ODS 1
Perigo real e imediato: ONU alerta para inevitável ultrapassagem do limite de aquecimento global




Leito de rio seco na Amazônia: com o aquecimento global acima de 1,5º C, perigo de tragédias climáticos e de pontos de não retorno vai alcançar novos patamares (Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace – 19/10/2023)
Novo relatório prevê planeta com temperatura 1,8º C acima do período pré-industrial com os riscos de tragédias climáticas em novo patamar
Uma semana depois da tragédia climática no Nepal, com mais de mil mortos e ainda três mil desaparecidos, vítimas de uma violenta enchente repentina de água, lama e gelo, após o deslizamento de uma geleira do Himalaia, relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta como inevitável e temporariamente irreversível a ultrapassagem do limite de aquecimento global de 1,5º C acima da temperatura média do período pré-industrial “levando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos”. Como destaca o documento de 140 páginas, não se trata mais de evitar a ultrapassagem, mas de mitigação e adaptação para os impactos.
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O relatório ‘Limiting Overshoot’ (Limitando a Ultrapassagem) aponta uma trajetória de “ultrapassagem, pico e declínio” como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem do limite do aquecimento global e tentar retornar a níveis abaixo de 1,5°C o mais rápido possível – ‘overshoot’ é o termo que vem sendo usado globalmente para a ultrapassagem, por décadas, do limite de 1,5°C de aquecimento global definido pelo Acordo de Paris. “O calor abrasador, os incêndios florestais devastadores e as inundações mortais deste verão são um alerta para o que está por vir. Precisamos tornar a ultrapassagem do limite de 1,5 grau a menor e a mais breve possível. Isso exige uma ambição que vá além dos limites habituais”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem para a apresentação do documento nesta quarta (02/09).
Em todo o mundo, ondas de calor extremas já demonstram que os impactos climáticos chegarão mais rápido, serão mais severos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas
Relatório aponta, no melhor cenário, aumento máximo de temperatura de 1,8°C; algumas projeções sugerem mais de 2°C. “Não há cenários positivos acima de 1,5°C. Fenômenos climáticos extremos, o derretimento de geleiras, a perda de ecossistemas e a elevação do nível do mar se intensificarão. Alguns Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras situadas em áreas baixas poderão ficar parcial ou totalmente submersos. Os riscos de pontos de não retorno (‘tipping points’) aumentarão”, destaca a economista e ambientalista dinamarquesa Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma, na apresentação do relatório.
Os cientistas reunidos pelo programa apontam que o aumento da temperatura global deve ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais já nos próximos anos. “A saúde humana, a segurança alimentar e hídrica, bem como as cidades e a infraestrutura, sofrerão pressões crescentes. Esses impactos não serão distribuídos de forma igualitária, e algumas perdas serão irreversíveis, mesmo que as temperaturas globais venham a cair futuramente”, acrescenta Inger Andersen, enfatizando que o objetivo do relatório é exatamente traçar o caminho para a temperatura do planeta retornar a níveis abaixo de 1,5°C até o final do século e adaptar a população aos impactos das mudanças climáticas.
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Veja o que já enviamosA trajetória desenhada pelo relatório do Pnuma minimizaria a elevação da temperatura de pico por meio de reduções imediatas e sustentadas das emissões de gases de efeito estufa — incluindo o metano — rumo à neutralidade de carbono, e reduziria as temperaturas mediante emissões líquidas negativas a longo prazo, tendo como componente essencial a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) — processo de retirar carbono do ar e armazená-lo por meio de florestamento ou outros métodos.
O documento enfatiza a necessidade de ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais das mudanças climáticas sobre sociedades, comunidades e economias, apesar de admitir que provavelmente existam limites para a adaptação e ocorram impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. “Em todo o mundo, ondas de calor extremas já demonstram que os impactos climáticos chegarão mais rápido, serão mais severos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, alertou a diretora-executiva do Pnuma, na apresentação do relatório.
A trajetória indicada pelo relatório reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa e aumentaria as chances de redução das temperaturas. “É hora de intensificarmos a ação climática. Podemos — e devemos — seguir o caminho certo: reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, fortalecendo a resiliência e a adaptação e garantindo que qualquer ultrapassagem do limite de 1,5°C seja a menor e a mais breve possível”, adicionou Andersen.


Aquecimento global, impactos devastadores
Como o cenário otimista indica um aumento de 1,8º C, o relatório alerta que a probabilidade de ultrapassar pontos de não retorno irreversíveis aumenta com a magnitude e a duração de temperaturas mais elevadas. Entre esses pontos, estão a a degradação da Floresta Amazônica, a desestabilização de grandes mantos de gelo e a perturbação da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico – sistema de correntes que transporta águas superficiais quentes para o norte e águas profundas frias para o sul, desempenhando papel fundamental na regulação do clima).
