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Reduzir gastos com solução criativa

Mon P´Ti é uma das redes de solidariedade entre vizinhos que mais cresce na França


O francês Pierre Deneuville, usuário da rede Mon P'ti
Pierre entrou no “Mon P´Ti” para formar um grupo de apoio entre os pais da escola dos filhos

Marie fica com as crianças de Sandrine, que dá aulas de reforço a Marc, que divide o carro com Jean, que toma conta do cachorro de Jeanne, que recolhe garrafas pet, projeto que uniu Julie, Charles e Alexandra, que fizeram uma compra coletiva,o que atraiu Stéphane, que criou um coral para todos.

Tentar diminuir a solidão das grandes cidades e, de quebra, consumir menos. O princípio da primeira rede social entre vizinhos da França é simples. Compartilhar um serviço como babysitting ou um objeto, como uma escada de três metros, que costuma ficar boa parte do tempo esquecida em um canto empoeirado de casa. O importante é que seja bom para todos. Os envolvidos moram a uma distância de, no máximo, duas ou três ruas da sua própria casa.

“Queremos ser uma alternativa ao Facebook e fazemos exatamente o oposto da ferramenta, porque incentivamos as pessoas que moram perto a se encontrarem na vida real”, diz a responsável pelo Marketing da Mon P’ti Voisinage, Morgane Hemery.

Bem mais modesta que os 31 milhões de franceses ligados na rede de Mark Zuckerberg, o “Mon P’ti” liga hoje 70 mil usuários espalhados em todas as regiões do hexágono francês, sobretudo na Bretanha, onde nasceu a start-up há dois anos. Apesar das ameaças terroristas depois dos atentados do ano passado na capital, a rede social continua em expansão. Em janeiro, mais que triplicou o número de pessoas conectadas. A conexão já começa a atingir a vizinhança, na Guiana Francesa e em Guadalupe. São mais de 18 mil objetos e serviços oferecidos na rede, desde a primeira conexão.

Géraldine Fersing, moradora de Istres, no sudeste da França, conectou-se à rede em outubro passado. Ela conta que, ao seguir o conselho de um vizinho, negociou com o sapateiro um desconto substancial no conserto de um par de botas. Foi também no site colaborativo que ela encontrou companhia para caminhadas nos finais de semana. Hoje faz propaganda literalmente porta a porta da rede.

“Acho inútil consumir mais do que precisamos”, afirma a monitora escolar, que auxilia alunos em dificuldade nas salas de aula, mas que, hoje, está desempregada.

As pessoas querem resgatar uma solidariedade que perderam na Franca e, é claro, estão sensíveis a tudo que possa ser uma economia

Morgane Hemery
diretora de Marketing da Mon P´Ti

Apontar uma maneira criativa de solucionar pequenos problemas do cotidiano e reduzir gastos é uma necessidade para uma sociedade que deixou para trás, há algumas décadas, a figura da empregada doméstica mensalista. Cerca de nove em cada dez lares franceses têm um forno de microondas. Quase a metade tem lava-louças. Carros menos poluentes, elétricos e híbridos, estão cada vez mais presentes. Mas cidades e lares mais inteligentes não são nada sem o resgate dos vínculos sociais, pregam os criadores do “Mon P’ti”.

“As pessoas querem resgatar uma solidariedade que perderam na França e, é claro, estão sensíveis a tudo que possa ser uma economia”, afirma Morgane.

Morador de Bordeaux, Pierre Deneuville entrou na rede social da vizinhança para formar um grupo de apoio mútuo entre os pais da escola dos filhos. Sabe quanto custa na logística familiar um dia de greve ou de professores ausentes. Motivado, também criou um grupo de mergulho e pesca submarina, mas que ainda não tem saídas previstas. Em ambas as iniciativas, ainda percebe pouca participação ativa dos vizinhos.

“Ainda faltam pessoas para poder encontrar serviços interessantes e ter uma maior reatividade nas mensagens. O site é mais interessante para os usuários que moram no centro da cidade, onde as pessoas se juntam mais rapidamente”, afirma.

Mas talvez não seja apenas uma questão urbana, avalia a antropóloga de consumo Christine Stutzmann, especializada em empresas e também usuária do “Mon P’ti”. Para ela, a rede social do bairro ‘e uma boa ideia, com grande potencial, mas que ainda precisa ser aprimorada.

“Em uma comunidade é preciso que as pessoas partilhem coisas comuns e isso não é criado automaticamente, porque você está conectado a seus vizinhos”, afirma. “Muitos entram nessa rede e logo se cansam se nada acontece, talvez estejamos muito acostumados ao modelo de consumo de benefício imediato”, sugere.


Escrito por Clarice Spitz

Clarice Spitz é jornalista com passagens por O Globo, Folha de S.Paulo e iG. Tem mestrado em História Contemporânea, pela Universidade de Paris-Est. Mora em Bordeaux, na Franca, onde trabalha como repórter e redatora freelancer

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