Uma aventura de teatro e samba

Musical biográfico de Neguinho da Beija-Flor reverencia gigante do Carnaval em pororoca de emoções também pessoais

Por Aydano André Motta | ODS 4

Publicado em 15/09/2026 - 21h38

Tempo de leitura: 9 min

Começou com um erro.

Desfilava a União da Ilha do Governador, quarta escola na noite de 10 de fevereiro de 2024, Sábado de Carnaval, e Nego, um dos mais aclamados intérpretes da festa, exibia sua perícia habitual, na condução do samba-enredo “Doum e Amora: crianças para transformar o mundo!” O acima assinado, comentarista na transmissão da Série Ouro (a segunda divisão da batucada) pela Band, observou, resoluto como são os equivocados: “Agora, na tela, Nego, o irmão MAIS VELHO de Neguinho da Beija-Flor”.

Errei feio, errei rude. Edson Feliciano Marcondes é o caçula da família do lendário cantor da azul e branco nilopolitana, nascido Luiz Antônio Feliciano Marcondes. Num átimo, percebi o equívoco e pedi ao apresentador, o querido JP Vergueiro, para corrigir. “Logo eu, biógrafo de Neguinho, errei essa informação elementar”, completei, ajoelhado no milho metafórico a que devemos nos submeter pedagogicamente os jornalistas.

O aposto do comentário alinhou as coincidências. Um dos telespectadores do tropeço era Luiz Antônio Pilar, experiente diretor de TV e teatro, autor de musicais premiados como “Leci Brandão – Na palma da mão” e “Pérola negra do samba”, este sobre Jovelina Pérola Negra. “Manda pra mim, um exemplar da biografia do Neguinho”, pediu imediatamente, por mensagem. “Venho pensando muito em fazer um musical biográfico sobre ele”.

Expliquei que o livro ainda não existia (como, aliás, até hoje), mas havia 18 horas de entrevistas com o grande cantor do Carnaval, gravadas por videoconferência, ainda no isolamento decorrente da pandemia. Além disso, fiquei muito próximo do artista e de sua família, desde o telefonema em abril de 2021, com pedido sucinto: “Quero que você conte minha história”.

Pilar, imediatamente, mandou o convite. “Vamos fazer? Aproveita e vai montando o roteiro. Dá um baita musical”, garantiu, sem imaginar o tamanho do desafio que estava propondo. Jornalista há quatro décadas, não tinha a mais remota noção de como criar texto para teatro – devendo ainda intercalar músicas e diálogos, numa trama que faça sentido e seja atraente ao público. Em pleno Carnaval, brotou um Everest para subir.

Pior: propor ficção (ainda que baseada numa trajetória real) a alguém adestrado, pela vida toda, a escrever apenas a partir de apuração, entrevistas, pesquisas, dados, números. Tudo bem que Neguinho materializou a clássica jornada do herói, desde a infância na extrema miséria das valas do bairro Nova América, na Nova Iguaçu dos anos 1950 e 60, até a consagração dos 15 títulos na avenida e a fama planetária como cantor. Mas resumir existência tão caudalosa (e improvável) em dois atos com começo, meio e fim desenhava-se assustador.

Paralelamente, começou a cruzada para transformar o projeto em realidade – em outras palavras, financiamento. “O Neguinho da Beija-Flor – Musical”, como batizou o diretor, foi inscrito na Lei Rouanet (espetacular instrumento de incentivo à cultura, barbaramente criminalizado pela estupidez da direita) e escolhido no edital de financiamento da Petrobras. Ia acontecer.

A fila na porta do João Caetano, na chuvosa noite da estreia: sucesso de público. Foto divulgação @pilha.cc + @xerel__

Faltava o Everest. Na escalada, sortido cardápio de angústias espreitava as tentativas de escrever o roteiro: onde alterar a história real, que parte merecia ser mantida? Qual personagem ficaria maior, quem não precisaria estar? Que passagens valeriam a pena? E o tom: engraçado, dramático, carnavalesco ou tudo junto? Mas a maior dúvida tinha a ver com a própria criação: como garantir que algo saído da imaginação vai entreter o público na dimensão desejada?

