Ex-diretor do Museu Nacional: museus precisam dialogar com a sociedade

À frente da reconstrução da instituição após incêndio por oito anos, Alexander Kellner defende criação do Dia de Reflexão sobre Coleções Científicas, Históricas e Culturais

Por Marina Cohen | ODS 4
Publicada em 5 de março de 2026 - 09:38  -  Atualizada em 5 de março de 2026 - 09:53
Tempo de leitura: 17 min

O paleontólogo Alexander Fellner em ao Museu Nacional: Eu gostaria de dar a possibilidade que as pessoas digam o que gostariam de ver no museu” (Foto: Chico Ferreira / Divulgação)

Passaram-se oito anos desde que o paleontólogo Alexander Kellner assumiu o posto de diretor do Museu Nacional – UFRJ, a instituição de pesquisa e guarda da memória mais antiga do país. Seis meses depois da posse, um enorme incêndio destruiu 85% da coleção de 20 milhões de itens. Naquele ano de 2018, o museu abrigado no Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, celebrava o seu bicentenário.

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Aquele seria um ano com um calendário comemorativo vasto, com eventos acadêmicos e culturais, exposições de grande porte, modernização dos laboratórios de pesquisa, e até uma homenagem da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que apresentou na Marquês de Sapucaí um desfile sobre os 200 anos do museu. À época, já constavam nos planos atividades de restauração e atualização da estrutura física. Problemas graves nas redes elétrica e hidráulica do edifício-sede preocupavam a gestão de Kellner assim como haviam preocupado gestores anteriores. Assim que entrou no cargo, em uma entrevista ao jornal O Globo alertou: “só temos verba para medidas paliativas”. 

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Após quase uma década dedicada a liderar o grupo que tenta reerguer a instituição, Kellner deixa o cargo e passa o bastão a uma nova gestão, composta pelo diretor Ronaldo Fernandes e a vice-diretora Juliana Sayão. “Inicia-se um novo ciclo de evolução da reconstrução e das atividades de ensino, pesquisa e extensão”, publicou a nova diretoria nas redes sociais do museu.

Ao #Colabora, Kellner conta que, finalmente, poderá viver o luto pelas perdas na instituição onde trabalha desde 1997. Uma das maneiras que encontrou de processar a jornada é escrevendo um romance baseado nos bastidores do trabalho de reconstrução. A obra trará aventuras para conseguir peças para a nova coleção, tratativas com os governos federais em mais de uma gestão partidária, entre outras histórias.

O museu também tem culpa pela sua tragédia. É o maior culpado? Não. Mas tem a sua responsabilidade. Ele falhou no seu trabalho de estabelecer um diálogo mais efetivo com a sociedade que pudesse atuar na guarda da memória confiada à instituição.

Alexander Kellner
Paleontólogo e ex-diretor do Museu Nacional (2018/2026)

O trágico evento da noite do dia 2 de setembro fez com que o diretor tivesse que jogar fora todos os seus planos, estratégicos e pessoais. “Eu tinha que pensar na sobrevivência institucional”, lembra Kellner, que confiou em uma equipe de mais de 200 servidores obstinados: “Não reconstruir o museu não era uma opção. E as pessoas lutaram por isso. Ninguém ficou me esperando para saber o que tinha que fazer. As áreas já vieram me falando: eu preciso disso, preciso daquilo. Mesmo no modo de sobrevivência, você precisa ter planejamento”. 

Em meio a batalhas, a equipe conduzida pelo cientista colheu vitórias importantes, como a cessão, por parte da União, de um terreno vizinho à Quinta da Boa Vista onde está sendo implementado o campus de ensino. Será possível separar, portanto, a atividade científica da área expositiva do palácio histórico. Era uma demanda antiga dos pesquisadores da instituição, já que a utilização de um mesmo espaço para as duas atividades causava superlotação de acervo, risco de conservação inadequada e dificuldades logísticas. “O Museu Nacional faz pesquisa. Cuidamos dessa questão acadêmica porque seria menos difícil conseguir a verba para reconstruir o palácio do que para restabelecer o ensino”, comenta o paleontólogo cuja pesquisa com pterossauros, um grupo de répteis alados, é referência mundial. 

Por outro lado, a reforma do antigo Paço Imperial já teve a entrega de suas etapas adiadas algumas vezes. De acordo com o ex-diretor, dificilmente a estrutura será inaugurada de maneira permanente em 2026, nem mesmo parte dela. Para ele, o atraso no repasse de verbas já prometidas ao restauro criaram gargalos.

Mesmo após a conclusão de seus dois mandatos à frente da organização, Kellner permanecerá servidor da instituição de ensino e se permite traçar desejos para o futuro. Ele gostaria de ver um diálogo cada vez mais da instituição com  a sociedade, e tem propostas para isso. Uma delas é transformar o 2 de setembro, marco da data do incêndio, no Dia da Reflexão sobre as Coleções Científicas Históricas e Culturais, através de um projeto de lei. 

Veja a entrevista completa do ex-diretor do Museu Nacional – UFRJ, poucos dias após sua saída do cargo.

