Longevidade feminina desacelera no século 21

Mulheres idosas no Japão: longevidade feminina vem desacelerando no século 21 (Foto: Adam Jones via Wikimedia Commons)
Mulheres idosas no Japão: longevidade feminina vem desacelerando no século 21 (Foto: Adam Jones via Wikimedia Commons)
Mulheres idosas no Japão: longevidade feminina vem desacelerando no século 21 (Foto: Adam Jones via Wikimedia Commons)

Por que as mulheres já não ganham tantos anos de vida?

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 5

Publicado em 24/08/2026 - 09h49 (Atualizado há 16 minutos)

Tempo de leitura: 10 min

Durante boa parte do século XX e o início do século XXI, a expectativa de vida feminina representou uma das mais impressionantes conquistas da humanidade. Em países líderes em longevidade, como Hong Kong, Japão e Coreia do Sul, era comum observar ganhos de cerca de três anos de vida por década. Parecia que a fronteira da longevidade humana avançava continuamente, impulsionada por melhorias na medicina, na saúde pública e nas condições de vida.

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O aumento da expectativa de vida é um pré-requisito para o desenvolvimento humano e a melhoria das condições de vida da população. Porém, nos anos 2020, essa trajetória perdeu força nos países com maior Índice de Desenvolvimento Humano. A expectativa de vida das mulheres continua entre as mais altas da história, mas o ritmo de crescimento desacelerou significativamente.

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O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra os países com as maiores expectativas de vida ao nascer para o sexo feminino desde 1840. Em meados do século XIX, a expectativa de vida feminina nos países mais ricos estava abaixo de 50 anos. Em 1900, o país com a maior expectativa de vida feminina era a Noruega com 55,1 anos e, em 1920, era a Suécia com 60,1 anos. Entre 1900 e 1920, a expectativa de vida aumentou 2,5 anos por década. Mas após o fim da Primeira Guerra Mundial, houve uma aceleração dos ganhos da expectativa de vida, que subiu 4,2 anos por década entre 1920 e 1960.

A expectativa de vida feminina continuou avançando na segunda metade do século XX, mas em ritmo mais lento. O pais com a maior expectativa de vida feminina em 1980 era a Islândia com 80,1 anos e, em 2000, o Japão com 84,5 anos. Nas duas últimas décadas do século XX, os ganhos da expectativa de vida foram de 2,2 anos por década e nos primeiros 20 anos do século XXI os ganhos foram ligeiramente menores, com avanço de 2,1 anos por década.

Gráfico com os países com a maior expectativa de vida de mulheres: 1840/2023 (Fonte: Human Mortality Database / ONU)
Países com a maior expectativa de vida de mulheres: 1840/2023 (Fonte: Human Mortality Database / ONU)

Em aproximadamente dois séculos, a máxima expectativa de vida feminina no mundo praticamente dobrou. Contudo, a pandemia de COVID-19 interrompeu essa trajetória histórica, provocando uma redução temporária da longevidade feminina no início da década de 2020. Em Hong Kong, território que liderava o ranking mundial em 2019, a expectativa de vida das mulheres atingiu 88,2 anos. Após recuar durante os anos mais críticos da pandemia, entre 2020 e 2022, o indicador recuperou parte das perdas, alcançando 88,1 anos em 2023, ainda ligeiramente abaixo do nível pré-pandêmico.

O que explica a desaceleração do avanço da expectativa de vida feminina?

A primeira resposta se deve ao aumento da mortalidade durante a pandemia. Em segundo lugar, o sucesso das últimas décadas tornou os novos avanços muito mais difíceis. Ao longo do século XX, foi possível reduzir drasticamente a mortalidade infantil, controlar doenças infecciosas, ampliar a vacinação, universalizar o saneamento e desenvolver tratamentos eficazes para doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer. Esses avanços salvaram milhões de vidas e elevaram rapidamente a expectativa de vida.

Hoje, entretanto, os países mais longevos já apresentam níveis muito baixos de mortalidade antes dos 80 anos. Os ganhos futuros dependem, sobretudo, de reduzir as mortes entre pessoas com 85, 90 ou até mais de 100 anos. Do ponto de vista demográfico, trata-se de um desafio muito maior. É relativamente fácil aumentar a expectativa de vida de 70 para 75 anos; muito mais difícil é elevá-la de 88 para 93 anos.

