Empresa que incentiva carona já vale 1,4 bilhão de euros

Blablacar tem mais de 20 milhões de usuários em 19 países e está chegando ao Brasil

Por Fernanda Godoy | mobilidade-urbana ods12 ods16 ods17 • Publicada em 7 de novembro de 2015 - 09:08 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 23:07

José Machio (à esquerda) e David Ruiz, motorista e passageiro da Blablacar, na chegada a Toledo
José Machio (à esquerda) e David Ruiz, motorista e passageiro da Blablacar, na chegada a Toledo
José Machio (à esquerda) e David Ruiz, motorista e passageiro da Blablacar, na chegada a Toledo

Os mais de 20 milhões de usuários da Blablacar, uma plataforma digital para o compartilhamento de viagens de carro, constroem uma trajetória de sucesso que já se expandiu a 19 países, entre eles Rússia, índia e México, e deve chegar nos próximos meses ao Brasil. Criada na França em 2006 como uma rede social com o objetivo de botar em contato pessoas que fossem viajar por uma mesma rota, a empresa chegou, em menos de dez anos, a um valor de mercado estimado em 1,4 bilhão de euros. Nos últimos dois anos, estima-se que a atividade global de Blablacar tenha contribuído para economizar 1 milhão de toneladas de C02. Os carros de seus usuários circulam em média com 2,8 passageiros, em contraste com a média europeia de 1,7.

Blablacar é um gerador de cifras e de tags do século 21: consumo colaborativo, desenvolvimento sustentável, eficiência energética, mobilidade. Afinada com os tempos atuais, a empresa ainda ganhou um empurrão da crise econômica mundial deflagrada em 2008: viajar com Blablacar é mais barato que fazer o mesmo trajeto de trem, ônibus ou avião. Pesquisa com os usuários revela que a economia é a principal razão da escolha da Blablacar para 85% das pessoas. “Acreditamos que a economia do compartilhamento veio para ficar,  que ela não é feita da crise, é resultado de uma mudança de mentalidade global”,  diz Jaime Rodríguez, de 31 anos, diretor da Blablacar para Espanha e Portugal. “Vivemos em um planeta que cada vez tem menos recursos e mais gente. Todos os mecanismos de colaboração que nos permitam fazer melhor uso dos recursos terão aceitação crescente”, avalia.

Entre os demais motivos apresentados pelas pessoas para usar Blablacar, aparecem a preocupação com o meio ambiente (40%), o interesse pelo consumo colaborativo (35%), por viajar em boa companhia (29%) e pela socialização (23%). Aderir a Blablacar é simples: basta inscrever-se no site ou baixar o aplicativo, fornecer e-mail e número de celular (que serão checados) e publicar (oferecer) uma viagem. Ou buscar alguém que esteja oferecendo o roteiro desejado por você. O pagamento é feito eletronicamente, e o passageiro recebe um código que deverá apresentar ao motorista no momento do embarque.

No perfil a ser preenchido, um dos itens esclarece o nome da empresa: cada usuário deve se definir como blablabla (muito falante), blabla (razoavelmente falante) ou bla (calado). Também deve especificar se gosta de música no carro e se aceita a companhia de fumantes e animais de estimação. Estreando como usuária da Blablacar na condição de turista na Espanha, a indiana Shweta Pathak, de 30 anos, funcionária de um banco em Mumbai, resumiu na sua experiência pessoal alguns dos conceitos-chave do negócio: “Gosto da conveniência de compartilhar a viagem e também tenho preocupação ambiental. Acho que a minha geração é menos possessiva com os carros; ter um carro não é algo que a gente veja como necessário”, diz Shweta, que se disse satisfeita com a experiência e disposta a utilizar Blablacar também em seu país.

Ela pagou 3 euros pelo percurso Madri-Toledo, que, de ônibus, teria custado 5 euros, e, de trem, 13 euros. É por causa de usuários como a indiana que o físico francês Frédéric Mazzella, de 39 anos, fundador da Blablacar, diz que “tentar frear o movimento de consumo colaborativo seria como querer parar o mar”. Mazzella teve a ideia-mãe no Natal de 2003, quando não conseguiu comprar um bilhete de trem para se reunir com a família no interior da França. Acabou resgatado pela carona da irmã, e, na estrada, percebeu o imenso número de motoristas que viajavam sozinhos. Encontrar uma forma de botá-los em contato foi a origem de sua start-up, fundada em Paris em 2006.

Em 2015, a economia colaborativa de Blablacar  enfrenta na Espanha sua primeira batalha judicial. A Confebús (Confederação das Empresas de Transporte de Ônibus) entrou com ação na Justiça acusando a Blablacar de concorrência desleal e pedindo a suspensão de suas atividades. A primeira audiência foi realizada no dia 1o de outubro. Em sua defesa, os diretores da Blablacar alegam que os motoristas que se cadastram no site são proibidos de auferir lucro. O dinheiro que eles podem cobrar do passageiro se limita ao suficiente para cobrir gastos com combustível e pedágio, além de despesas de manutenção do veículo. “Blablacar não é Uber. Nosso modelo é muito diferente do deles.  Não é uma atividade profissional e não há ânimo de lucro. Isso nos diferencia do Uber e faz com que nos encaixemos muito bem em todos os marcos regulatórios”, afirma Rodríguez.

