Moradores de Macapá esperam por caminhão-pipa durante o apagão: falta de energia por mais de 20 dias comprometeu o funcionamento das unidades de saúde rm plena pandemia e o abastecimento de água, fundamental para as medidas preventivas contra o vírus da covid-19 (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)

Moradores de Macapá esperam por caminhão-pipa durante o apagão: falta de energia por mais de 20 dias comprometeu o funcionamento das unidades de saúde rm plena pandemia e o abastecimento de água, fundamental para as medidas preventivas contra o vírus da covid-19 (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 07/11/2020)

Apagão no Amapá: saúde pública na escuridão em plena pandemia

Apagão no Amapá: saúde pública na escuridão em plena pandemia

Por Clarice Candido ODS 10ODS 7

Falta de energia por mais de 20 dias comprometeu o funcionamento pleno das unidades de saúde, o abastecimento de água e a comunicação

Publicada em 16 de junho de 2026 - 01:39

Todos os dias pareciam os mesmos para a epidemiologista Sonja Leite. Ela trabalhava na área da saúde há mais de 30 anos, dedicando-se ao serviço público desde o começo da formação. Ela tinha uma vida simples, mas feliz. Suas filhas já estavam crescidas e a vida, apesar do desassossego de uma rotina de hospital, parecia tranquila. ​Tudo isso foi por água abaixo quando a pandemia chegou.

Quase que da noite para o dia, todos os comércios fecharam, as escolas ficaram sem aula, mas hospitais, lotados. O surto do coronavírus foi um baque para todos, mas para quem trabalha com saúde foi pior. Sonja, com amor à profissão, encarou o problema de frente. Eram dias de trabalho árduos, praticamente sem comer, sem beber, e com a mente que só se ocupava com pensamentos sobre a pandemia. “Tu ter que continuar com a tua rotina, quando a orientação era se isolar e ao mesmo tempo estar diante de uma pessoa doente com algo que tu não conhece é desesperador”, afirmou Sonja.

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O que não estava fácil piorou: quase todo o estado do Amapá ficou sem luz. Dos 16 municípios, 13 ficaram sem acesso a energia elétrica. No primeiro momento, Sonja pensou que aquilo passaria. Afinal, os picos de energia e a falta de luz eram comuns na rotina dos amapaenses, ainda mais quando chovia, exatamente como aconteceu naquela noite. A luz, porém, não voltou. Foram dias assim: a população viveu sem resposta e aos poucos foram se desesperando.

Uma das principais medidas de controle e cuidado era a higienização das mãos e não havia água na cidade. Os hospitais, os serviços públicos, tinham energia porque possuíam geradores, mas o resto da cidade não tinha

Sonja Leite
Médica epidemiologista

Mas, com o tempo, trabalhar no hospital durante pandemia e blecaute simultâneos acabou ganhando uma rotina: ela chegava com seus equipamentos de proteção individual já completamente esterilizados, para evitar contaminação, e já se concentrava para encarar o plantão. “Eu lembro que eu saía de casa, mas antes tomava uma água e ia no banheiro para esvaziar a bexiga. Quando eu chegava no hospital, depois de colocar a luva, o jaleco, o capote, e tudo mais, eu não tomava mais água até o final do dia. Nós entrávamos de manhã e saíamos no final da tarde”, relembra Sonja.

​O que em si já era grave durante a pandemia se transformou numa calamidade generalizada. Com a falta de energia, o abastecimento de água foi prejudicado pelo estado afora. Sem luz, a Companhia de Águas e Esgoto do Amapá (Caesa) não podia acionar as bombas de captação, e a distribuição foi interrompida. A população, em meio à crise de covid-19, não tinha água para se lavar nem para beber.

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Segundo a designer Dayanne Farias, a população na época precisava tomar banho na orla do Rio Amazonas e beber água contaminada. “As pessoas levavam bebês, crianças, ainda não vacinados, para se banhar. A gente sabe que hoje em dia aquela parte do Rio Amazonas não é mais própria para banho, porque infelizmente o esgoto da cidade vai todo para lá”, afirmou.