A pandemia de COVID-19, sem dúvida, desempenhou um papel importante na interrupção dessa trajetória. Mesmo países reconhecidos pelo excelente desempenho sanitário sofreram impactos relevantes. Hong Kong, por exemplo, registrou em 2022 uma forte onda de mortalidade entre idosos muito longevos, após ter passado relativamente ilesa pelos primeiros anos da pandemia. Japão, Coreia do Sul e vários países europeus também experimentaram aumentos temporários da mortalidade, reduzindo ou interrompendo os ganhos acumulados ao longo de décadas.

Mas a pandemia explica apenas parte da desaceleração. Há também uma transformação profunda no perfil das doenças que afetam as populações envelhecidas. Hoje predominam enfermidades crônicas e degenerativas, como Alzheimer, outras demências, Parkinson e síndromes de fragilidade. A medicina moderna consegue controlar muitas dessas condições e prolongar a vida dos pacientes, mas ainda encontra dificuldades para impedir sua progressão ou eliminar completamente o risco de morte nas idades muito avançadas.

Outro aspecto importante é que os chamados “ganhos fáceis” da saúde pública já foram amplamente conquistados. A descoberta dos antibióticos, a vacinação em massa, o controle da hipertensão, a redução do tabagismo, os avanços da cirurgia cardíaca e da terapia intensiva produziram saltos extraordinários na sobrevivência. Atualmente, os avanços científicos continuam ocorrendo, mas seus efeitos tendem a ser mais graduais e incrementais.

Isso não significa que a humanidade tenha alcançado um limite absoluto para a longevidade feminina. A expectativa de vida ainda pode crescer nas próximas décadas, impulsionada por novas terapias para doenças neurodegenerativas, pela medicina personalizada baseada em informações genéticas, pelos avanços da gerociência — que busca retardar os processos biológicos do envelhecimento — e pelo uso da inteligência artificial no diagnóstico precoce e na prevenção de doenças.

Entretanto, a tendência mais provável é que esse crescimento ocorra em ritmo menor do que no passado. Em vez dos cerca de três anos por década observados durante boa parte do período pós-guerra, os ganhos podem ficar entre meio ano e um ano por década nos países que já atingiram níveis muito elevados de longevidade feminina.

Um artigo sobre o estudo Global Burden of Disease 2023 (GBD 2023), publicado na revista The Lancet Public Health, em agosto de 2026, analisou o aumento da expectativa de vida global em relação ao tempo que as pessoas passam com boa saúde, revelando um fenômeno conhecido como o “morbidity gap” (lacuna de morbidade). O artigo mostra que as pessoas estão vivendo mais anos em termos absolutos, porém passando mais tempo doentes e embora as mulheres vivam mais, passam um número significativamente maior de anos convivendo com doenças e incapacidades.

Em 1990, a expectativa de vida global era de 64,6 anos, e a expectativa de vida saudável era de 55,9 anos (uma lacuna de 8,8 anos). Em 2023, a expectativa de vida subiu para 73,8 anos, enquanto a saudável subiu para 63,1 anos (uma lacuna de 10,7 anos). Portanto, o mundo passa quase 11 anos com doenças ou incapacidades. No Brasil, o tempo médio de vida com doença passou de 10,4 anos em 1990 para 12,5 anos em 2023.

Esse novo cenário traz uma mudança importante na agenda das políticas públicas. Se antes o grande desafio era aumentar a expectativa de vida, agora ganha protagonismo a necessidade de ampliar a expectativa de vida saudável. Em outras palavras, mais importante do que simplesmente viver mais será garantir a compressão da morbidade para que os anos adicionais sejam vividos com autonomia, boa saúde, independência funcional e qualidade de vida.

A história da longevidade feminina continua sendo uma das maiores conquistas da civilização moderna. Mas a próxima etapa dessa história provavelmente será menos marcada pelo aumento do número de anos vividos e mais pela e pela melhoria da qualidade desses anos.

Referências:

Saloni Dattani, Lucas Rodés-Guirao, Hannah Ritchie, Esteban Ortiz-Ospina, and Max Roser (2023) – “Life Expectancy” Published online at OurWorldinData.org. Retrieved from: https://ourworldindata.org/life-expectancy

Hay S, Nam P, Saqib H et al. Global, regional, and national trends in the morbidity gap and contributing diseases, injuries, and risk factors, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023, The Lancet Public Health, 11, e487-e505, August 2026

https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2468-2667%2826%2900098-8

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José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.

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