ODS 1
Crise climática domina debates na abertura da Rio Nature & Climate Week


Carlos Nobre alerta para os "pontos de não retorno" nos biomas brasileiros; Ana Toni defende ação conjunta sobre clima, biodiversidade e desertificação


No mesmo dia em que a Organização Meteorológica Mundial (OMM) atualizou para 80% a probabilidade de formação do El Niño – classificado como forte ou muito forte – já a partir deste mês, a Rio Nature & Climate Week foi aberta, nesta terça-feira (02/)6, com ênfase na crise climática, seu enfrentamento e suas consequências. O evento segue até sábado com debates e ações espalhadas pela cidade.
O cientista e meteorologista Carlos Nobre abriu a agenda de palestras com um alerta sobre a emergência climática, chamando a atenção para os pontos de não retorno — limites críticos a partir dos quais alterações ambientais podem se tornar irreversíveis — que já ameaçam quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga. “Nós, cientistas climáticos, chamamos de emergência climática. Atingimos pela primeira vez 1,5 grau de aquecimento global. Isso está levando ao aumento do nível do mar. Nos últimos 30 anos, o nível do mar já aumentou mais de 20 centímetros globalmente. Se passarmos de 1,5 grau, vamos atingir muitos pontos de não retorno”, disse Nobre.
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O cientista destacou que 48% da vegetação original do Cerrado e da Caatinga já foi desmatada. No Pantanal, as áreas permanentemente alagadas diminuíram de 20 mil para 6 mil quilômetros quadrados. A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, perdeu cerca de 23% de sua área devido, principalmente, à expansão da pecuária. “Precisamos agir rápido para reverter esse cenário”, disse Nobre durante a palestra “Emergência Climática: desafios a serem enfrentados”, realizado no histórico prédio do Touring, no Centro do Rio, que sedia os eventos principais da Rio Nature & Climate Week.
Ao apresentar caminhos para o enfrentamento da crise climática, o pesquisador – reconhecido internacionalmente pela atuação nas áreas de clima e Amazônia – defendeu o desmatamento zero, o combate às queimadas e à degradação ambiental, além da ampliação de programas de restauração florestal. Carlos Nobre também destacou a necessidade de investir em iniciativas de sociobioeconomia e na valorização dos povos indígenas e das comunidades locais, que desempenham papel fundamental na conservação dos ecossistemas brasileiros. “É muito importante que o Rio de Janeiro volte a sediar um evento deste porte com foco na agenda climática”, adicionou.
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Veja o que já enviamosA conferência principal trouxe, ao longo do dia, representantes dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil em debates sobre desafios relacionados ao clima, à natureza e ao desenvolvimento. O último painel do primeiro dia reuniu a diretora-executiva da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), Ana Toni, o presidente da 15ª Convenção das Nações Unidas para Combate à Desertificação e à Seca (UNCCD COP15), Alain-Richard Donwahi e a presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell.
A coordenação entre os três acordos internacionais (clima, biodiversidade e desertificação) originados da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992 (Rio-92), deu o tom do debate. “Por que ter três convenções para tratar do mesmo problema? Porque, no final, estamos falando da nossa relação com a natureza”, afirmou Ana Toni, destacando que ações conjuntas são fundamentais para acelerar a implementação dos compromissos assumidos pelos países.
A CEO da COP30 destacou ainda que uma agenda concreta capaz de unir esforços das três convenções internacionais é a que envolve a recuperação de áreas produtivas e ecossistemas degradados. “São 250 milhões de hectares de terras degradadas que precisam ser recuperadas até 2030. Isso é fundamental para o clima. É fundamental para a Convenção de Desertificação e é absolutamente fundamental para a biodiversidade”, afirmou.
Alain-Richard Donwahi defendeu que um problema une as três convenções ambientais. “O problema da desertificação e a restauração das terras estão no centro. Porque, quando falamos sobre clima, precisamos da água, do ciclo da água, que é proporcionado pela terra. Quando falamos sobre perda de biodiversidade, precisamos do solo, precisamos da terra, que é o lar da biodiversidade. Não podemos continuar falando de três convenções separadas. Precisamos agir como uma só. Três equipes, uma convenção”, disse o presidente da COP15 sobre seca e desertificação.
Segundo Donwahi, os países já acumulam decisões importantes, mas enfrentam dificuldades para transformar compromissos em ações concretas para o enfrentamento da crise climática. “Nós falamos demais. Temos reuniões demais todos os anos. Tomamos boas decisões, decisões muito importantes, mas não as aplicamos. Porque não trabalhamos juntos”, declarou.
Segundo a presidente do Instituto Talanoa, o Rio de Janeiro pode ser novamente um espaço de destaque para que surja uma articulação entre as agendas ambientais globais. “Temos grandes ambições de fazer da cidade, que é o berço das três convenções, ser berço da junção e da integração entre elas”, disse Natalie Unterstell. “A integração entre as diferentes conferências não é só uma questão conceitual, institucional. É uma necessidade muito prática para acelerar os resultados, para evitar duplicações ou triplicações, no caso. E, claro, para apoiar realmente os resultados que a gente precisa”, complementou.
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