Foto colorida que mostra escombros de casa e, ao fundo, outras residências no bairro Navegantes, em Arroio do Meio

No bairro Navegantes, diversas casas foram totalmente submersas pela água; local está na área de arraste (Foto: Jonatan Mancias Soares)

Em Arroio do Meio, bairro em área de arraste lembra cenário de guerra

Em Arroio do Meio, bairro em área de arraste lembra cenário de guerra

Por Micael Olegário ODS 13

Nas ruas do bairro Navegantes, casas condenadas são marcas do desastre climático. Dois anos depois, máquinas ainda realizam a limpeza dos terrenos e escombros

Publicada em 30 de abril de 2026 - 01:24

Arroio do Meio (RS) – A primeira coisa que me vem à mente quando vejo os escombros de casas, escolas e comércios do bairro Navegantes é uma cena de guerra. É como se estivesse em Gaza, na Ucrânia ou no Sudão. Em algumas ruas, máquinas trabalham para remover os vestígios do que antes haviam sido os lares de cerca de mil pessoas.

Na esquina da Rua Visconde do Rio Branco com a Rua Campos Sales – a mais próxima do Rio Taquari – aparece o que antes foi uma igreja e, ao lado, a antiga sede da Associação dos Menores de Arroio do Meio (Aman), um prédio verde de dois andares. Na fachada, uma placa com o nome e data de fundação da entidade: 18/07/1970.

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“É uma virada de chave, é doloroso… quem limpou barro não sai a mesma pessoa”. Ingrid Soares trabalha há mais de 30 anos na Aman, organização da sociedade civil que atende crianças no contraturno escolar. Hoje diretora da associação, ela vivenciou de perto os impactos das enchentes de 2023 e 2024 em Arroio do Meio, na região do Vale do Taquari.

Tive alunas e alunos que passaram de um telhado para o outro para salvar a vida

Ingrid Soares
Professora e diretora da Associação de Menores de Arroio do Meio

Em anos anteriores, a sede da Aman já havia sido afetada por outras cheias, porém, nada tão extremo. Na enchente de setembro de 2023, a água e o barro cobriram todo o primeiro andar do prédio. “Fizemos uma campanha de voluntariado, num sábado, a gente tinha 70 pessoas, veio máquina, caminhão, rolos e limpamos”. descreve. Apenas dois meses depois, em novembro, a água atingiu cerca de 1,2 metros.

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“Faltava, em fevereiro de 2024, a pintura externa. Dentro estava ricamente limpo, móveis novos, restaurados, 85 crianças matriculadas. Vem enchente: ‘ah, mas vai ser que nem foi a de setembro’. Botamos tudo no segundo andar e perdemos tudo”. No terceiro desastre em menos de um ano, a água bateu no telhado e mexeu na estrutura, o que levou o prédio a ser condenado pela prefeitura.

O bairro Navegantes foi classificado pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul como uma das áreas de arraste. O termo possui um significado literal, trata-se dos locais em que a força da água arrastou tudo que existia: casas, árvores, postes, farmácias, mercados, igrejas e escolas. Nestas áreas, a construção de novas residências está proibida e a prefeitura local pretende realocar os moradores para outros pontos da cidade.

Foto colorida da fachada da antiga sede da Aman, em Arroio do Meio. Na imagem, é possível ver o prédio com portas e janelas abertas e tomado pela vegetação
Antiga sede da Aman, no bairro Navegantes; instituição foi afetada por três enchentes consecutivas e o prédio foi condenado (Foto: Jonatan Soares)

Recomeçar pela terceira vez

Em maio de 2024, a Aman atendia 85 crianças. Na nova sede, em uma casa alugada na Rua Júlio de Castilhos, o espaço é pequeno e, por isso, hoje a Associação conta com 46 crianças e uma fila de espera por vagas. Além disso, boa parte das famílias que formavam a comunidade da entidade acabaram se mudando para outros bairros.

“Conheço pessoas que nunca tinham pego enchente. Elas perderam memórias – mais do que móveis, do que cortinas – perderam fotos”, descreve Ingrid. O mesmo aconteceu com a própria Aman, com oito álbuns de fotos que recém tinham sido restaurados depois da enchente de 2023 e foram perdidos em maio de 2024. 

Aos poucos, Ingrid trabalha para restaurar parte da história da Aman por meio das fotos nas redes sociais da Associação. Além disso, a entidade pretende construir uma nova sede em um local fora da zona de risco. Para isso, conta também com parcerias e doações – mais informações podem ser obtidas pelo telefone (WhatsApp): 51 3716-3428 ou pelo e-mail: amamescola@gmail.com.

