O assentamento rural Fazenda Engenho Novo, na localidade de Monjolos, em São Gonçalo, reúne hoje cerca de 146 famílias, número que varia com o tempo, já que há uma rotatividade constante de gente chegando e saindo. É uma das últimas áreas de agricultura familiar dentro da região metropolitana do Rio de Janeiro, erguida sobre uma fazenda que pertenceu a um barão amigo de Dom Pedro II e que só se tornou terra pública depois de décadas de disputa.
Há mais de três décadas, o assentamento convive com o avanço da urbanização em seu entorno. São Gonçalo tem 129,83 km² de área urbanizada, o que significa pouco mais de 50% do total de 248 km² do município, e uma população de 896.744 habitantes, segundo o Censo 2022. A estimativa do IBGE para 2026 é de quase 960 mil moradores.
Em meio a esse crescimento, dois episódios preocupam os moradores do assentamento. Em 2010, uma enchente derrubou uma das pontes de acesso à região. Desde então, moradores como Luzimar Amorim cobram sua reconstrução, sem que uma solução definitiva tenha sido apresentada.
Mais recentemente, um projeto de pavimentação de estradas na região passou a abrir vias que cortam sítios e roças, em alguns casos a poucos metros das cercas das propriedades. Novamente, os moradores não foram consultados sobre o traçado ou o impacto nas áreas de cultivo.
Doutora em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e coordenadora do grupo de pesquisa Observatório Fundiário Fluminense, Ana Motta avalia que esse tipo de situação é arbitrária e que uma escuta é necessária: “Existe a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata do direito de consulta prévia das populações atingidas por impactos de desenvolvimento. Esse princípio surgiu das lutas dos povos indígenas e foi sendo estendido a quilombolas e camponeses. Essas populações têm o direito de serem previamente ouvidas”, explica.
Apesar de décadas de organização, o assentamento também luta contra um obstáculo mais antigo: o de não ser oficialmente reconhecido como área rural pelo município. Uma pesquisa de Uriah Ferreira de Almeida, publicada em 2025 pela revista Geopauta, mostra que São Gonçalo nega a existência de zonas rurais em seu território desde os anos 1960, priorizando a arrecadação urbana, e que essa ausência de reconhecimento segue limitando o acesso da agricultura familiar a políticas públicas e investimentos em infraestrutura.


A história da Fazenda Engenho Novo
A antiga sede da Fazenda Engenho Novo, hoje um patrimônio tombado, e o assentamento rural que leva o mesmo nome não são exatamente a mesma coisa, ainda que ocupem a mesma área, hoje de propriedade do Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (ITERJ).
A fazenda pertenceu à família do Barão de São Gonçalo, Belarmino Ricardo de Siqueira, desde o início do século 19 até sua morte, em 1873, e produzia cana-de-açúcar, laranja e abacaxi. O testamento do barão menciona a existência de 111 pessoas escravizadas na propriedade.
Depois de sua morte, a família Serrado passou a explorar a fazenda, introduzindo o cultivo de frutas cítricas, até que ela entrou em decadência e foi vendida, já no século 20, a um novo proprietário. Este abandonou a produção agrícola e passou a explorar ilegalmente a extração de areia, o que acirrou o conflito com os antigos moradores da região.
O período ficou conhecido entre os próprios moradores como “Muvuca”, em referência ao clima de tensão que marcou a disputa pela terra entre as décadas de 1980 e 1990, quando antigos meeiros e arrendatários, muitos deles descendentes de pessoas escravizadas, foram pressionados a deixar suas terras.
Fundado em 1963, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Gonçalo teve papel decisivo na organização dos agricultores durante esse período e na luta pela desapropriação da fazenda. A mobilização levou o Estado a declarar a área de utilidade pública em 1991, e, dois anos depois, o então governador Leonel Brizola assinou o decreto que garantiu a posse provisória do imóvel aos moradores.
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Veja o que já enviamosEm 1995, 143 famílias foram oficialmente assentadas, recebendo lotes para cultivo e moradia. A sede histórica da fazenda foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) em 1998, mas segue majoritariamente abandonada, em ruínas. Embora o patrimônio histórico pertença ao Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (ITERJ), por meio de uma nota enviada por e-mail, o INEPAC informou que “acompanha de perto a situação da Fazenda Engenho Novo e destaca a necessidade de obras emergenciais com o objetivo de salvaguardar o bem tombado”.
O protagonismo negro no assentamento
Parte dessa história tem raízes ainda mais antigas. Uma pesquisa das historiadoras Daiana Sousa Santiago e Samuel Silva Rodrigues de Oliveira, publicada em 2022 pela Revista Transversos, reconstrói a memória de duas famílias afrodescendentes que se tornaram lavradoras na Fazenda Engenho Novo ainda no século 19.
Alfredo Pinheiro da Silva, neto do liberto Silvestre Pinheiro, carpinteiro e músico que se fixou na fazenda depois da abolição, e Marcolina Alexandrina da Silva, bisneta de uma mulher escravizada, herdaram de seus avós e pais a condição de arrendatários, construindo ali um direito à terra que antecede em quase um século a criação do assentamento.
Professora primária, Marcolina se tornou também uma liderança política da região de Monjolos. Nos anos 1960, negociou com os herdeiros da família Serrado a doação de um terreno para a construção de uma escola estadual, inaugurada em 1966, e décadas depois lutou pela criação de uma creche comunitária que hoje leva seu nome.
