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Escombros de uma casa na área de arraste do bairro Navegantes, em Arroio do Meio; marcas das enchentes seguem presentes no Vale do Taquari (Foto: Jonatan Mancias Soares)
Vale do Taquari: refazer a vida em meio ao temor de novas enchentes
Vínculos com os territórios levam moradores a permanecer, mas ecoansiedade e medo de novos desastres faz aumentar a insegurança nas cidades da região
Vale do Taquari (RS) – As previsões meteorológicas são um assunto constante e quase onipresente no cotidiano das pessoas no Vale do Taquari, interior do Rio Grande do Sul. A preocupação em como vai estar o tempo não tem haver apenas com a organização diária, com as condições para viajar ou produzir alimentos, mas com a possibilidade de novos desastres climáticos.
“Você ouve as notícias e isso ajuda a apavorar um pouco”, pontua Vilmar Zílio, 70 anos, comerciante em Muçum, cidade três vezes destruída por enchentes em intervalo de cerca de 8 meses. Ele descreve o clima de insegurança na pequena cidade de aproximadamente 4 mil habitantes. O medo é provocado pelas previsões do retorno do fenômeno El Niño a partir de maio deste ano.
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Em muitos casos, qualquer chuva acende um alerta e faz voltar a memória as enchentes de 2023 e 2024 que arrasaram as cidades do Vale do Taquari. “É muito tenso. De noite: você acorda com o tempo trovejando, com uma sequência de chuva, você já fica sempre tentando se manter informado”, conta Cladir Antônio Casotti, 72 anos, dono de um bar e mercado no bairro Navegantes, em Arroio do Meio.
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Veja o que já enviamosO fenômeno El Niño costuma aumentar a chance de eventos extremos de chuva na região Sul do Brasil, por conta da passagem de mais sistemas frontais e formação de ciclones extratropicais. Historicamente, esse aumento das chuvas sempre provocou cheias em diversos cursos d’água, como o Rio Taquari. Acontece que, no contexto de mudanças climáticas, os eventos extremos estão mais intensos e frequentes.
O Rio Uruguai sempre foi uma fonte de inspiração, o Taquari também, só que ele deixou umas mágoas na gente. Mas a natureza é assim, toma seu espaço; nós que invadimos a área dele
Professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutora em meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP), Simone Ferraz pondera, contudo, que apenas a chegada do El Niño não indica que o cenário de maio de 2024 vai se repetir. Na época, o final do fenômeno formou um combo com um bloqueio atmosférico e a passagem de diversos sistemas frontais, além da atmosfera e oceanos mais aquecidos.
“Em 2023 e 2024, tivemos tudo acontecendo ao mesmo tempo. Foi um baita azar: tínhamos um vórtice favorecendo a passagem de sistemas frontais e o bloqueio atmosférico no Pacífico que impedia os sistemas de subirem. Ter essa configuração novamente é difícil”, explica Simone.
Existe ainda um outro fator: como as cidades estão ou não preparadas para esses eventos. “Previsões eficientes são essenciais, mas temos que nos perguntar como as cidades estão sendo preparadas para resistir a esse tipo de evento – que não vai ser o último”, complementa a professora da UFSM.
Segundo balanço divulgado pelo governo do Rio Grande do Sul na sexta-feira (24/04), já foram investidos R$ 14 bilhões em 227 projetos e ações de reconstrução, o que inclui a revisão de sistemas de proteção contra cheias e a destinação de recursos para criação de uma rede com 130 estações hidrometeorológicas.
Em termos de moradias, o governo afirma ter aprovado a construção de 2.723 unidades em 56 municípios, sendo que 625 unidades temporárias foram implementadas em dez cidades gaúchas. O balanço também menciona investimentos em sistemas de proteção contra cheias, principalmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, recuperação de rodovias, desassoreamento de rios e capacitação da Defesa Civil Estadual.