Ingrid também acredita que o desastre de setembro serviu como um alerta para maio de 2024, ao menos para prevenir a perda de vidas. “Na de setembro, tive alunas e alunos que passaram de um telhado para o outro para salvar a vida”, relata. Além disso, ela percebe que as crianças estão mais preocupadas em acompanhar o que acontece em períodos de cheia: “ano passado tivemos uma pequena cheia e elas pediram para ver o rio”.

Foto colorida de placa de imóvel interditado em frente à residência destruída pelas enchentes, em Arroio do Meio
Placas informam residências que estão interditadas; dois anos depois, trabalho de limpeza continua (Foto: Jonatan Soares)

Zona de arraste

Nas ruas do bairro Navegantes, os únicos sons são de pássaros e de alguns poucos carros que circulam pelo local. Antes, cerca de mil pessoas moravam naquele local, próximo ao centro de Arroio do Meio. Depois de dois anos, o interior de várias casas já está repleto de plantas e algumas ruas já deixaram de existir, cobertas por terra e escombros.

Nós ainda conseguimos limpar e voltar. Imagina quem não encontrou nem a casa?

Cladir Casotti
Comerciante de Arroio do Meio

Em determinado ponto, na Rua Lourenço Casotti, parte do que era uma igreja está cheia de rachaduras e ameaça ruir, também é possível ver um tronco de árvore no segundo andar do prédio. Na mesma rua, diversas casas possuem um “C” pintado em vermelho e uma placa que informa que as estruturas apresentam risco e foram condenadas. 

“A gente ainda permanece limpando, a área tem em torno de 37 hectares, toda a área dé arraste é muito grande”, explica Rodrigo Kreutz, secretário de Obras de Arroio do Meio. O município recebeu cerca de R$5 milhões para fazer a limpeza da área de arraste, porém, nem todos os terrenos foram cedidos pelos proprietários.

Coordenadora do departamento de Meio Ambiente, Leucádia Telöken Korb detalha os planos para o lugar, com a construção de um parque, com quadras esportivas e pistas de caminhada. “Vamos manter o relevo pensando na questão ambiental e na ideia de cidade esponja, de área de absorção, para conter um pouco essa água”, complementa. Porém, enquanto isso não acontece, algumas pessoas retornaram para suas casas no bairro Navegantes.

Foto colorida de Ivan Schauren. Ele é um homem branco, careca e com barba grisalha e está usando uma camiseta do Grêmio
Apesar do receio de novas enchentes, Ivan decidiu reconstruir a casa onde vive com a família no bairro Navegantes (Foto: Jonatan Soares)

Moradores voltaram

Ivan Shauren, 47 anos, trabalha como motorista de aplicativo em Arroio do Meio. Ele mora com a mãe, Nanina, a irmã Inês e o filho Enzo. Para diversificar as fontes de renda e aproveitar a localização de sua residência, na Rua Visconde do Rio Branco, Ivan abriu uma barbearia.

A casa em que vive com a família fica ao lado da sede da Aman. “Nunca pegou enchente no segundo piso, pegava um metro ou um metro e meio no primeiro. Em setembro, deu dois metros no segundo piso, a de novembro um metro. Depois, a outra acho que deu quase dois metros acima da casa”, relata Ivan.

Na época, o motorista de aplicativo chegou a ficar ilhado no telhado e teve de ser resgatado de barco. Por um tempo, Ivan morou com parentes e depois chegou a receber aluguel social. “Minha ideia era crescer aqui; tinha um barzinho aqui na esquina, era bastante movimentado. Hoje ainda atendo como barbeiro, mas parece um interior aqui. Não vê uma alma viva. É só se alguém agendar”, descreve.

Pergunto sobre o receio de novas enchentes, mas Ivan diz que não pretende sair e que não tem um plano B. Ele conta ter recebido muito apoio para a reconstrução da casa, principalmente de voluntários que vieram da Serra gaúcha. “Eles estavam passando e me viram sozinho, decidiram parar e ajudar”. O motorista de aplicativo destaca manter contato com os voluntários, a partir da amizade que se formou na solidariedade.

Outro morador que decidiu voltar foi Cladir Antônio Casotti, 72 anos, dono de um bar e mercado em outro ponto do bairro Navegantes. Com um jeito acolhedor, ele descreve o trabalho para limpar e retornar ao local onde vive há 35 anos, ao lado da esposa, Clenir.