Blablacar tem 2,5 milhões de usuários cadastrados na Espanha, um dos países onde sua operação é mais forte e mais antiga. Como em todos os lugares onde atua, Blablacar determina os preços máximos a serem cobrados por trajeto e fiscaliza abusos. Uma equipe de 60 pessoas baseada na França se dedica ao atendimento aos usuários, respondendo a perguntas e recebendo denúncias. “Quando detectamos alguma atividade estranha, como ir e voltar várias vezes por dia a um determinado lugar, tomamos medidas que podem chegar à expulsão. Felizmente, a incidência de problemas é muito baixa. Na Espanha, é de 0,5%”, diz Rodríguez. O principal controle de qualidade é feito pelos próprios usuários, que publicam avaliações do motorista (pontualidade, gentileza, segurança) e do estado do carro. Quase todo mundo que escolhe parceiros de viagem leva em conta o que dizem outros usuários, da mesma forma como acontece com o Airbnb, site para compartilhamento e aluguel por temporada de casas e apartamentos.

Comissão de 12% pela intermediação.

Rodríguez rebate a acusação da Confebús de que a empresa estaria intermediando um serviço de transporte de forma irregular. “Como não é um serviço de transporte profissional, não podemos intermediar algo que não existe”, afirma. “O que fazemos é um negócio típico de comércio eletrônico, onde efetivamente Blablacar ganha dinheiro, mas que está regulado pelas leis do setor.” José Machio, de 44 anos, faz todas as semanas o trajeto de 400 km entre Toledo, onde vivem sua mulher e seus filhos, e Alicante, onde trabalha como marinheiro. Em três anos como usuário do Blablacar, estima ter realizado mais de 400 viagens compartilhadas. Seus objetivos são reduzir custos e, principalmente, ter companhia. Cobra 18 euros por passageiro pelo percurso Madri-Alicante, mas já fez descontos para estudantes. De ônibus, o mesmo trecho custa 30 euros. “Faço amizades. Já levei famílias inteiras ou gente de idade que vai visitar os netos, é uma ótima maneira de conhecer gente”, diz Machio.

Na Espanha, a idade média do usuário é de 31 anos, mas esse número pode estar distorcido. A julgar pela experiência de gente como Machio, as reservas de idosos geralmente são feitas por meio dos perfis de seus filhos ou netos. David Ruiz, de 31 anos, integra outro  grupo numeroso de usuários da Blablacar no país, o dos militares. Ele mora em Melilla, enclave espanhol no norte da África. “Quando venho à Península [Ibérica], uso Blablacar para ir a Toledo ver minha mulher e para ir a Granada, onde está minha família. Quase todos os militares estão baseados em locais longe de seus parentes, então viajamos muito e usamos Blablacar porque é cômodo e econômico”, conta Ruiz.

Os executivos da Blablacar sabem que, ao sair da Europa, encontram mercados onde é enorme a fome de transportes alternativos que supram deficiências locais. Eles afirmam que a aceitação em mercados como os da Ucrânia, da Índia e do México está sendo “fantástica”. “Blablacar na Europa é uma forma muito divertida de viajar, e que ainda permite economizar. Já na Índia nossa proposta é permitir a mais pessoas viajar, porque os trens estão sobrecarregados”, diz Rodríguez. Um acordo foi firmado entre a Blablacar e a empresa ferroviária estatal indiana, para que o excedente de passageiros em algumas linhas seja encaminhado para o sistema de compartilhamento de carros.

O próximo desafio da Blablacar é o Brasil, uma etapa considerada natural, depois da entrada no México no último mês de abril. “O Brasil é um país muito interessante para nós. Gostaríamos de começar a operar antes do final do ano, mas ainda não temos um roteiro definido”, diz Rodríguez. Uma equipe local está avaliando previamente todos os aspectos, mas Rodríguez não acredita que os problemas encontrados na Espanha se repitam. A Espanha foi o primeiro país a ameaçar os motoristas do Blablacar com multas, em 2014, um movimento do qual o governo espanhol recuou após receber uma reprimenda da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia. A Espanha, mais especificamente a Catalunha, também foi o primeiro lugar da Europa a multar pessoas por utilizar o Airbnb. “O caso da Espanha é algo que nos custa muito entender, porque Blablacar opera em 19 países, e em nenhum outro encontramos uma situação similar. Em todos os países do mundo que eu conheça está permitido compartilhar o uso de um carro”, afirma o diretor.

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Fernanda Godoy

É jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou em "O Globo" e na "Folha de S. Paulo". Foi correspondente em Nova York nos períodos 1993-94 e 2010-13. Atualmente vive em Madri e trabalha como repórter freelancer na Europa.

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