era apenas um trabalho técnico. Eu precisava que aquela mulher tivesse voz. Havia ali uma história que não podia ser silenciada. Uma mulher negra, com uma trajetória construída com muita dignidade, com escolhas artísticas próprias, com uma forma de cantar profundamente conectada à nossa cultura. Quando acompanhei a gravação do repertório que ela estava preparando, tive a sensação de que a voz dela voltava a vibrar exatamente nesse lugar do encontro, da reza, da memória.

Quando penso no que aprendi sobre a voz com as mulheres, penso nessa experiência acumulada. Mulheres que chegam feridas e, pouco a pouco, encontram espaço para falar. Mulheres que sustentam cantos coletivos mesmo em ambientes que ainda têm muito a aprender com elas. Mulheres que transformam a voz em encontro, em cuidado e em presença. E, quando essa voz encontra caminho, ela não vibra sozinha. Ela carrega outras histórias junto.

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Luciana Oliveira

Luciana Oliveira é fonoaudióloga, musicista e diretora da Lume Voz. Integra o Grupo de Estudos em Fonética da Universidade de São Paulo, onde desenvolve sua pesquisa em voz e linguagem. Em sua trajetória, já trabalhou com nomes de destaque como Lucinha Lins, Suely Franco, Soraya Ravenle e Moyseis Marques.

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