Atualmente, quando se caminha pela orla do Rio Amazonas, na cidade de Macapá, é possível localizar tubos em que são despejados litros de esgoto todos os dias. O local fica ao lado da Concessionária de Saneamento do Amapá (CSA). “Eu trabalho em hospital, mas não gosto de dizer que trabalho com doença. Eu trabalho buscando saúde. A intenção é evitar que as pessoas adoeçam, mas sem que as necessidades básicas sejam garantidas, isso se torna quase impossível. Como prevenir doenças diarreicas onde não há sistema de esgoto? Onde não existe um tratamento de água com qualidade e distribuição para toda a população? É uma incoerência. A saúde de qualquer ser humano depende dessas condições mínimas e é dever do poder público garanti-las”, declara Sonja.

​No fim dos plantões, quando parecia que Sonja poderia descansar, a epidemiologista não podia ao menos fazer a higiene para se livrar de possíveis contaminações. “Por muitas vezes eu não conseguia tomar um banho. Chegava, dormia, no calor, com carapanãs [pernilongos], e de manhã tinha que vir trabalhar. E não podia dizer ‘não vou’”, lamenta.

​O sistema de saúde do Amapá foi sufocado durante o período, devido à soma da pandemia com o apagão. Fora dos hospitais, o cenário não era diferente. A população vivia sem notícias, sem telefonia e sem respostas do poder público. O caso da assistente social Priscilla Mendes foi particularmente delicado. Grávida de seis meses de sua primogênita, Clarice, ela tinha medo de ser contaminada pela doença. “Claro, não foi bom para ninguém. Mas eu senti bem mais: com a bebê chutando toda hora. Foi bem tenso: a barriga já estava enorme”, afirma.

“Tive os cuidados do pré-natal, mas foi um caos ir para o hospital porque não havia energia, apesar dos geradores. Mas era bem ruim: a energia faltou, a água faltava, até gasolina estava em falta. Era um caos”, relembra.

A médica epidemiologista Sonja Leite recorda o drama de enfrentar a pandemia durante o apagão com precárias condições sanitárias: "Como prevenir doenças diarreicas onde não há sistema de esgoto? Onde não existe um tratamento de água com qualidade e distribuição para toda a população?" (Foto: Ricardo Beda)
A médica epidemiologista Sonja Leite recorda o drama de enfrentar a pandemia durante o apagão com precárias condições sanitárias: “Como prevenir doenças diarreicas onde não há sistema de esgoto? Onde não existe um tratamento de água com qualidade e distribuição para toda a população?” (Foto: Ricardo Beda)

Pandemia com apagão: colapso sanitário

A crise vivida no Amapá não foi um episódio isolado vivido no Norte na época da pandemia. Enquanto os amapaenses enfrentavam o apagão em meio à pandemia, estados vizinhos também viviam colapsos graves em seus sistemas de saúde, revelando a fragilidade estrutural que atravessa a Amazônia brasileira. O caso mais extremo ocorreu no Amazonas, onde, em janeiro de 2021, hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio medicinal, levando pacientes internados com covid-19 a morrerem por asfixia.

Sem produção local suficiente e com dificuldades de transporte aéreo e fluvial, o abastecimento não chegou a tempo. Enquanto famílias passaram a buscar cilindros por conta própria, hospitais improvisaram soluções emergenciais e profissionais de saúde assistiram de perto à morte de pacientes que poderiam ter sido salvos. Assim como no Amapá, o colapso foi para além de sanitário: foi logístico e político.

Segundo uma apuração feita na época pelo Ministério Público, mais de 500 pacientes precisaram ser transportados para unidades de atendimento em outros estados e foi registrado mais de 60 mortes devido ao ocorrido.

