Foto colorida de uma casa em escombros na área de arraste, no bairro Navegantes, em Arroio do Meio

Escombros de uma casa na área de arraste do bairro Navegantes, em Arroio do Meio; marcas das enchentes seguem presentes no Vale do Taquari (Foto: Jonatan Mancias Soares)

Vale do Taquari: refazer a vida em meio ao temor de novas enchentes

Vale do Taquari: refazer a vida em meio ao temor de novas enchentes

Por Micael Olegário ODS 13

Vínculos com os territórios levam moradores a permanecer, mas ecoansiedade e medo de novos desastres faz aumentar a insegurança nas cidades da região

Publicada em 30 de abril de 2026 - 01:30

Vale do Taquari (RS) – As previsões meteorológicas são um assunto constante e quase onipresente no cotidiano das pessoas no Vale do Taquari, interior do Rio Grande do Sul. A preocupação em como vai estar o tempo não tem haver apenas com a organização diária, com as condições para viajar ou produzir alimentos, mas com a possibilidade de novos desastres climáticos

“Você ouve as notícias e isso ajuda a apavorar um pouco”, pontua Vilmar Zílio, 70 anos, comerciante em Muçum, cidade três vezes destruída por enchentes em intervalo de cerca de 8 meses. Ele descreve o clima de insegurança na pequena cidade de aproximadamente 4 mil habitantes. O medo é provocado pelas previsões do retorno do fenômeno El Niño a partir de maio deste ano. 

Leu essas? Todas as reportagens da especial “Reconstrução no Vale do Taquari”

Em muitos casos, qualquer chuva acende um alerta e faz voltar a memória as enchentes de 2023 e 2024 que arrasaram as cidades do Vale do Taquari. “É muito tenso. De noite: você acorda com o tempo trovejando, com uma sequência de chuva, você já fica sempre tentando se manter informado”, conta Cladir Antônio Casotti, 72 anos, dono de um bar e mercado no bairro Navegantes, em Arroio do Meio.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

O fenômeno El Niño costuma aumentar a chance de eventos extremos de chuva na região Sul do Brasil, por conta da passagem de mais sistemas frontais e formação de ciclones extratropicais. Historicamente, esse aumento das chuvas sempre provocou cheias em diversos cursos d’água, como o Rio Taquari. Acontece que, no contexto de mudanças climáticas, os eventos extremos estão mais intensos e frequentes. 

O Rio Uruguai sempre foi uma fonte de inspiração, o Taquari também, só que ele deixou umas mágoas na gente. Mas a natureza é assim, toma seu espaço; nós que invadimos a área dele

Cladir Casotti
Comerciante
Professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutora em meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP), Simone Ferraz pondera, contudo, que apenas a chegada do El Niño não indica que o cenário de maio de 2024 vai se repetir. Na época, o final do fenômeno formou um combo com um bloqueio atmosférico e a passagem de diversos sistemas frontais, além da atmosfera e oceanos mais aquecidos.

“Em 2023 e 2024, tivemos tudo acontecendo ao mesmo tempo. Foi um baita azar: tínhamos um vórtice favorecendo a passagem de sistemas frontais e o bloqueio atmosférico no Pacífico que impedia os sistemas de subirem. Ter essa configuração novamente é difícil”, explica Simone. 

Existe ainda um outro fator: como as cidades estão ou não preparadas para esses eventos. “Previsões eficientes são essenciais, mas temos que nos perguntar como as cidades estão sendo preparadas para resistir a esse tipo de evento – que não vai ser o último”, complementa a professora da UFSM.

Segundo balanço divulgado pelo governo do Rio Grande do Sul na sexta-feira (24/04), já foram investidos R$ 14 bilhões em 227 projetos e ações de reconstrução, o que inclui a revisão de sistemas de proteção contra cheias e a destinação de recursos para criação de uma rede com 130 estações hidrometeorológicas.

Em termos de moradias, o governo afirma ter aprovado a construção de 2.723 unidades em 56 municípios, sendo que 625 unidades temporárias foram implementadas em dez cidades gaúchas. O balanço também menciona investimentos em sistemas de proteção contra cheias, principalmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, recuperação de rodovias, desassoreamento de rios e capacitação da Defesa Civil Estadual.

Foto colorida de terreno onde ficavam casas destruídas pelas enchentes em Arroio do Meio. No canto superior direito, aparece uma máquina trabalhando na remoção de escombros
Máquinas ainda trabalham na remoção de escombros das enchentes de 2024; bairro Navegantes, em Arroio do Meio (Foto: Jonatan Soares)

El Niño e o clima global

Simone destaca que ainda é cedo para prever a intensidade do El Niño ou para falar em um super fenômeno, como tem aparecido em muitas notícias e manchetes. Segundo ela, é bastante provável que a tendência de aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial continue, porém, a intensidade do fenômeno depende dessa elevação perdurar por vários meses.

Para além do El Niño, importa lembrar que o contexto de eventos extremos mais frequentes possui relação com o aquecimento da atmosfera global e dos oceanos. “Esse aquecimento anormal, tanto das águas quanto da atmosfera, faz com que a gente tenha um El Niño mais extremo ou chuvas mais fortes simplesmente com a passagem de um ciclone”, exemplifica a pesquisadora.

