ODS 1
Fórum reúne força-tarefa pelo clima para colocar metano no centro das soluções


Para Ana Toni, CEO da COP30, “desafio é transformar esse tema técnico em uma agenda compreendida e abraçada pela sociedade”


Ao reunir governo, ciência, setor produtivo e sociedade civil durante a Rio Nature & Climate Week, o Fórum Metano: Freio de Emergência Climática colocou no centro do debate uma das medidas mais rápidas e eficazes para frear o aquecimento global: a redução das emissões de metano. Debatedores destacaram que o Brasil é o quinto maior emissor de metano (CH4) do planeta – atrás apenas de China, EUA, Índia e Rússia – mas também está entre os países com maior potencial para liderar sua redução.
O fórum reuniu em cinco mesas de debate cientistas, gestores públicos, representantes do setor produtivo, da sociedade civil e lideranças climáticas. Para a CEO da Cop30 no Brasil, Ana Toni, as emissões de metano, presentes na agropecuária, nos resíduos e no setor de óleo e gás, embora sejam um assunto complexo, precisam ganhar espaço no debate público. “Reduzir as emissões de metano é uma das formas mais rápidas de ganhar tempo na luta contra a mudança do clima”, afirmou.
Ana Toni destacou que o metano é um gás de efeito estufa extremamente potente, cerca de 80 vezes mais impactante que o CO₂ no curto prazo, mas que permanece na atmosfera por um período relativamente menor. Por isso, agir sobre o metano produz resultados mais imediatos. O mais importante é que já existem tecnologias disponíveis e soluções economicamente viáveis. O desafio agora é transformar esse tema técnico em uma agenda compreendida e abraçada pela sociedade; e aí a comunicação desempenha um papel fundamental”, acrescentou a economista e especialista em políticas climáticas.
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Veja o que já enviamosEx-ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática, a deputada federal Marina Silva frisou que a mudança do clima não é um problema de um setor da economia, mas um desafio que atravessa toda a sociedade. “Enfrentá-lo exige ação coordenada, financiamento, inovação e compromisso político. Seja reduzindo metano ou CO2, só alcançaremos nossas metas climáticas se governos, empresas, cientistas e sociedade atuarem juntos para enfrentar o desmatamento, as queimadas e as emissões dos combustíveis fósseis”, disse Marina.
Responsável por cerca de 1/3 do aquecimento global desde a era industrial, o metano fica na atmosfera, em média, 12 anos menos que o carbono. “Quando falamos em mitigação de metano, estamos falando de soluções concretas e acessíveis: compostagem de resíduos orgânicos, produção mais sustentável de carne, leite e arroz, e combate aos vazamentos na indústria de petróleo e gás. São medidas de baixo custo quando comparadas a outras ações climáticas e que geram benefícios adicionais para a sociedade”, afirmou Henrique Bezerra, líder do Global Methane Hub (GMH) na América Latina.
Ao longo das cinco mesas temáticas, painelistas do Fórum Freio de Emergência Climática reforçaram a tese que o Brasil ocupa hoje uma posição singular na agenda do metano. “Já existem evidências consistentes de que é possível reduzir as emissões de metano na pecuária sem comprometer a produtividade. O desafio agora é continuar ampliando o conhecimento sobre quais estratégias funcionam melhor em diferentes contextos e sistemas produtivos”, afirmou Juan Andrés Cardoso, do Centro Internacional de Agricultura Tropical.
Debatedores mostraram que, também no tratamento de resíduos sólidos, é possível converter um passivo ambiental em uma agenda capaz de gerar benefícios climáticos, econômicos e sociais. “Precisamos acelerar a transição de uma economia baseada no descarte para uma economia circular, com mais reciclagem, reaproveitamento de materiais, valorização dos catadores e destinação adequada dos resíduos. Essa é uma agenda que reduz emissões, melhora a saúde pública e cria empregos verdes em todo o país”, disse Adalberto Maluf, do Ministério do Meio Ambiente.


Metano, dados e soluções
O papel dos dados e da tecnologia de monitoramento da agenda climática também foram temas do debate. De gás invisível a um superpoluente rastreável por satélite, o metano aparece, na visão dos cientistas, como possibilidade real e imediata de reduzir o aquecimento global. “Antes, o governo definia o problema. Hoje, a sociedade consegue medir por conta própria, e isso muda completamente a dinâmica de pressão e regulação”, ressaltou o pesquisador Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas. “Não dá mais para esconder emissões atrás de metodologias opacas”, complementou.
A pressão crescente pela segurança energética, as disputas geopolíticas e os recentes retrocessos ambientais fizeram parte do último painel do Fórum Metano: Freio de Emergência Climática, organizado pela COP30 e as ONGs Uma Gota no Oceano e Global Methane Hub. Marina Silva reforçou que a ponte entre intenção e resultado continua sendo a política pública. “O desafio não é apenas formular boas políticas, mas garantir que elas tenham continuidade, escala e capacidade de chegar a quem mais precisa”, disse a ex-ministra.
Já Sonia Guajajara, ex-ministra dos povos indígenas, lembrou que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida se ignorar quem vive e protege os territórios onde parte decisiva dessas emissões é produzida ou evitada. Ao conectar clima, direitos e governança territorial, reforçou que a participação dos povos indígenas não é apenas uma questão de justiça, mas de eficácia. “Não há política climática eficaz sem os povos que guardam os territórios. A floresta em pé não acontece por decreto. Acontece porque há gente que vive nela e a defende. Ignorar isso é desperdiçar uma das soluções mais efetivas que temos”, disse Guajajara.
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