(Spoiler: inexiste resposta certa.)

O alto do Everest foi atingido 21 meses, 72 páginas, 13.623 palavras, 74.545 caracteres e sete versões (tratamentos) depois. A subida se viabilizou pelas dicas e a acolhedora paciência do diretor, além do socorro luxuoso de um parceiro da vida toda, Walmor Pamplona, curtido nos maneirismos de diversas produções. Os dois foram bússolas fundamentais na orientação da caminhada.

Havia outra adaptação por cumprir: jornalistas nos condicionamos, pela dinâmica da indústria, a protagonizar o capítulo final, definitivo da veiculação das notícias. No mais das vezes, somos (ou temos a ilusão de ser, pelo menos) os autores – donos – do texto divulgado. Afora ajustes aqui e e ali, a abordagem e a narrativa transmitidas ao público são nossas (o que inventa egos mastodônticos). Na dramaturgia, o roteiro está mais para o início, no máximo metade do processo. E obrigatoriamente muda, nas variadas versões, nos ajustes da direção, na marcação das cenas e na fala dos atores. Em verdade, é obra muito mais coletiva, encontro de criatividades em busca de lapidar o que aparecerá no palco. Exige, assim, desapego – e jogo jogado.

Trabalho tão exaustivo vai parar na prateleira do “não é isso tudo”, diante da comovedora entrega de diretores, coreógrafos e atores, nos ensaios. Parece mistura de esporte olímpico – os difíceis, ginástica, ciclismo, atletismo, natação – com escola de samba. Demanda concentração, paciência, força física, solidariedade, resiliência, generosidade, renúncia, todo um conjunto de predicados que desafia parte da natureza humana. Resulta em algo lindo de ver.

Para o musical biográfico do Neguinho, formou-se grupo maravilhoso de artistas. A direção de Luiz Antônio Pilar; a cenografia de Lorena Lima; a direção musical de Matheus Camará e Rodrigo Pirikito; a preparação vocal de Pedro Lima; a cenografia de Lorena Lima; a coreografia de Patrick Carvalho (sim, ele mesmo, o brabo das comissões de frente); a iluminação de Daniela Sanchez; o figurino de Rute Alves (a própria, única porta-bandeira campeã por três escolas diferentes na semicentenária história do Carnaval); a produção de Geraldo de Souza, Nuala Brandão e Thaís Cairo. Ao todo, 62 pessoas trabalham para o musical acontecer.

Tudo para garantir o brilho da pororoca de talentos que desfila no palco. Bruno Quixotte, Celso Luz, Ella Fernandes, Izak Dahora, Leandro Melo, Lu Vieira, Maria Vitória Rodrigues, Matheus Dias, Pedro Barreto, Thalita Floriano e Verônica Bonfim encarnam diversos personagens, num exercício fascinante que conjuga versatilidade, força, talento e arte. Trabalho que emociona, cativa, comove, faz rir e aplaudir – muito, de pé. (A Globo não sabe o que está perdendo.)

Eles cantam, dançam e atuam divinamente, para narrar a história de Neguinho da Beija-Flor entre amores e perrengues, viagens e encontros, desafios e vitórias, entremeados por muito samba. Dois atos que o público não sente passar, divertindo-se com músicas, histórias e personagens da vida do homenageado.

Aqui, aliás, está a grande recompensa. Um artista fabricado pelas escolas de samba, que brilhou ao longo de meio século conduzindo seu povo a desfiles memoráveis – entre eles, 15 títulos –, ganha merecida reverência em palco emblemático da cultura brasileira, longe da sua manifestação. Junta-se a totens como Elis Regina, Milton Nascimento, Djavan, Rita Lee, Elza Soares, Cazuza, Tim Maia e tantos outros que tiveram suas biografias teatralizadas.

“O Neguinho da Beija-Flor – Musical” está em cartaz no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, nas franjas do Centro carioca, de quinta a domingo, até 1º de novembro. Em 2027, viajará pelo menos cinco capitais. Duas horas e meia de espetáculo, bálsamo reparador diante do inclemente noticiário de um país à beira da iniquidade.

Porque, como ensina a Flávia aqui ao lado, o samba cura.

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Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal SporTV. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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