40+, de ‘mais’ uma vida pela frente

Ao contrário do que o senso comum tenta dizer, envelhecimento pode significar mais escolhas para mulheres, sobretudo em uma eleição em que somos maioria nas urnas

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 25/08/2026 - 09h09 (Atualizado há 22 minutos)

Tempo de leitura: 5 min

Este ano, no mesmo dia em que Caetano Veloso celebra seu aniversário, eu fiz 41 anos com todo tipo de festejo. Quando nasci, em 1985, a expectativa de vida de uma mulher brasileira era de 68,2 anos. Hoje, em 2026, é de 79,9. Minha mãe me teve aos 30 e já passou daquela expectativa que existia quando eu cheguei ao mundo. E, no que depender da saúde dela e das conquistas femininas, vai passar bastante mais – e como filha e  mulher, eu digo: ainda bem!

A conta bagunça um pouco uma ideia de idade que a gente carrega sem perceber. Aos 41 anos, considerando a expectativa de vida atual, posso estar mais ou menos na metade da minha vida. Isso levando em conta que a expectativa de vida é a média de mulheres brasileiras, que inclui algumas com a vida infinitamente mais difícil e vulnerabilizada do que a minha.

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Vira e mexe, conversando com minhas amigas, percebo que uma das coisas mais legais de ter passado dos 40 é justamente descobrir que ninguém chegou aqui com o manual que tentavam fazer a gente seguir. Continuamos com dúvidas sobre trabalho, amor, dinheiro, sexo, desejo, família, onde morar, com quem dividir a vida, se queremos dividir a vida, se ainda dá tempo de começar uma coisa completamente diferente. Graças a Deus (e, ao mesmo tempo, ZERO graças a ele, porque também podemos ser ateias). Cruz credo chegar aos 40 com todas as perguntas respondidas.

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A diferença está no fato de que agora algumas perguntas vêm acompanhadas de uma liberdade “nova”, ou inédita para outras gerações: já sabemos que podemos frustrar certas expectativas sociais se elas não forem também as nossas. Casamento, filhos, carreira X ou Y, tudo isso pode ser maravilhoso quando está no campo do desejo, e não da obrigação.

Mulher votando em Brasília: envelhecimento pode significar mais escolhas para mulheres, sobretudo em uma eleição em que eleitorado feminino é maioria (Foto: Roberto Jayme / TSE)
Mulher votando em Brasília: envelhecimento pode significar mais escolhas para mulheres, sobretudo em uma eleição em que eleitorado feminino é maioria (Foto: Roberto Jayme / TSE)

Novamente, sei também de que lugar digo tudo isso. Passar dos 40 sendo branca, de classe média, heterossexual, sem filhos, com estudo, trabalho e autonomia financeira me oferece possibilidades que outras mulheres não encontram com a mesma facilidade. Escolha é privilégio. E reconhecer privilégio só faz sentido quando ele produz responsabilidade política. Eu não quero apenas comemorar as portas pelas quais consegui passar; quero viver num mundo em que seja cada vez menos excepcional uma mulher poder escolher a própria vida. A medida de uma conquista coletiva não pode ser o quanto algumas de nós avançaram, mas quantas outras conseguimos levar junto.

Até porque envelhecer, com erros e acertos, não nos retira da vida pública. Neste ano eleitoral, somos 83,9 milhões de mulheres aptas a votar no Brasil, 52,84% do eleitorado, e seguimos dramaticamente sub-representadas nos espaços em que as decisões são tomadas. Lamentavelmente, somos maioria decidindo quem governa um país em que continuamos minoria governando. Por isso é tão fundamental que a gente eleja mulheres que estejam alinhadas com nossos direitos, trabalhando para que as escolhas sejam um direito de todas as mulheres.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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