El Niño e o clima global
Simone destaca que ainda é cedo para prever a intensidade do El Niño ou para falar em um super fenômeno, como tem aparecido em muitas notícias e manchetes. Segundo ela, é bastante provável que a tendência de aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial continue, porém, a intensidade do fenômeno depende dessa elevação perdurar por vários meses.
Para além do El Niño, importa lembrar que o contexto de eventos extremos mais frequentes possui relação com o aquecimento da atmosfera global e dos oceanos. “Esse aquecimento anormal, tanto das águas quanto da atmosfera, faz com que a gente tenha um El Niño mais extremo ou chuvas mais fortes simplesmente com a passagem de um ciclone”, exemplifica a pesquisadora.
A gente vê inclusive nas crianças, como um disparador muitas vezes de cenários de ansiedade. É um sentimento que paira efetivamente na nossa sociedade
Simone chama atenção para o menor intervalo de tempo entre a ocorrência do El Niño. Antes, o fenômeno costumava ocorrer a cada 4 ou até 7 anos e, nos últimos anos, esse período caiu para 2 ou 3 anos. Outra variabilidade que também afeta a passagem de sistemas de chuva pelo Rio Grande do Sul é a oscilação Antártica, também impactada pelo contexto de degradação humana no planeta.
A professora da UFSM ressalta que o principal problema e objeto de preocupação são mesmo as emissões de gases de efeito estufa, o que favorece o caos dos sistemas de regulação do clima. “Sempre faço uma analogia com a panela de pressão: se você tá aquecendo a panela, ela libera o vapor para cima, só que vai chegar um ponto que aquela pressão não aguenta mais e estoura a válvula. O problema é que nós estamos nessa panela e continuamos jogando calor mesmo com a válvula já estourada”.


Ansiedade climática
“As pessoas começam a ligar apavoradas. Aquelas que ainda estão em casas em lugares em que a água chega estão apavoradas”, exemplifica Amarildo Baldasso, atual prefeito de Muçum. Após sofrer de forma visceral os impactos da crise climática, as cidades do Vale do Taquari procuram se adaptar e se preparar para a nova realidade.
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O termo ecoansiedade ou ansiedade climática tem se popularizado nos últimos anos, devido ao agravamento da crise climática em nível global. Em geral, esse sentimento está ligado à incerteza em relação ao presente e ao futuro, em meio ao clima extremo em diferentes regiões e locais, consequência das ações extrativistas e destrutivas de parte da humanidade.
Estudo feito por pesquisadores da Universidade de Santa Cruz (Unisc) identificou que as pessoas das regiões do Vale do Taquari e do Vale do Rio Pardo associam termos como “eventos extremos e água”, “calor e aquecimento global” à emoções negativas e destruição. A pesquisa ouviu 389 moradores de 11 municípios, entre setembro de 2025 e fevereiro deste ano. Para essas pessoas, as doenças mentais e o assoreamento dos Rios estão entre as principais consequências das enchentes.
Mais da metade dos entrevistados e das entrevistadas (90%) percebe o vínculo dos desastres recentes com as mudanças climáticas e 54% vê forte relação. Além disso, 80% acreditam que novas enchentes como as de 2024 acontecerão em breve ou nas próximas décadas, apenas 10% acham que irá demorar muito para ocorrer novamente. Os dados ainda revelam que 48,6% têm dúvidas quanto a um retorno à normalidade.
“A gente vê inclusive nas crianças, como um disparador muitas vezes de cenários de ansiedade. É um sentimento que paira efetivamente na nossa sociedade”, afirma a Luciana Turatti, professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ela, palavras típicas do universo da meteorologia – como ciclone – passaram a fazer parte do cotidiano dos moradores da região.


Vínculo material e afetivo
Diante da sensação de incerteza, o que faz os moradores do Vale do Taquari apostarem em um recomeço na região? As razões para isso passam por elementos simples, como questões econômicas e financeiras, afinal, parte das pessoas mais afetadas fazem parte de grupos com menor renda. Mas a dimensão material não explica tudo.
“Muçum é um bom local para viver. A gente não precisa pensar só em dinheiro e dá para trabalhar fora. Muçum é quase um bairro, temos que investir em turismo, ter uma cidade bonita, segura, boa saúde e gestão pública, para ficar bom de morar”, defende Leonardo Bastiani, 59 anos. Ele destaca que as distâncias entre os municípios do Vale do Taquari são curtas, entre 30 minutos à 1 hora, o que possibilita morar em um local e trabalhar em outro.
Para quem nasceu e cresceu em um local, abandoná-lo não é uma decisão fácil. Existe um vínculo afetivo que permanece mesmo depois de eventos extremos. Morando em uma área classificada dentro da zona de arraste, Cladir Casotti reconhece o risco de novas enchentes, mas busca estar alerta e preparado para subir tudo para o segundo piso ou sair.
Ao relembrar do período em que morou em São Borja perto de outro Rio, o Uruguai, Cladir reconhece que a culpa não é da chuva ou dos cursos de água. “O Rio sempre foi uma fonte de inspiração, o Taquari também, só que ele deixou umas mágoas na gente. Mas a natureza é assim, toma seu espaço; nós que invadimos a área dele”.
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.








