Alguns impactos podem surgir de forma abrupta, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo. “Os riscos e impactos incluem uma elevação mais rápida do nível do mar, maior probabilidade de colapso de ecossistemas como recifes de coral, mais ondas de calor extremo e incêndios florestais, além de mudanças profundas na criosfera”, alerta o relatório. “As geleiras, por exemplo, poderiam perder mais de um quarto de sua massa até 2100, o que poderia elevar o nível do mar entre 9 e 13 centímetros e alterar permanentemente a disponibilidade de água em muitos locais”.
O documento do Pnuma aleta ainda que, embora existam incertezas quanto aos prazos e à intensidade dos impactos com a ultrapassagem dos limites do aquecimento global, eles poderão ser devastadores para populações em todo o mundo “A segurança alimentar e o abastecimento de água serão afetados; por exemplo, projeções indicam quedas de até 14% na produção global de alimentos até 2050, na ausência de medidas eficazes de adaptação. Ondas de calor mais frequentes e intensas, mais doenças relacionadas à nutrição e maiores riscos de transbordamento de patógenos aumentarão a incidência de enfermidades e mortes”, afirma o relatório.
Reduzir as emissões e adaptar-se aos seus impactos são duas partes de uma mesma resposta; ambas precisam começar agora, de forma conjunta e alinhada, desde a fase inicial
Os autores – especialistas nas áreas de ciência do clima, adaptação, mitigação, governança e desenvolvimento sustentável – também destacam que cidades e infraestruturas enfrentarão maiores riscos decorrentes de ondas de calor mais fortes e prolongadas e de inundações. “O aquecimento dos oceanos, a redução dos níveis de oxigênio e o aumento da acidez dificultarão a sobrevivência da vida marinha e das comunidades que dela dependem. A maior demanda por energia, os custos para o consumidor e a pressão sobre os sistemas financeiro e de seguros representarão riscos para todas as nações”, alerta ainda o documento.
No lançamento do relatório, o Pnuma também reuniu comentários dos cientistas envolvidos. “Ultrapassar o limite de 1,5°C é um lembrete doloroso de que a falha em reduzir as emissões de gases de efeito estufa traz consequências que já não podemos evitar, apenas limitar”, afirmou o belga Joeri Rogelj, professor de Ciência e Política Climática, do Imperial College, de Londres Nossa resposta exige que a mitigação e a adaptação avancem em conjunto: reduções de emissões a curto prazo podem limitar a ultrapassagem e reduzir os danos, mas uma mitigação inadequada levará comunidades e ecossistemas além de sua capacidade de adaptação, acrescentou.
A cientista brasileira Joana Portugal Pereira, doutora em engenharia ambiental, também participou do relatório. “Reduzir as emissões e adaptar-se aos seus impactos são duas partes de uma mesma resposta; ambas precisam começar agora, de forma conjunta e alinhada, desde a fase inicial”, enfatizou. “Estratégias de remoção de dióxido de carbono serão essenciais para estabilizar o aquecimento global e reduzir as temperaturas mais adiante neste século, mas apenas em paralelo a cortes profundos nas emissões — jamais como um substituto para eles”, acrescentou a professora da UFRJ e da Universidade de Lisboa.


Caminho de volta e seus obstáculos
O Programa de Meio Ambiente da ONU adverte para a urgência da adoção de uma ação “acelerada, coletiva e global para trilhar um caminho que envolva ultrapassagem temporária, pico e declínio”, diante da magnitude dos riscos envolvidos. E destaca os benefícios de intervenções climáticas, como uma transição rápida dos combustíveis fósseis para energias renováveis, com a consequente melhora na qualidade do ar e na saúde pública, a redução dos custos de energia e a ampliação do o acesso à eletricidade. “A velocidade e a intensidade dessa ação definirão a configuração e a trajetória desse caminho”, indica o relatório.
O relatório também aponta que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, devem avançar em conjunto, respondendo simultaneamente a riscos emergentes. Intervenções que alcancem objetivos tanto de mitigação quanto de adaptação – como soluções de resfriamento baseadas na natureza – devem ser priorizadas. “As medidas de adaptação implementadas agora constituem a base para os esforços futuros, mas precisam se tornar transformadoras e capazes de responder a riscos em evolução, não lineares e de surgimento abrupto – incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação”, afirma o documento.
