ODS 1


Estrutura de casa em construção atingida pelas enchentes em Arroio do Meio (Foto: Jonatan Mancias Soares)
Vale do Taquari: o que a lente não alcança
Independente de ajustes no foco, luz e enquadramento, fotos revelam apenas uma fração do drama das enchentes
Atravessar o Rio Grande do Sul, de São Borja a Arroio do Meio, foi mais do que uma viagem de quilômetros a trabalho. Foi uma mudança de percepção. Acompanhar as notícias da Fronteira Oeste sobre as enchentes no Vale do Taquari, pelas telas do celular ou pelas manchetes dos jornais acaba aplainando o relevo e silenciando sentidos; de nem uma forma, essas matérias te preparam para a escala real de onde a água foi capaz de chegar. Ver a marca física do Rio nas paredes é um soco no estômago que nenhum pixel consegue reproduzir. É assustador.
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Ao lado do colega Micael Olegário, caminhei pelo Bairro Navegantes em um silêncio compartilhado. Um dos primeiros comentários que trocamos foi inevitável: “parece uma zona de guerra”. Mas era uma guerra sem exércitos, travada contra a força bruta da natureza. Ali, onde antes batiam portas e ecoavam vozes, agora restam escombros.
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Veja o que já enviamosO que mais impressiona não é apenas a destruição, mas a rapidez com que a natureza retoma o que é dela. Plantas nascem sobre rachaduras, animais circulam entre paredes quebradas e a vida selvagem cresce sobre os restos de uma civilização interrompida. É a prova viva de que a natureza é, de fato, implacável.
Como fotógrafo, senti uma frustração nova. Por mais que eu ajustasse o foco, a luz e o enquadramento, percebi que minhas fotos seriam sempre apenas uma pequena fração da realidade. Eu posso captar a ruína, mas não consigo fotografar o vazio que ficou no lugar das casas. Há algo na percepção direta do local que é inimaginável para quem está de fora. É algo que não se descreve, apenas se sente na pele.
Essa sensação foi traduzida em palavras durante nossa conversa na nova sede da Associação de Menores do Arroio do Meio (AMAM). A diretora, em uma frase resumiu a essência de quem foi atingido pelo desastre, “o barro muda qualquer pessoa”. Entendi, naquele momento, que o barro não suja apenas as roupas ou os móveis; ele se impregna na memória, muda a perspectiva de mundo e a forma como se encara o futuro. Ninguém sai ileso do contato com aquela lama.
Volto para São Borja com cartões de memória cheios, mas com a consciência de que o registro mais profundo não está na câmera, mas no sentimento que vi nos olhos de quem ficou.



















