A gente tinha todas aquelas medidas restritivas, mas quando você não tem condições de ter como comer, de ter água para beber, você não vai se preocupar em passar álcool em gel e nem em manter um distanciamento. As pessoas não usavam máscara, porque não tinha como. Elas estavam três dias sem tomar banho, ninguém queria usar máscara ou passar álcool em gel

Dayanne Farias
Designer em Macapá

Embora os contextos fossem distintos, as crises dialogam entre si. No Amapá, a falta de energia comprometeu o funcionamento pleno das unidades de saúde, o abastecimento de água e a comunicação. No Amazonas, a escassez de oxigênio revelou o despreparo do sistema para lidar com uma emergência prolongada. Em ambos os casos, a pandemia escancarou desigualdades históricas e a dependência de estruturas frágeis para garantir direitos básicos à população nortista.

Para a estudante Andreia Tavares, da Unifap, o medo e o luto andaram juntos. Após perder o pai para a covid-19 em outubro de 2020, a universitária teve que lidar com a situação sem saber exatamente o que estava acontecendo. “Foi um momento muito angustiante. Eu senti como se as coisas estivessem me sufocando. Principalmente à noite, porque ficava muito quente e a gente não tinha muito o que fazer, só suportar até o dia”, lembra.

De acordo com o boletim oficial de novembro de 2020 do Governo do Estado do Amapá, até o dia 21 daquele mês, pouco mais de duas semanas após o início do blecaute, o estado já somava 56 mil casos confirmados e 789 mortes por covid-19. Naquela semana, foram 1,4 mil novos registros e 12 óbitos, o que mostra que, mesmo com a energia parcialmente restabelecida, a crise sanitária ainda se agravava.

À ONG Repórter Brasil, a Companhia de Eletricidade do Amapá afirmou que “desde os primeiros dias de apagão a empresa realizou manobras para atender os circuitos onde estão localizados hospitais, maternidade, centros de tratamento a pacientes com Covid-19 e Unidades de Pronto Atendimento com energia 24 horas”.

Entre as muitas perdas do período, Andreia também perdeu um primo próximo para a covid-19. “Acho que uma das memórias mais marcantes era que a única luz que eu vi durante a noite foi a do carro funerário trazendo ele, no escuro”, conta Andreia.

Para Sonja, a pandemia se agravou devido ao fato de a medicina até então desconhecer o comportamento do vírus, de onde ele veio e como atua no corpo. “Agora imagine fazendo tudo isso num apagão, sendo que uma das principais medidas de controle e cuidado era a higienização das mãos e não havia água na cidade. Os hospitais, os serviços públicos, tinham energia porque possuíam geradores, mas o resto da cidade não tinha”.

​A médica conta que contraiu o vírus duas vezes durante a pandemia. Por sorte, não teve grandes complicações ou sequelas porque já estava vacinada. Segundo ela, se não fosse pelos altos cuidados que teve na época, certamente o cenário teria sido diferente. Quando finalmente acabava o turno do hospital, ia direto para a sala de higienização, onde limpava todos os equipamentos com água sanitária antes mesmo de sequer sair do local. Já em casa, Sonja fazia questão de limpar até o pneu do próprio carro, com água do rio, para não correr riscos de contaminação.

Para Sonja, o começo da vacinação foi um grande alívio. “Não podíamos deixar de trabalhar porque as pessoas no hospital dependiam do meu estudo, do meu trabalho para continuar sobrevivendo ou para ter ao menos uma oportunidade”, reflete Sonja.

Pessoas aglomeradas e sem máscara durante protesto contra o apagão no Amapá em 2020: calor e falta de luz afetaram cuidados preventivos na pandemia (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real - 08/11/2020)
Pessoas aglomeradas e sem máscara durante protesto contra o apagão no Amapá em 2020: calor e falta de luz afetaram cuidados preventivos na pandemia (Foto: Rudja Santos / Amazônia Real – 08/11/2020)

Dias de desespero no escuro

A vacinação contra a covid-19 começou no Amapá em janeiro de 2021, quando o Brasil estava recebendo as primeiras doses. O primeiro lote, que tinha 31 mil doses de CoronaVac, do Instituto Butantan, trouxe esperança para a população. Os primeiros grupos vacinados no estado foram os prioritários: os profissionais da saúde, idosos acima de 60 anos e indígenas. Desses, 15 mil doses foram reservadas para profissionais da saúde que estavam na linha de frente.

