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A água e a mulher no Brasil

Mais de 15 milhões de brasileiras ainda não recebem água tratada em suas casas


Mulheres carregam os baldes com água na cabeça durante um período de seca na favela de Paraisópolis, em São Paulo. Foto Maurício Lima/AFP
Mulheres carregam os baldes com água na cabeça durante um período de seca na favela de Paraisópolis, em São Paulo. Foto Maurício Lima/AFP

O que conecta desigualdade de gênero à falta de saneamento básico?

Qual é a causa e qual é a consequência?

O debate em torno da questão da igualdade de gênero foi o mote de evento promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) em São Paulo no último dia 8 de março, por ocasião da celebração do Dia Internacional da Mulher.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, em 2016, uma mulher residindo em uma moradia sem banheiro teve rendimento 61,3% inferior ao de uma mulher morando em habitação com este item básico

Não seria errado repetir o mesmo evento no dia 22 de março, Dia Mundial da Água, após a CEO da BRK Ambiental, Teresa Vernaglia, apresentar no evento recente estudo realizado pela empresa, que compila dados da ONU, do IBGE, do MEC e de outras fontes para chegar à conclusão de que, sim, a falta de saneamento básico e de acesso à água potável podem estar entre as causas e não somente entre as consequências da imensa desigualdade, ou melhor, da falta de equidade entre homens e mulheres no mundo corporativo contemporâneo.

A 33ª Sessão da Assembleia Geral do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em 2016, tratou exatamente disso, mas o recorte da BRK aproxima mais os dados da realidade brasileira. Tomando, primeiramente, o aspecto conceitual da pesquisa, a relação direta entre a água e a mulher inclui tanto as necessidades práticas, o cuidado com a higiene menstrual, quanto os costumes e os estereótipos entre os gêneros, já que devido ao papel desempenhado pela mulher nas atividades domésticas é fato que elas desempenham trabalhos não remunerados três vezes mais do que os homens o fazem. Um exemplo é que sempre cabe às mulheres carregar a lata d’água na cabeça para abastecer a família quando a fonte fica distante de uma torneira.

Ou ainda, é a mulher que, como cuidadora dos próprios filhos ou dos filhos de outrem, é mais afetada por estar em contato físico direto com a água contaminada e com dejetos humanos quando a infraestrutura de saneamento é inadequada. O mesmo ocorre na função que elas têm de cuidar dos membros da família que adoecem como resultado da inadequação do acesso à água, ao esgotamento sanitário e à higiene.

O estudo mostra que hoje, beirando a terceira década do século XXI, ainda temos uma imensa quantidade de brasileiras vivendo no século XIX, sem banheiro em casa. Pior que isso, são mais de 15 milhões de brasileiras que ainda não recebem água tratada em suas residências, ou seja, uma em cada sete mulheres brasileiras.

Os efeitos diretos da falta de acesso a condições adequadas de água e esgoto podem ser constatados não somente na saúde (8 milhões de casos de afastamento de mulheres por diarreia ou vômito em 2013, segundo a Pesquisa Nacional da Saúde, dos quais 8 mil casos foram de óbito); mas também nas finanças dessas mulheres (uma mulher residindo em uma moradia sem banheiro tem rendimento 61,3% inferior à de uma mulher morando em habitação com banheiro, segundo a PNAD em 2016).

Mulheres protestam contra a falta de água em São Paulo. Foto Miguel Schincariol/AFP
Mulheres protestam contra a falta de água em São Paulo. Foto Miguel Schincariol/AFP

Também no nível de escolaridade esse impacto é observado. Do total de jovens que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio, 2,42 milhões eram mulheres (56,8% do total) e 1,84 milhão eram homens (43,2%). A mulheres tiveram média 8,9 pontos inferior à dos jovens da população masculina, mas quando o recorte considera as mulheres de classe mais elevada, ou seja, com acesso a água e esgoto, o rendimento das mulheres é melhor. Esse indicador cruel acaba afetando a formação profissional e prejudicando todo o futuro dessas jovens.

Já se passaram três anos desde que a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu o acesso à água e ao saneamento básico como um direito universal, dentro dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os 17 ODS deveriam ser a bússola para as ações governamentais, empresariais e, por que não, individuais, rumo ao desenvolvimento sustentável, já que temos até 2030 para cumprir com as metas estabelecidas nos ODS.

Estudos como este, desenvolvido pela BRK, deixam bastante claros os fundamentos para a urgência da adoção de uma política pública mais objetiva, de acesso ao saneamento básico que poderia tirar mais de 630 mil mulheres da linha da pobreza (segundo o próprio estudo aponta). Mas também ajudam ao mensurar o tamanho do problema para mais da metade de população brasileira, mostrando os impactos econômicos e sociais para uma nação que insiste em não enfrentar a questão de uma vez por todas.

Demonstrar a importância econômica e os impactos positivos (para a saúde, a educação e outros) de se ampliar o acesso ao saneamento básico, e de que forma isso contribuiria para a redução da desigualdade social nunca foi tão urgente. Não é uma tarefa apenas para governos, mas exige a união de esforços entre a iniciativa privada e o poder público. Exige também a conscientização do indivíduo não só sobre o uso eficiente da água, mas também sobre a compreensão clara em torno da interconexão da água e seus impactos em todas as esferas da vida em sociedade, seja na formação profissional, na saúde das crianças e nos negócios de um modo geral.

A universalização do saneamento básico traria um acréscimo médio de R$ 321,03 ao longo de um ano para cada uma das brasileiras, o que significa um ganho de R$ 12 bilhões ao ano na renda dessas mulheres. É um dinheiro que hoje está se esvaindo pelo ralo.


Escrito por Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

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