Alexander Kellner, então diretor do Museu Nacional, durante evento para a reconstrução do espaço: museus precisam dialogar com a sociedade (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – 29/08/2024)

#Colabora – Foram oito anos liderando os trabalhos de reconstrução do Museu Nacional. Pessoalmente, qual será seu próximo passo?

O Museu Nacional faz pesquisa e forma novos cientistas. Nós, da direção, ficamos à frente dessa questão acadêmica porque seria menos difícil conseguir a verba para reconstruir o palácio do que para restabelecer o ensino.

Alexander Kellner
Paleontólogo e ex-diretor do Museu Nacional (2018/2026)

Alexander Kellner – A minha primeira incumbência é viver o meu luto, porque eu não vivi isso. Eu tinha que pensar na sobrevivência institucional do museu. Agora estou com um projeto que é o seguinte: eu vou escrever um romance. Se as pessoas que gostam de museus não jogarem o livro no chão de raiva em algumas passagens, eu não vou ter feito um bom trabalho.

#Colabora – Como manter uma equipe motivada em circunstâncias tão adversas?

Alexander Kellner – Você tem que ter resultado. E sim, passa pelo questão financeira. Não é só dizer: vai que dá! É perguntar: do que você precisa? Então tome aqui. Minha maneira de motivar foi dar o exemplo e as condições para que as pessoas brilhem. E um monte de gente brilhou. Não reconstruir o museu não era uma opção. E as pessoas lutaram por isso.

#Colabora – O ano de 2018 seria repleto de celebrações pelos 200 anos do museu. O planejamento precisou ser alterado da noite para o dia. Como foi isso, do ponto de vista da gestão?

Alexander Kellner – Existem pessoas que, perante uma tragédia, se quebram. E existem pessoas que são pragmáticas. A minha medida número um foi conseguir o terreno [onde construir o campus de ensino, separadamente da área expositiva], a coisa mais relevante para a instituição. A segunda estratégia foi acelerar o início de um projeto do BNDES de mais de R$ 20 milhões que já estava prometido.

#Colabora – Gestões anteriores já vinham alertando sobre a necessidade de reparos estruturais no Paço de São Cristóvão. Quando assumiu, você também fez o aviso. 

O projeto Museu Nacional Vive não conseguiu os recursos necessários para que a gente pudesse avançar agora na reforma do espaço, e eu não sei quando irão conseguir.

Alexander Kellner
Paleontólogo e ex-diretor do Museu Nacional (2018/2026)

Alexander Kellner – A possibilidade de incêndio era um pavor para todo mundo. Então fizemos um projeto que batizamos internamente de “Enquanto o BNDES não vem” (risos), que trazia o que poderíamos fazer para nos prevenirmos. Em março de 2018, houve um curso de incêndio e pânico com a Defesa Civil, que foi sendo repetido ao longo dos meses. Ao final participaram mais de 90 pessoas. Não era um curso para formar brigadistas, mas era para as pessoas entenderem o tamanho do problema. Assim que eu assumi, eu gritei no jornal, me expus, disse que o museu só tinha verba para cuidados paliativos. Inclusive a UFRJ ficou danada comigo. Eu disse: então me dá dinheiro para fazer o que precisa ser feito! O museu também tem culpa pela sua tragédia. É o maior culpado? Não. Mas tem a sua responsabilidade. Ele falhou no seu trabalho de estabelecer um diálogo mais efetivo com a sociedade que pudesse atuar na guarda da memória confiada à instituição.

Alexander Kellner recebe no Paço de São Cristóvão bancada federal do Rio que destinou verbas para reconstrução do espaço físico do Museu Nacional: ainda faltam recursos para a conclusão da obra (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil – 31/08/2019)

#Colabora – Como foi o diálogo com o Governo Federal nesse período?

Alexander Kellner – O secretário de Cultura [do governo de Jair Bolsonaro] Mário Frias [junho de 2020 a março de 2022] me deixou esperando três vezes por horas e nunca me recebeu. Houve uma guinada quando o atual governo assumiu, e eu não estou fazendo propaganda para nenhum partido, estou relatando um fato. O próprio [presidente] Lula veio ao museu e eu pude dizer para ele: hoje eu tenho uma porta para bater. No passado, eu não tinha nem chance de argumentar. Se não fosse o atual governo, acho que o museu já tinha fechado.

#Colabora – Houve atrasos nas datas anunciadas para a reabertura de trechos do paço ao público. Por quê?

Alexander Kellner – Diferente de muitos museus, inclusive a nível internacional, não temos somente o espaço da exposição. O Museu Nacional faz pesquisa e forma novos cientistas. Nós, da direção, ficamos à frente dessa questão acadêmica porque seria menos difícil conseguir a verba para reconstruir o palácio do que para restabelecer o ensino. É possível usar a Lei Rouanet para o palácio, por exemplo. Mas para a academia não. Acabamos conseguindo R$ 55 milhões para o campus, por uma emenda parlamentar impositiva, graças aos deputados federais do Rio de Janeiro, o que permitiu a sobrevivência da instituição. A CAPES e a Faperj também ajudaram o museu. E o destaque para o MEC, que, desde 2023, nos apoia de forma efetiva, tanto na questão acadêmica como na reconstrução do palácio.