É difícil expressar a intensidade da emoção daqueles de nós que vivem na linha de frente, após termos lutado tanto para colocar o limite de 1,5 grau no centro do Acordo de Paris. Ele oferece um novo vislumbre de um futuro perigoso que já chegou
A diretora-executiva do Panuma destacou que a necessidade de maior vontade política e multilateralismo, bem como uma governança mais ágil e inclusiva, com equidade e a justiça no centro de todas as ações para que o planeta tenha êxito nesse caminho de retorno para o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris. “Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas devem agir com a maior rapidez e ambição. Além disso, como muitas nações e comunidades provavelmente enfrentarão mudanças permanentes, será necessária uma reformulação fundamental da governança de longo prazo para garantir que aqueles que menos contribuíram para o aquecimento global não sejam os que arcarão com os seus maiores impactos”, afirmou Inger Andersen.
O relatório enfatiza ainda que o ‘net-zero’ (emissões líquidas zero) deve ser um marco rumo ao ‘net-negative’ (emissões líquidas negativas), com a remoção de dióxido de carbono (CDR) necessária como complemento – e não substituto – às reduções sustentadas das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, a CDR só pode contribuir de forma credível para um retorno a níveis abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento permanecer bem abaixo de 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Estruturas de governança robustas para a CDR serão fundamentais para permitir sua implementação responsável e gerenciar as implicações para a integridade ambiental, a equidade e a escala.
Futuro perigoso já chegou
Na apresentação do documento, Inger Andersen enfatizou ainda que os esforços precisarão evoluir ao longo dos anos para lidar com muitas incertezas provocadas pelo aquecimento global e pelas consequentes mudanças climáticas. “Mas as decisões tomadas agora e nos próximos anos determinarão se ainda haverá opções viáveis para reverter o aquecimento e limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Por isso, conclamo os governos — e todos aqueles com poder para promover mudanças — a agir com urgência e determinação”, afirmou.
Infelizmente, como já sabemos, reduzir emissões não é mais suficiente; será necessário um aumento urgente na remoção de carbono baseada na natureza, por exemplo, por meio de programas de reflorestamento em larga escala. O desafio é garantir que a medida da ambição não seja o que se promete, mas sim o que se entrega para atender à urgência que o momento exige
Também participaram do lançamento do relatório do Pnuma, autoridades envolvidas nas negociações climáticas da ONU. “Cada fração de grau de aquecimento acima de 1,5°C resulta em impactos climáticos crescentes e cada vez mais severos, com a nossa família do Pacífico na linha de frente”, disse Chris Bowen, ministro de Mudanças Climáticas e Energia da Austrália e Presidente das Negociações da COP31. “Embora saibamos que o desafio está aumentando, o mesmo ocorre com o ímpeto de ação. A recente crise energética lembrou o mundo da necessidade de reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis e fortalecer a cooperação climática. A COP31 é uma oportunidade de transformar nossa ambição em ação — com a Turquia, a Austrália e o Pacífico promovendo uma COP prática e focada em soluções”, acentuou Bowen.
Presidente da República de Palau, um dos países insulares ameaçados de submersão com o aumento do nível dos oceanos, Surangel Whipps Jr. ressaltou que o relatório ‘Limiting Overshoot’ representa um momento decisivo para o planeta. “É difícil expressar a intensidade da emoção daqueles de nós que vivem na linha de frente, após termos lutado tanto para colocar o limite de 1,5 grau no centro do Acordo de Paris. Ele oferece um novo vislumbre de um futuro perigoso que já chegou”, lamentou o presidente de Palau, país formando por 300 ilhas no Pacífico. “Para mantermos uma chance real de sucesso, apelos por maior ambição já não bastam: precisamos ver um aumento urgente e sem precedentes na vontade política e nos investimentos em um futuro climaticamente seguro. Ninguém pode ler este relatório e chegar a uma conclusão diferente”, frisou.
CEO da COP30, a ambientalista e economista brasileira Ana Toni enviou uma mensagem em vídeo para o lançamento do relatório do Pnuma lembrando que a decisão da COP30 sobre o “Mutirão Global”, aprovada por consenso em Belém, foi o primeiro texto de uma COP a reconhecer a probabilidade de uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C na temperatura. “Os países também assumiram um compromisso inédito de limitar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e de sanar as lacunas de adaptação — um esforço que exige reduções de emissões profundas, rápidas e sustentadas”, afirmou . “Infelizmente, como já sabemos, reduzir emissões não é mais suficiente; será necessário um aumento urgente na remoção de carbono baseada na natureza, por exemplo, por meio de programas de reflorestamento em larga escala. O desafio é garantir que a medida da ambição não seja o que se promete, mas sim o que se entrega para atender à urgência que o momento exige”, acrescentou Ana Toni.
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