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Veja o que já enviamosUm drinque de detergente no hospício da extrapolação
Crise do Ypê atesta que o desvario domina o debate político, transformando a polarização em pura loucura


Com a implosão cinematográfica (totalmente literal) da aventura presidencial de Flávio Bolsonaro, pego de calças nos joelhos em arrulhos financeiros com Daniel Master Vorcaro, a surreal história do Ypê parece ter sido no tempo em que Dondon jogava no Andaraí. É assim, no hospício dos solavancos permanentes chamado Brasil. Mas a crise em torno dos produtos de limpeza nem acabou ainda – e nos ensina lições valiosas sobre a extrapolação desenfreada que se vive nesses trópicos.
Agência reguladora de inestimáveis serviços prestados ao país, a Anvisa fez seu trabalho: constatou falhas graves em áreas críticas da produção de detergentes lava-louças, desinfetantes e sabões líquidos para roupas, que estariam contaminados por microrganismos patogênicos. Assim, suspendeu fabricação, comercialização, distribuição e uso dos itens afetados em todo o país.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Só que a Ypê está entre as empresas queridinhas dos bolsominions, pela mais infame das credenciais: doação para a campanha de Jair Bolsonaro em busca – frustrada para o bem do Brasil – da reeleição, em 2022. Dona da Química Amparo, que fabrica os produtos de limpeza, a família Beira empenhou R$ 1,5 milhão na tentativa do capitão. A marca deles, então, colou-se à extrema-direita, fazendo companhia a várias outras, como Coco Bambu, Riachuelo, Centauro, Mormaii, Multiplan, Havan, Madero, Tecnisa, Construtora W3, Sierra Móveis e Smart Fit, além de quase todos os coronéis do agronegócio.
(Na lista que é um convite ao consumo consciente, incluem-se empresários apoiadores e financiadores da tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023. Não há provas de que os Beira integraram a quadrilha.)
A conexão político-empresarial desembocou nas redes sociais com entusiastas do bolsonarismo encenando protesto bizarro contra a medida técnica: eles resolveram beber o detergente. Diante da câmera, mamam a garrafinha de Ypê como se não houvesse amanhã – e para eles, ficou mais perto de não haver mesmo.
A farmacêutica Carolina Vieira Thomaz explica que, caso seja mesmo detergente – dá perfeitamente para substituir o líquido por energético ou suco e transformar o protesto numa eficiente fake news –, os potenciais danos à saúde são grandes. “Ali estão substâncias criadas para dissolver a gordura. Em contato com as paredes das células humanas, podem destruir os tecidos internos”, ensina ela. “A depender da quantidade do produto e da saúde de quem tomou, é potencialmente fatal”.
Mais: a medida nada tem de política. Foi estritamente técnica, após a identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes dos produtos Ypê. Frequentemente associada a infecções hospitalares, pode causar infecções cutâneas se atingir feridas. “Nesse caso específico, entrar em contato com detergente ou material de limpeza contaminado, se você tem alguma lesão na mão, ou se lavar a varanda e estiver com algo no pé, pode ter sintomas de uma infecção local”, ensina a biomédica Raiane Cardoso, à Agenda do Poder. “Atualmente, esse é o maior risco, levando em consideração que não devemos ingerir esses materiais”.
Para além da ciência, o diretor da agência responsável pela decisão, Daniel Meirelles, trabalhou como assessor e secretário-executivo do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. Não para aí: a medida foi levada a cabo pela Vigilância Sanitária de São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas, o desbotado golden boy da extrema-direita.
Noves fora os contornos científicos e administrativos, adultos entornando detergente goela abaixo inspiram muitas piadas – dá para propor lista extensa de atos ainda mais eficientes para livrar o mundo de integrantes da turma – e evocam, em viventes razoáveis, a sensação do ridículo mais profundo. É, no entanto, bem mais grave.


A cena do detergente travestido de bebida alarga a fronteira do desvario em que se transformou a polarização. Conceitos como alternância de poder, estado de direito, aceitação da vitória do outro lado, direitos humanos e outros preceitos democráticos derreteram na paixão obtusa e tóxica de quase metade do eleitorado pela extrema-direita. Virou vale tudo que ignora dolosamente qualquer regra, mesmo científica.
A irracionalidade ultrarradical transborda para a vida real da política, dando cargo e, pior, voz para excrescências que hoje infestam casas parlamentares e postos executivos país afora. O debate institucional e o atendimento às incontáveis agendas nacionais – da desigualdade à violência urbana; das lutas no campo à crise climática; da universalização do saneamento básico aos avanços na educação; dos progressos na saúde às carências habitacionais; do investimento em infraestrutura ao combate à corrupção – são enterrados em meio à gritaria que só busca cortes para as redes sociais e a consequente fama para ser ferramenta na próxima eleição.
Extrapolou-se, há muito, o limite civilizatório. Profissionais dos mais variados setores (públicos, em especial) só cumprem suas obrigações em favor do seu lado – se for do outro, dane-se. Médicos, juízes, promotores, policiais botam a escolha política à frente do dever de ofício. As fronteiras do razoável esvaneceram-se na sociedade envenenada.
E nem precisou beber detergente.
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