#Colabora – Qual o andamento da reforma do espaço expositivo?

Estamos longe ainda de termos um acervo de boa qualidade, mas temos algumas vitórias: o Manto Tupinambá, indumentária indígena feita de plumas que estava na Dinamarca desde 1689 e retornou ao Brasil, um esqueleto de baleia-cachalote de mais de 15 metros, alguns fósseis maravilhosos, como um crânio de um pterossauro.

Alexander Kellner
Paleontólogo e ex-diretor do Museu Nacional (2018/2026)

Alexander Kellner – O museu é sócio minoritário na reconstrução do palácio, que é coordenada por um comitê executivo de sete pessoas: dois representantes da Vale [empresa parceira na reconstrução], dois da UFRJ, o Museu Nacional, a Unesco, e um representante da sociedade civil. O projeto Museu Nacional Vive não conseguiu os recursos necessários para que a gente pudesse avançar agora na reforma do espaço, e eu não sei quando irão conseguir. Estamos aguardando os repasses que foram prometidos pela Alerj e pela Petrobras para seguirmos. O BNDES aportou mais R$ 50 milhões [totalizando R$ 100 milhões], o que evitou a paralisação das obras.

#Colabora – Alguma vitória após a tragédia?

Alexander Kellner – O primeiro prédio definitivo no novo campus que conquistamos, dedicado aos laboratórios de manuseio de coleções líquidas. Será um orgulho quando inaugurarmos porque essa pode ser uma estrutura modelo para outras ao redor do país e da América do Sul. Dependemos ainda do parecer do Corpo de Bombeiros, que é extremamente importante, especialmente porque o prédio abrigará centenas de litros de álcool usados na conservação dos itens. A atual diretoria me pediu que eu continue cuidando da entrega desse edifício até sua inauguração.

#Colabora – Quais alguns destaques da coleção que está sendo construída para o museu?

É preciso ter uma boa tradução da conversa científica para o público em geral. Além de uma boa iluminação, boa comunicação visual. Tem que trazer a contextualização do exemplar, mas você tem que maravilhar

Alexander Kellner
Paleontólogo e ex-diretor do Museu Nacional (2018/2026)

Alexander Kellner – Estamos longe ainda de termos um acervo de boa qualidade, mas temos algumas vitórias: o Manto Tupinambá, indumentária indígena feita de plumas que estava na Dinamarca desde 1689 e retornou ao Brasil, um esqueleto de baleia-cachalote de mais de 15 metros, alguns fósseis maravilhosos, como um crânio de um pterossauro. Estamos em negociação com o Museu do Louvre, na França, e também com o Egito, porque queremos um empréstimo de um sarcófago e material original do Egito Antigo. Não existe chance de um museu de história natural e antropologia sobreviver sem peças originais. Se você quiser ter fake ou réplicas, é melhor ir para a Disneylândia. Eles são insuperáveis nesse quesito! 

O ex-diretor Alexander Kellner em visita as obras de reconstrução do Museu Nacional destruído por um incêndio em 2018: defesa da criação do Dia de Reflexão sobre as Coleções Científicas, Históricas e Culturais (Foto:
Tânia Rêgo/Agência Brasil – 02/09/2022)

#Colabora – Há alguma exposição temporária sendo organizada? 

Alexander Kellner – Sim. Provisoriamente, tem o título “Casas”. A ideia é que a mostra traga vários conceitos de casas: das pessoas, dos animais, é o museu voltando para casa e, ao mesmo tempo, sendo parte da casa das pessoas.

#Colabora – Como o museu pode ampliar seu público e seu diálogo com a sociedade?

Alexander Kellner – Eu gostaria de dar a possibilidade que as pessoas digam o que gostariam de ver no museu. Agora vem a diferença: uma vez que a temática seja escolhida para uma exposição, que essa pessoa também atue como co-curadora, com uma participação direta. Quem estaria disposto a nos ajudar a contar essa história?

Outra ideia que temos é o projeto de lei que colocaria o 2 de setembro no calendário oficial nacional, como um Dia de Reflexão sobre as Coleções Científicas, Históricas e Culturais, para que a gente possa cuidar melhor delas.

#Colabora – Como essa comunicação funciona dentro do museu?

Alexander Kellner – Eu não gosto dessa postura de: “vem aqui aprender”. Eu digo: “vem aqui dialogar”. É preciso ter uma boa tradução da conversa científica para o público em geral. Por exemplo: ter duas ou três linhas gerais sobre o que é mais importante naquele espaço, mas ter também um QR code com informações mais aprofundadas para quem tem maior interesse. Além de uma boa iluminação, boa comunicação visual. Tem que trazer a contextualização do exemplar, mas você tem que maravilhar.

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Marina Cohen

Jornalista formada pela PUC-Rio. Trabalhou no jornal O Globo, no Jornal do Brasil, no site I Hate Flash e na revista Vizoo. Hoje, escreve para o Projeto#Colabora. É uma carioca louca pelo universo jovem, por observar as tendências da web, e por histórias contadas e protagonizadas por mulheres.

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