Com o tempo, as pessoas foram se vacinando, mas até o período do blecaute a população ainda vivia sem vacina. “A gente tinha todas aquelas medidas restritivas, mas quando você não tem condições de ter como comer, de ter água para beber, você não vai se preocupar em passar álcool em gel e nem em manter um distanciamento. As pessoas não usavam máscara, porque não tinha como. Elas estavam três dias sem tomar banho, ninguém queria usar máscara ou passar álcool em gel”, afirma Dayanne.

​Na época, foi necessário montar leitos de UTI em tendas e locais improvisados espalhados pelo estado a fim de tratar pacientes. O hospital universitário da Unifap teve um papel extremamente relevante, já que era o local para onde casos mais delicados eram encaminhados.

“Eu nunca vou esquecer de uma conversa que eu tive com a minha mãe num desses dias. Ela tinha mencionado que tinha ido para o hospital e não tinha conseguido se higienizar. Quando chegou em casa não tinha água. Estávamos sem água na geladeira e as prateleiras do supermercado estavam vazias. Ela rodou por vários mercados para procurar uma mísera garrafa de 500 ml. Quando ela chegou, ela falou para mim, aos prantos: ‘minha filha, nunca na minha vida eu achei que fosse chorar de sede”, lamenta a designer.​

​Foi apenas em maio de 2023 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o fim da emergência em saúde pública pela covid-19, devido à redução de casos confirmados da doença. Ainda assim, aquela época deixou marcas nos profissionais de saúde do estado, pelo caos vivido. “A pandemia já foi um impacto muito grande, foi algo que mudou toda a nossa perspectiva, toda nossa experiência que tínhamos diante de todas as doenças que já conhecíamos. Foi uma experiência ímpar e eu espero que continue sendo”, espera Sonja.

A epidemiologista diz que, devido às dificuldades vividas pelos profissionais da saúde, muitos deles acabaram adoecendo para além da covid-19, mas no campo emocional. Ela conta que no começo não imaginava que fosse se desestabilizar, mas, quando os casos da doença deram uma amenizada, ela precisou se afastar durante 90 dias para tentar se recuperar dos traumas e dos desafios do período. A médica precisou se isolar de familiares e amigos para que não houvesse um risco de contaminação, uma das partes mais difíceis do momento. Afinal, a solidão foi também uma consequência dessa crise para algumas pessoas.

Agora o que fica com Sonja é muito aprendizado e um reconhecimento da importância da eletricidade na rotina e na sobrevivência. “Hoje se nós tivéssemos um blecaute total, mundial, tudo ia parar, tudo. Porque se a gente bem pensar tudo depende de energia elétrica. Então, hoje o que mudou foi em termos da nossa consciência mesmo, além da gente reconhecer a importância da energia, de preservar a questão de tudo que gera essa energia.”

“Depois de tudo isso, eu passei a valorizar muito mais o contato, a família, as memórias que a gente cria. A gente deixa de se preocupar tanto em ter e começa a dar mais valor às pessoas, aos momentos. Foi um aprendizado para a vida inteira. E, acima de tudo, aprendi que toda vida importa, toda vida. Porque um paciente é sempre o amor da vida de alguém. A gente só dá importância a algo quando falta, aí damos valor para aquilo”, conclui a médica.

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Clarice Candido

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Clarice trabalhou nos jornais “O Dia” e “Meia Hora” e atua no setor de energia. Tem interesse em temas ligados a meio ambiente, mudanças climáticas, Amazônia, direitos humanos e transição energética. Ganhou o prêmio Expocom na categoria Reportagem Longform com “Entre o apagão e o apagamento”, republicada agora pelo #Colabora, em novo formato

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