Dez equívocos sobre a mais mortal das pandemias

Gripe de 1918 matou mais de 50 milhões de pessoas - 35 mil no Brasil - mas muitos ainda têm ideias erradas sobre a tragédia

Por The Conversation | ods3 • Publicada em 27 de março de 2020 - 11:15 • Atualizada em 1 de abril de 2020 - 15:44

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Enfermeiras da Cruz Vermelha cuidam de doente em acampamento hospitalar em Washington (EUA): gripe de 1918 matou entre 50 e 100 milhões (Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA)

Richard Gunderman*

Pandemia: é uma palavra assustadora.

Mas o mundo já viu pandemias antes – e piores também. Considere a pandemia de gripe de 1918, muitas vezes referida erroneamente como a “gripe espanhola”. Os conceitos errados sobre isso podem estar alimentando medos infundados sobre a covid-19, e agora é um momento especialmente bom para corrigi-los.

Na pandemia de 1918, acredita-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas tenham morrido, representando até 5% da população mundial; meio bilhão de pessoas foram infectadas (no Brasil, foram, pelo menos, 35 mil óbitos, inclusive o do presidente a República, Rodrigues Alves: nota do tradutor). Especialmente notável foi a predileção da gripe de 1918 por tirar a vida de jovens adultos saudáveis, em oposição a crianças e idosos, que geralmente sofrem mais. Alguns a consideram a maior pandemia da história.

A pandemia de gripe de 1918 tem sido objeto de especulações regulares nestes mais de 100 anos. Historiadores e cientistas levantaram, ao longo das décadas, inúmeras hipóteses sobre sua origem, disseminação e consequências. Como resultado, muitas hipóteses abrigam equívocos sobre o assunto. Ao corrigir esses dez conceitos errôneos, todos podem entender melhor o que realmente aconteceu e ajudar a mitigar os efeitos negativos da covid-19.

1. Pandemia com origem na Espanha

Ninguém mais acredita que a chamada “gripe espanhola” tenha se originado na Espanha. A pandemia provavelmente adquiriu esse apelido por causa da Primeira Guerra Mundial, que estava em pleno andamento na época. Os principais países envolvidos na guerra estavam dispostos a evitar encorajar seus inimigos; portanto, os relatórios sobre a extensão da gripe foram suprimidos na Alemanha, Áustria, França, Reino Unido e EUA. Por outro lado, a Espanha neutra não precisou manter a gripe. sob sigilo. Isso criou a falsa impressão de que a Espanha estava sofrendo o impacto da doença.

De fato, a origem geográfica da gripe é debatida até hoje, embora hipóteses tenham sugerido o leste da Ásia, a Europa e até o estado americano do Kansas.

2. A pandemia foi obra de um ‘super-vírus’

A gripe de 1918 se espalhou rapidamente, matando 25 milhões de pessoas nos primeiros seis meses. Isso levou alguns a temer o fim da humanidade, e há muito alimenta a suposição de que a cepa da gripe era particularmente letal. No entanto, estudos mais recentes sugerem que o próprio vírus, embora mais letal que outras cepas, não era fundamentalmente diferente daqueles que causaram epidemias em outros anos.

Grande parte da alta taxa de mortalidade pode ser atribuída à aglomeração em campos militares e ambientes urbanos, bem como à má nutrição e saneamento, também agravados pela guerra. Atualmente, acredita-se que muitas das mortes se devam ao desenvolvimento de pneumonias bacterianas nos pulmões enfraquecidas pela influenza.

3. A primeira onda da pandemia foi mais letal

Na verdade, a onda inicial de mortes pela pandemia na primeira metade de 1918 foi relativamente baixa. Foi na segunda onda, de outubro a dezembro daquele ano, que as maiores taxas de mortalidade foram observadas. Uma terceira onda. na primavera de 1919 (do Hemisfério Norte), foi também mais letal que a primeira, mas menos que a segunda.

Os cientistas agora acreditam que o aumento acentuado de mortes na segunda onda foi causado por condições que favoreceram a propagação de uma cepa mortal. As pessoas com casos leves permaneceram em casa, mas aquelas com casos graves estavam frequentemente reunidas em hospitais e acampamentos, aumentando a transmissão de uma forma mais letal do vírus.

4. O vírus matou a maioria dos infectados

Na verdade, a grande maioria das pessoas que contraiu a gripe de 1918 sobreviveu. As taxas nacionais de mortalidade entre os infectados geralmente não excederam 20%. No entanto, as taxas de mortalidade variaram entre os diferentes grupos. Nos EUA, as mortes foram particularmente altas entre as populações indígenas americanas, talvez devido a menores taxas de exposição a cepas passadas de influenza. Em alguns casos, comunidades indígenas inteiras foram exterminadas.