A gente vê inclusive nas crianças, como um disparador muitas vezes de cenários de ansiedade. É um sentimento que paira efetivamente na nossa sociedade

Luciana Turatti
Professora da Univates e da UFRGS

Simone chama atenção para o menor intervalo de tempo entre a ocorrência do El Niño. Antes, o fenômeno costumava ocorrer a cada 4 ou até 7 anos e, nos últimos anos, esse período caiu para 2 ou 3 anos. Outra variabilidade que também afeta a passagem de sistemas de chuva pelo Rio Grande do Sul é a oscilação Antártica, também impactada pelo contexto de degradação humana no planeta.

A professora da UFSM ressalta que o principal problema e objeto de preocupação são mesmo as emissões de gases de efeito estufa, o que favorece o caos dos sistemas de regulação do clima. “Sempre faço uma analogia com a panela de pressão: se você tá aquecendo a panela, ela libera o vapor para cima, só que vai chegar um ponto que aquela pressão não aguenta mais e estoura a válvula. O problema é que nós estamos nessa panela e continuamos jogando calor mesmo com a válvula já estourada”.

Foto colorida de escola abandonada após ser afetada pelas enchentes em Muçum
Prédio de antiga escola atingida pelas enchentes no centro de Muçum (Foto: Micael Olegário)

Ansiedade climática

“As pessoas começam a ligar apavoradas. Aquelas que ainda estão em casas em lugares em que a água chega estão apavoradas”, exemplifica Amarildo Baldasso, atual prefeito de Muçum. Após sofrer de forma visceral os impactos da crise climática, as cidades do Vale do Taquari procuram se adaptar e se preparar para a nova realidade.

Leu essa? Novos planos diretores e mapeamento de riscos: como está a reconstrução no Vale do Taquari

O termo ecoansiedade ou ansiedade climática tem se popularizado nos últimos anos, devido ao agravamento da crise climática em nível global. Em geral, esse sentimento está ligado à incerteza em relação ao presente e ao futuro, em meio ao clima extremo em diferentes regiões e locais, consequência das ações extrativistas e destrutivas de parte da humanidade.

Estudo feito por pesquisadores da Universidade de Santa Cruz (Unisc) identificou que as pessoas das regiões do Vale do Taquari e do Vale do Rio Pardo associam termos como “eventos extremos e água”, “calor e aquecimento global” à emoções negativas e destruição. A pesquisa ouviu 389 moradores de 11 municípios, entre setembro de 2025 e fevereiro deste ano. Para essas pessoas, as doenças mentais e o assoreamento dos Rios estão entre as principais consequências das enchentes.

Mais da metade dos entrevistados e das entrevistadas (90%) percebe o vínculo dos desastres recentes com as mudanças climáticas e 54% vê forte relação. Além disso, 80% acreditam que novas enchentes como as de 2024 acontecerão em breve ou nas próximas décadas, apenas 10% acham que irá demorar muito para ocorrer novamente. Os dados ainda revelam que 48,6% têm dúvidas quanto a um retorno à normalidade.

“A gente vê inclusive nas crianças, como um disparador muitas vezes de cenários de ansiedade. É um sentimento que paira efetivamente na nossa sociedade”, afirma a Luciana Turatti, professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ela, palavras típicas do universo da meteorologia – como ciclone – passaram a fazer parte do cotidiano dos moradores da região. 

Foto colorida de Cladir e Clenir Casotti, em sua residência em Arroio do Meio. Eles estão sentados e olham para a câmera
Cladir e Clenir Casotti decidiram retomar mercado, mesmo em área próxima ao Rio Taquari (Foto: Jonatan Soares)

Vínculo material e afetivo

Diante da sensação de incerteza, o que faz os moradores do Vale do Taquari apostarem em um recomeço na região? As razões para isso passam por elementos simples, como questões econômicas e financeiras, afinal, parte das pessoas mais afetadas fazem parte de grupos com menor renda. Mas a dimensão material não explica tudo.

“Muçum é um bom local para viver. A gente não precisa pensar só em dinheiro e dá para trabalhar fora. Muçum é quase um bairro, temos que investir em turismo, ter uma cidade bonita, segura, boa saúde e gestão pública, para ficar bom de morar”, defende Leonardo Bastiani, 59 anos. Ele destaca que as distâncias entre os municípios do Vale do Taquari são curtas, entre 30 minutos à 1 hora, o que possibilita morar em um local e trabalhar em outro.

Para quem nasceu e cresceu em um local, abandoná-lo não é uma decisão fácil. Existe um vínculo afetivo que permanece mesmo depois de eventos extremos. Morando em uma área classificada dentro da zona de arraste, Cladir Casotti reconhece o risco de novas enchentes, mas busca estar alerta e preparado para subir tudo para o segundo piso ou sair. 

Ao relembrar do período em que morou em São Borja perto de outro Rio, o Uruguai, Cladir reconhece que a culpa não é da chuva ou dos cursos de água.  O Rio sempre foi uma fonte de inspiração, o Taquari também, só que ele deixou umas mágoas na gente. Mas a natureza é assim, toma seu espaço; nós que invadimos a área dele”.

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *