Agenda Brasil Mais Saudável evidencia impacto do clima na saúde e alimentação

Foto colorida de pessoa recebendo transfusão de sangue. Ele é um homem branco, com cabelo curto preto, está sentado em uma cadeira no Centro de Hemodiálise do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), no Distrito Federal.
Foto colorida de pessoa recebendo transfusão de sangue. Ele é um homem branco, com cabelo curto preto, está sentado em uma cadeira no Centro de Hemodiálise do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), no Distrito Federal.
Pessoa recebe atendimento no Centro de Hemodiálise do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), no Distrito Federal; doenças crônicas incluem câncer, diabetes e outras condições (Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado)

Iniciativa da ACT Promoção da Saúde apresenta propostas para lidar com doenças crônicas não transmissíveis e promover ambientes alimentares saudáveis

Por Micael Olegário | ODS 12

Publicado em 29/07/2026 - 11h30

Tempo de leitura: 13 min

As mudanças climáticas e o modelo de sociedade responsável por elas afetam diretamente a saúde, não apenas em eventos extremos, mas no cotidiano. Todos os anos, cerca de 790 mil brasileiros morrem devido a doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), sendo a maior parte evitável, caso o país implementasse políticas mais efetivas para lidar com desigualdades no acesso à saúde e no enfrentamento dos interesses de determinadas indústrias e setores.

Lançada nesta quarta-feira (29/07) pela ACT Promoção da Saúde, a “Agenda Brasil Mais Saudável” parte do diagnóstico de problemas estruturais que atingem a saúde dos brasileiros para propor políticas públicas. O objetivo é qualificar o debate eleitoral de 2026 e evidenciar a falta de medidas regulatórias para lidar com a poluição do ar, a cadeia de produção de commodities agrícolas, e o lobby de indústrias de tabaco, álcool e ultraprocessados, por exemplo.

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Segundo os dados apresentados no relatório da ACT, as doenças crônicas não transmissíveis foram responsáveis por 53,9% de todos os óbitos registrados no país em 2023. O grupo inclui câncer, doenças cardiovasculares, respiratórias, diabetes e condições mentais e neurológicas. Entre as 790 mil mortes estimadas por ano, 323 mil (40,9%) são de pessoas entre 30 a 69 anos, faixa etária em que a morte por essas causas é considerada prematura.

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A publicação utiliza como base o conceito de Prevenção 360º que reúne em uma única agenda, saúde, equidade e sustentabilidade. A ideia central é que as DCNTs compartilham fatores de risco e determinantes sociais, ambientais e comerciais comuns, por isso, ações isoladas têm efetividade e alcance limitados. Em outras palavras, enfrentar as doenças crônicas depende da atuação de diferentes setores, da saúde, educação, economia, agricultura, indústria e comércio. 

Segundo o documento, grande parcela das doenças crônicas pode ser evitada por meio do controle dos cinco principais fatores de risco: alimentação inadequada, tabagismo, consumo de álcool, inatividade física e exposição à poluição do ar. A agenda da ACT traz propostas para lidar com esses desafios, organizadas em torno de quatro estratégias: 

  • Tributação de produtos nocivos, considerada pela Organização Mundial da Saúde a ação com melhor custo-benefício para desencorajar o consumo;
  • Restrição à propaganda de tabaco, álcool e ultraprocessados, hoje com lacunas na legislação — caso da cerveja, fora da regulação vigente;
  • Rotulagem e advertências sanitárias, incluindo alertas mais evidentes em bebidas alcoólicas e avanços na rotulagem nutricional de alimentos;
  • Redução da disponibilidade desses produtos, com medidas como restrição de venda perto de escolas e fim de práticas como “open bar”.

O relatório da “Agenda Brasil Mais Saudável” mostra que o país está atrasado em muitas metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas e o do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos não Transmissíveis no Brasil

Foto colorida com vários alimentos ultraprocessados em cima de uma mesa. Na imagem, aparece um hamburguer, biscoitos, refrigerante e salgadinhos
Produtos ultraprocessados ainda não possuem marcos regulatórios consistentes (Foto: Freepik/Magnific)

Alimentação, ultraprocessados e saúde

Socióloga e diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, Paula Johns enfatiza que escolhas saudáveis do ponto de vista da alimentação dependem de ambientes saudáveis, o que inclui fatores locais, como o acesso à produtos frescos, como frutas, verduras e legumes. Por outro lado, a substituição desses alimentos por ultraprocessados representa uma ameaça direta à saúde pública, como comprovam diferentes estudos.

Paula chama atenção para a ausência de medidas básicas de regulação desses produtos, em questões como publicidade e disponibilidade em ambientes institucionais, como escolas e hospitais. “Atuamos muito fortemente na agenda da reforma tributária, para discutir o imposto seletivo para essas três categorias (álcool, tabaco e ultraprocessados), e a questão da informação real e correta para o consumidor”, explica.

O próprio termo já é um indicativo do grau de artificialidade dos produtos “ultraprocessados” que passam por muitos processos de fabricação. Em resumo, trata-se de formulações industriais com poucos ou nenhum alimento in natura, ricas em aditivos – corantes, aromatizantes e outras substâncias químicas -, além de altos em sódio, gorduras e açúcar. Exemplos de ultraprocessados são refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados e macarrão instantâneo.