Hoje, a família luta para preservar a memória de Marcolina, a neta, Camila Marins, conta que decidiu cursar Direito para defender o legado de sua história. “Para a gente é muito gratificante. Ela não faleceu e acabou, ela faleceu e continuou. A escola vai passando de geração em geração”, conta.
Segundo Camila, participar de entrevistas e trabalhos acadêmicos sobre a região é uma forma de manter a história da avó viva, que, antes de morrer, pediu à neta que permanecesse à frente da escola. “Aqui é da nossa família, aqui é um patrimônio nosso, eu preciso de você aqui”, relembra.
A importância ambiental da agricultura familiar
No sítio Amorim, dentro do assentamento, a história de Luzimar é intrínseca ao local da Fazenda Engenho Novo. Ela foi batizada ainda na sede da antiga fazenda, onde seu pai nasceu, foi criado e plantou laranja a vida inteira.
Depois de casada, morou um tempo em Colubandê, mas voltou para a área rural assim que pôde, assumindo com o marido a benfeitoria do sítio ao lado do pai quando a primeira filha tinha três meses, e desde que ele morreu, em 1992, cuida da terra sozinha, criando os quatro filhos com o que planta e vende.
Atualmente, a família produz laranja, abacate, manga, acerola, coco e aipim e vende na Feira de Agricultura Gonçalense que acontece às terças e sextas-feiras. Luzimar sobrevive do que produz e o lucro mensal rende pouco mais de mil reais, hoje, o que mais lhe faz falta é gente disposta a trabalhar na roça e pela falta de suporte, ela mesma faz sozinha quase todo o serviço, contando apenas com a ajuda eventual de um vizinho.
Apesar de muitas famílias estarem há muitos anos em Monjolos, não é todo mundo que traz consigo essa herança local e familiar. Há seis anos morando no local, o agroflorestador Daniel Medeiros, passou os primeiros dois anos e meio como meeiro, cuidando do lote de uma pessoa que já não tinha condições de trabalhar a terra e dividindo com ela a produção.
Há três anos, iniciou o processo de regularização fundiária, assumindo a benfeitoria de um lote que era de Cristina Carminho, e hoje aguarda a homologação junto ao Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro para receber, também ele, o título de posse por 99 anos que rege o assentamento.
Foi Daniel quem explicou que, nesse sistema, o que se paga entre moradores nunca é a terra, que segue pública, mas a benfeitoria construída em cima dela, a casa, o poço e as plantações. No lote, maneja uma área de agrofloresta, cultivando tomate, abóbora, abacaxi e maracujá por baixo da mata em regeneração, com produção voltada majoritariamente ao consumo da própria família. Também colhe sementes nativas para projetos de restauração florestal, atividade que já incluiu um viveiro de mudas de mata atlântica, hoje parado por causa da seca do ano anterior e da falta de um poço que possa armazenar água para mantê-lo.
A água, aliás, nunca foi garantida na região, um problema que os agricultores descrevem como histórico. Luzimar compra regularmente um caminhão-pipa de dez mil litros, que custa cerca de 220 reais, e tem cisterna em casa, mas não são todos os assentados que possuem a mesma estrutura.
Antes da pandemia, cursos e apoio técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RJ) ajudavam a suprir parte dessas dificuldades, com formação em produção de laranja, horticultura e criação de galinha caipira, mas essas atividades praticamente pararam nos últimos anos, e o galpão que hoje sedia a associação de moradores, erguido em 2014 a partir do espaço de reunião original na sede da fazenda, segue fechado a maior parte do tempo.
Para Luzimar, o que falta para fortalecer a agricultura na região é conhecido e repetido há anos: mais cursos, mais apoio técnico, mais reuniões entre os agricultores, incentivo da prefeitura, máquinas e mão de obra, mas o que ela destaca com mais insistência é a importância de passar esse conhecimento adiante: “A falta de união é isso, um passa experiência para o outro”, diz, lamentando que os encontros da associação tenham se tornado raros.


O que diz o poder público?
A relação entre os assentados e o poder público municipal também é complexa. Segundo relatos, o fornecimento de alimentos para a merenda escolar depende de editais que não saem com frequência, e quando o contrato existe, o pagamento pela prefeitura chega a levar até oito meses, um prazo que compromete o fôlego financeiro de quem sobrevive da colheita.
Em visita ao assentamento, a reportagem do #Colabora também observou acúmulo de lixo em trechos da estrada, o que destoa da rotina de coleta descrita pela prefeitura.
Por meio de uma nota, a Prefeitura de São Gonçalo informou que “a região está passando por obras de infraestrutura, com instalação de redes de drenagem e pavimentação nas estradas vicinais, incluindo a Estrada Rio Frio, onde fica o assentamento Fazenda Engenho Novo.
A Prefeitura informa, ainda, que a coleta de lixo no local é realizada por uma rota diurna, às terças-feiras, quintas-feiras e aos sábados. As secretarias de Educação e de Agricultura e Pesca apoiam as atividades realizadas no assentamento, com incentivo e realização de eventos para a divulgação dos produtos e compra dos alimentos ali produzidos pela agricultura familiar para utilização pelas unidades da rede municipal de ensino, integrando o cardápio da merenda escolar.”
O ITERJ foi procurado para esclarecer informações a respeito do abandono do patrimônio histórico e sobre os assentados, mas até o fechamento desta reportagem, nenhuma resposta foi obtida.
*Esta reportagem é resultado do trabalho final de Carina dos Santos, desenvolvido como etapa de conclusão do curso #Colabora com Inclusão e Diversidade 2026, realizado com fomento da Associação Saúva.
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