ODS 1
Cientistas cobram mapa do caminho para fim dos combustíveis fósseis


Em carta enviada ao governo Lula, SBPC e ABC apontam atraso na execução de plano para transição energética e alertam para riscos


A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) enviaram uma carta ao presidente Lula e aos ministros da Fazenda, Dario Durigan, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, cobrando o cumprimento do despacho presidencial de 8 de dezembro de 2025, que determinou a elaboração das diretrizes para o mapa do caminho da transição energética no país em até 60 dias. As instruções para elaboração do roteiro deveriam estar disponíveis no início de fevereiro, mas, dois meses depois, não há qualquer sinal delas.
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No texto, as instituições alertam que o atraso ocorre em um cenário de agravamento da crise climática e de aumento da vulnerabilidade brasileira a eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor, além de riscos à produtividade agrícola e à estabilidade de ecossistemas. “O Brasil é particularmente vulnerável: o risco de colapso irreversível da Amazônia, de redução da produtividade agrícola e de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e devastadores — enchentes, secas e ondas de calor — já comprometem vidas, infraestrutura e a capacidade do Estado de planejar e executar políticas públicas de longo prazo”, afirmam as entidades.
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Veja o que já enviamosOs cientistas da SBPC e da ABC enfatizam que “a urgência é real e crescente”, lembrando que as evidências científicas indicam que o planeta se aproxima de forma alarmante do limiar de 1,5°C de aquecimento antes de 2030 e pode ultrapassar 2°C antes de 2045, “com sérias consequências para a sociedade, o meio ambiente e a economia brasileiras”. Não está na carta, mas ainda esta semana Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou uma probabilidade de 62% de que o El Niño surja em maio, com possibilidade de se tornar um “Super El Niño” entre novembro deste ano e janeiro de 2027, o que pode significar recordes de temperatura e uma série de eventos climáticos extremos.
A carta também aponta a vulnerabilidade econômica associada à dependência de combustíveis fósseis, ressaltando que a instabilidade geopolítica internacional pode afetar preços, inflação e o abastecimento de insumos essenciais. “Como demonstra a atual conjuntura geopolítica, conflitos internacionais e tensões em regiões produtoras de petróleo – como o fechamento do Estreito de Ormuz – geram instabilidade de preços, inflação e escassez de insumos essenciais em múltiplos setores da economia brasileira. Reduzir essa dependência é, portanto, uma questão de soberania energética e de segurança econômica nacional”, destaca o documento.
As duas instituições defendem que o Brasil dispõe de condições técnicas e naturais para liderar a transição por ser “dotado de abundância de fontes renováveis de energia, de capacidade científica e as condições para transformar a transição energética em oportunidade de desenvolvimento sustentável, de geração de empregos e de liderança global”. Mas destacam a necessidade do Mapa do Caminho, “Esta transição, porém, requer planejamento e ação concertada entre governo, setor privado, academia e sociedade civil, pois envolve múltiplos setores e horizontes de longo prazo – e exige que se comece o mais rápido possível”.
A mesma cobrança já havia sido feito pelo Observatório do Clima – principal rede da sociedade civil brasileira com atuação na agenda climática com 161 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais – que destacou divergências entre os ministérios da Fazenda e Meio Ambiente, que insistiam em um processo próprio para o mapa do caminho do Brasil, e o Ministério das Minas e Energia, que propunha diluir o roteiro dentro de propostas já existentes do planejamento energético brasileiro. “A resistência do MME em participar da elaboração do mapa do caminho para afastamento dos combustíveis fósseis, infelizmente, é coerente com a posição do ministério de bloquear medidas mais efetivas de descarbonização no setorial de energia do Plano Clima. Na prática, agem como negacionistas, não reconhecem a gravidade da crise climática” afirmou Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
Na ao governo Lula, a ABC e a SBPC colocam-se à disposição do governo federal para contribuir ativamente para a elaboração das diretrizes para a transição energética e do Mapa do Caminho, mobilizando o conhecimento científico acumulado nas melhores instituições de pesquisa do país. “Conclamamos os ministérios responsáveis a cumprirem, sem mais demora, o Despacho Presidencial de 8 de dezembro de 2025. O Brasil e o mundo não podem esperar”,, conclui o documento,
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade





