Existe ainda um outro conceito que a socióloga usa para descrever as dificuldades em lidar com esse problema no contexto brasileiro: os determinantes comerciais da saúde. “A alimentação saudável precisa ser mais acessível para todas as camadas da população, porém, temos visto um movimento inverso em que os ultraprocessados estão mais acessíveis”, alerta Paula. Isso não é um acaso, mas algo relacionado com o sistema regulatório, tributário e comercial que favorece os setores que lucram com a venda desses produtos nocivos à saúde.

Precisamos ter um modelo agrícola em que seja possível sobreviver como produtor de alimentos, sem prejudicar nem a saúde e nem o meio ambiente

Paula Johns
Socióloga e diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde

Para a diretora-executiva da ACT, o problema não é necessariamente recursos, mas as desigualdades na sua destinação. “Ainda subsidiamos uma série de setores que trazem impactos nocivos não só à saúde individual, como à saúde planetária”. No caso do Brasil, Paula cita os incentivos para produção de refrigerantes e cerveja na Zona Franca de Manaus, além de um modelo de transporte ainda pouco coletivo, o que contribui para a poluição do ar e desestimula atividades físicas.

“A economia ainda sustenta setores que não estão colaborando para termos ambientes que sejam mais saudáveis, mais sustentáveis e mais socialmente justos para a população como um todo”, destaca Paula. O maior exemplo disso são as indústrias de combustíveis fósseis, principais responsáveis pela degradação da saúde do planeta e também piora a qualidade do ar em diversos locais.

Os dados sobre renúncias fiscais confirmam esse diagnóstico: em 2025, as desonerações tributárias atingiram cerca de R$544,5 bilhões, mais que o triplo do orçamento do Programa Bolsa Família. Apenas os subsídios a agrotóxicos e fertilizantes somam cerca de R$8,7 bilhões, enquanto toda a cadeia da soja contou com renúncias estimadas em R$57 bilhões.

Agricultura e clima

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) apontam que o sistema agroalimentar mundial responde por 31% das emissões de gases de efeito estufa. Esse cálculo considera desde o uso da terra e o cultivo de alimentos, até fatores como o processamento de comida, o empacotamento, o transporte, o consumo familiar e o descarte de resíduos. 

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Para Paula Johns, existem modelos agroecológicos e de economia solidária que podem servir de alternativa para a cadeia de produção de commodities para exportação, baseada em monocultura e uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos. “Precisamos ter um modelo agrícola em que seja possível sobreviver como produtor de alimentos, sem prejudicar nem a saúde e nem o meio ambiente”, frisa a socióloga.

Contudo, o que se observa no modelo em vigor é que mesmo agricultores familiares são pressionados a adotar as “inovações” e “soluções técnicas” pensadas para o modelo de exportação e grandes lavouras de monocultura. “Visitei dezenas de propriedades na região sul em que as pessoas deixaram de plantar alimento para produzir fumo para exportação, o mesmo vale para a soja”, observa Paula. Esse movimento possui ligação direta com a ideia de que o “agro é tudo” e com o que movimentos camponeses descrevem como “agronegocinho”.

“Muitos agricultores se veem como agronegócio porque têm a propriedade, a forma de produzir [semelhante], mas, quando ele vai ver a margem de lucro… tirando mão-de-obra, os insumos, ele vai ter muito pouco. Não vai conseguir competir com o agronegócio jamais”, aponta Vânia Marques Pinto, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), em reportagem de O Joio e o Trigo.

Foto colorida de agricultor familiar carregando produtos em carrinho de mão em meio à plantação de alface, no Distrito Federal
Produção agroecológica oferece alternativa para mudar sistema agroalimentar que impulsiona a crise climática (Foto: Sergio Amaral/MDS)

Doenças crônicas e interseccionalidade

O relatório da “Agenda Brasil Mais Saudável” cita a necessidade de pensar nas interseccionalidades de gênero, raça e território ao propor políticas públicas para enfrentar doenças crônicas não transmissíveis. Essa preocupação está embasada em dados que mostram, por exemplo, uma prevalência de obesidade 42% maior entre mulheres pretas do que entre mulheres brancas. A incidência de hipertensão também é maior entre pessoas pretas e pardas, em comparação com pessoas brancas.

Em relação ao tabaco, um dos destaques que chama atenção é o impacto ambiental do descarte de bitucas de cigarro. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 4,5 trilhões de bitucas são descartadas todos os anos, o que representa um grande risco devido aos resíduos tóxicos e microplásticos que poluem solos, rios e mares. 

Já sobre o controle do álcool, o documento cita a relação com diversas doenças, acidentes de trânsito e com a violência doméstica. Levantamento do Instituto Sou da Paz, em parceria com a ACT Promoção da Saúde, identificou que um a cada três feminicídios no estado de São Paulo esteve associado com o consumo de álcool nos anos de 2023 e 2024. Se considerados episódios de violência doméstica em geral, uma média de 70 casos com presença de bebida alcoólica foram registrados por dia no estado.

Já sobre a poluição do ar, a agenda elaborada pela ACT lembra que muitas das fontes que emitem poluentes atmosféricos, como a queima de combustíveis fósseis no transporte, na indústria e na geração de energia, também liberam gases de efeito estufa, ou seja, existem impactos diretos e indiretos nas condições de vida das pessoas.

Estimativas da OMS registram cerca de 7 milhões de mortes anuais devido a condições como doenças cardíacas, acidente vascular cerebral (AVC), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e câncer, entre outras, causadas pela exposição ao ar poluído.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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