Obviamente, mesmo uma taxa de mortalidade de 20% excede – e muito – a de uma gripe típica, que mata menos de 1% das pessoas infectadas.

5. As terapias da época tiveram pouco impacto na doença

Nenhuma terapia antiviral específica estava disponível durante a gripe de 1918. Isso ainda é amplamente verdadeiro atualmente, onde a maioria dos cuidados médicos contra a gripe busca dar apoio aos pacientes durante a doença, em vez de curá-los.

Uma hipótese sugere que muitas mortes por gripe poderiam realmente ser atribuídas ao envenenamento por aspirina. As autoridades médicas da época recomendavam grandes doses de aspirina: até 30 gramas por dia. Hoje, cerca de quatro gramas seriam consideradas a dose diária máxima segura. Grandes doses de aspirina podem levar a muitos dos sintomas da pandemia, incluindo sangramento. No entanto, as taxas de mortalidade parecem ter sido igualmente altas em alguns lugares do mundo onde a aspirina não estava tão prontamente disponível, então o debate continua.

Hospital montado no Club Athletico Paulistano, na capital paulista, em 1918: Brasil registrou mais de 35 mil mortes (Foto: Reprodução)
Hospital montado no Club Athletico Paulistano, na capital paulista, em 1918: Brasil registrou mais de 35 mil mortes (Foto: Reprodução)

6. A pandemia dominou o noticiário

Autoridades de saúde pública, policiais e políticos tiveram interesse em subestimar a gravidade da gripe de 1918, o que resultou em menos cobertura na imprensa. Além do medo de que a divulgação completa pudesse encorajar os inimigos durante a guerra, eles queriam preservar a ordem pública e evitar o pânico.

No entanto, as autoridades, finalmente, responderam à gripe de 1918. No auge da pandemia, quarentenas foram instituídas em muitas cidades. Em algumas, as providências chegaram até a restringir serviços essenciais, incluindo polícia e bombeiros.

7. A pandemia mudou o curso da Primeira Guerra Mundial

É improvável que a gripe tenha alterado o resultado da Primeira Guerra Mundial, porque os combatentes de ambos os lados do campo de batalha foram igualmente afetados. No entanto, há poucas dúvidas de que a guerra influenciou profundamente o curso da pandemia. A concentração de milhões de soldados criou circunstâncias ideais para o desenvolvimento de cepas mais agressivas do vírus e sua disseminação pelo mundo.

8. A imunização generalizada encerrou a pandemia

Não houve imunização contra a gripe em 1918 e, portanto, isso não teve qualquer papel no fim da pandemia. A exposição a cepas anteriores da gripe pode ter oferecido alguma proteção. Por exemplo, soldados que serviram nas Forças Armadas durante anos sofreram taxas mais baixas de mortes do que os novos recrutas.Além disso, o vírus de mutação rápida provavelmente evoluiu ao longo do tempo para cepas menos letais. Isso é previsto por modelos de seleção natural. Como cepas altamente letais matam seu hospedeiro rapidamente, elas não podem se espalhar tão facilmente quanto as cepas menos letais.

9. Os genes do vírus nunca foram sequenciados

Em 2005, os pesquisadores anunciaram que haviam determinado com sucesso a sequência genética do vírus influenza de 1918. O vírus foi recuperado do corpo de uma vítima de gripe enterrada no permafrost (solo de terra, gelo e rochas permanentemente congelado) do Alasca, bem como de amostras de soldados americanos que adoeceram na época.

Dois anos depois, descobriu-se que macacos infectados com o vírus exibiam os sintomas observados durante a pandemia. Estudos sugerem que os macacos morreram quando seus sistemas imunológicos reagiram exageradamente ao vírus, a chamada “tempestade de citocinas”. Os cientistas agora acreditam que uma reação exagerada do sistema imunológico semelhante contribuiu para altas taxas de mortalidade entre jovens adultos saudáveis em 1918.

10. O mundo não está melhor preparado hoje do que em 1918

As epidemias graves tendem a ocorrer a cada poucas décadas, e a mais recente está entre nós. Hoje, os cientistas sabem mais sobre como isolar e lidar com um grande número de pacientes doentes e moribundos, e os médicos podem prescrever antibióticos, não disponíveis em 1918, para combater infecções bacterianas secundárias. A medicina contemporânea pode ainda adicionar a criação de vacinas e medicamentos antivirais às práticas de senso comum como distanciamento social e lavagem das mãos.

No futuro próximo, as epidemias virais continuarão ainda sendo uma característica regular da vida humana. Como sociedade, podemos apenas esperar que tenhamos aprendido as lições da grande pandemia o suficiente para enfrentar o atual desafio da covid-19.

*Professor de Medicina e Filantropia da Universidade de Indiana (EUA)

Tradução: Oscar Valporto

The Conversation

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