“Nós ainda conseguimos limpar e voltar. Imagina quem não encontrou nem a casa?”, reflete Cladir, pouco antes de ficar com a voz embargada por conta das lembranças do desastre climático. Segundo ele, o local se sustenta graças a alguns clientes pontuais, porque o movimento diminui drasticamente.  

A decisão de voltar a morar ali mesmo com os riscos, tem a ver com os vínculos construídos ao longo dos anos. “Hoje, se acontecer, a gente já está um pouco mais alertado do risco”, pondera. Apesar disso, Cladir confessa a tensão que sente toda vez que começa a trovejar e chover por dias consecutivos. 

Foto colorida da parte externa de módulo habitacional construído no Bairro Medianeira, em Arroio do Meio
Famílias vivem há mais de um ano em módulos projetados para serem provisórios (Foto: Jonatan Soares)

Mais de um ano em moradias provisórias

Em dezembro de 2024, o governo do Rio Grande do Sul entregou 40 moradias provisórias em Arroio do Meio. São módulos habitacionais com apenas 27 metros quadrados, compostos por dormitório, sala e cozinha conjugadas. Vistas de fora, as unidades lembram um contêiner.

Ao chegar na área da Rua Campania, no bairro Medianeira – onde foram instalados os módulos – e conversar com as famílias é possível notar as consequências de passar tanto tempo em moradias provisórias. A desesperança e a indignação coexistem no sentimento das pessoas que residem nas unidades, algumas já deterioradas pelo tempo.

Uma das principais reclamações é com as condições térmicas, com o calor e o frio. Feitos com uma combinação de aço galvanizado e concreto, as unidades quase não possuem ventilação e os moradores não podem instalar ar-condicionado em seu interior. 

Os custos de energia elétrica e água são pagos pela prefeitura, porém, muitas famílias já enfrentam dificuldades socioeconômicas antes das enchentes. No caso de algumas pessoas idosas, é preciso dividir a renda escassa entre a compra de remédios e alimentos. Além disso, à medida que o tempo passa e as construções das casas definitivas não ficam prontas, crescem problemas de saúde mental e a falta de perspectivas para um futuro com mais dignidade.

Foto colorida que mostra o que antes foi uma rua e agora só aparecem escombros e terra
Ruas inteiras ficaram cheias de escombros e deixaram de existir, esse é caso da Travessa A. Schneider, em Arroio do Meio (Foto: Jonatan Soares)

Programas e infraestrutura

Segundo Rodrigo, a dificuldade de concluir a realocação das famílias afetadas pelas enchentes em Arroio do Meio está ligada a fatores estruturais. Ele menciona a burocracia que envolve os programas criados em 2023 e 2024, com regras, diretrizes e valores diferentes. 

“É uma demora impensável para elas (famílias). Eu acredito que muitas pessoas já devem pensar que essas casas não vão sair”, comenta o secretário. Atualmente, 111 famílias ainda recebem aluguel social e cerca de 16 estão em moradias provisórias, viabilizadas pelo programa “A Casa é Sua – Calamidade”, do governo estadual.

Arquiteta da prefeitura de Arroio do Meio, Júlia Brock explica que cerca de 170 pessoas já conseguiram novos lares pelo programa “Compra Assistida” e outras 189 pelo Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), modalidade especial do “Minha Casa Minha Vida”, ambas iniciativas do governo federal. 

Porém, a maioria das iniciativas federais contemplou pessoas mais afetadas pelas enchentes de 2024. Assim, cerca de 300 famílias atingidas nas cheias de 2023 seguem à espera, mesmo tendo sido inseridas em listas prioritárias pela prefeitura.

“A Defesa Civil fez um aporte financeiro para a construção, mas só levou em consideração a residência, não considerou o terreno, a localização ou a própria infraestrutura”, aponta Rodrigo, em relação aos recursos recebidos para construir novas moradias após as enchentes de 2023. 

A demanda das famílias – material e psicologicamente impactadas – também gera uma sobrecarga para os próprios funcionários da prefeitura. “A gente escuta de tudo, mostram fotos do que perderam. E tu te coloca no lugar do outro, porque todo mundo que está aqui também foi atingido. Aos poucos, o pessoal vai entendendo o processo, porque os planos às vezes são muito burocráticos”, desabafa Júlia.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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