Moradores de Queimados criam uma agenda pelo direito à vida

Reunião de integrantes da Agenda Queimados no começo do ano: propostas para a superação da violência (Foto: Luize Sampaio/Casa Fluminense)

Na cidade da Baixada Fluminense, onde taxa de mortes violentas está entre as maiores do país, agenda local aposta no investimento em esporte, cultura e emprego

Por Casa Fluminense | ODS 10ODS 11 • Publicada em 9 de outubro de 2020 - 09:00 • Atualizada em 13 de outubro de 2020 - 09:35

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Reunião de integrantes da Agenda Queimados no começo do ano: propostas para a superação da violência (Foto: Luize Sampaio/Casa Fluminense)

Luize Sampaio*

Um morador de Queimados, município da Baixada Fluminense com cerca de 150 mil habitantes, tem em média 12 anos de vida a menos do que um morador da cidade de Niterói, também na Região Metropolitana do Rio. Os altos índices de violência podem ser uma das explicações para essa disparidade apontada pelo Mapa da Desigualdade 2020No Atlas da Violência 2018, Queimados foi apontada como a cidade mais violenta do país, com um índice de 134,9 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. No ano seguinte, o município permaneceu no top 5 da mesma pesquisa, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com taxa de 115,6 mortes violentas.

Para diminuir esses índices, os coletivos e organizações locais querem que o poder público aposte em esporte, cultura, educação e emprego. Atualmente, durante o período eleitoral, o município vive uma disputa de narrativas intensa: o tema violência se tornou também uma das principais pautas eleitorais dos planos de governo apresentados pelos candidatos à prefeitura da cidade. Mas, ao contrário do que pregam os moradores, 7 dos 10 prefeitáveis querem combater à violência com foco no videomonitoramento das ruas e com a  ampliação da atuação da guarda municipal.

É no meio desse embate de caminhos das forças locais e políticas que surge a Agenda Queimados 2030. Construída de forma coletiva, junto a ativistas e coletivos locais, a publicação reúne uma série de dados e propostas que buscam garantir a superação dessa violência no território. Essa agenda vai ser lançada no dia 24 de outubro, em parceria com os territórios de Japeri, São Gonçalo e Maré que também estão produzindo suas agendas locais.

As pautas da publicação de Queimados são atravessadas pelos valores de direito à cidade, desenvolvimento sustentável e superação da violência. Gerente de projetos do Golfinhos da Baixada, Gisele de Castro, uma das coordenadoras do trabalho, explica como a Agenda busca utilizar o esporte na redução da violência. “O esporte tem potencial de promover a transformação social. Vivenciamos essa possibilidade aqui no Golfinhos através da natação. A cultura do esporte tem que ser vista como uma ferramenta de política pública no combate à violência; ela cria uma nova possibilidade de futuro para as crianças e jovens. Por isso, queremos que a prefeitura olhe com mais cuidado para o setor e passe a incluí-lo no orçamento público da cidade”, enfatizou Gisele.

Para a coordenadora, a Agenda Queimados é resultado de um trabalho de cuidado feito por moradores que amam a cidade. Gisele contou também como a crise sanitária provocada pelo novo coronavírus atravessou a produção da Agenda.  “Esse trabalho foi produzido após uma série de coletas de dados e análise de pesquisas. E, durante a pandemia, parte do grupo se mobilizou para ajudar a população com a doação de cestas básicas. Nessas entregas, conversando e entrevistando cerca de duas mil pessoas, conseguimos desenhar o perfil dos moradores da cidade. Isso nos ajudou a decidir os temas e urgências que colocamos na Agenda”, resumiu Gisele. 

Os dados do grupo mostraram que mais de 70% das pessoas que receberam as cestas eram mulheres, chefes de família, que trabalhavam informalmente. O Mapa da Desigualdade mostrou que essa é uma realidade anterior a pandemia: a pesquisa – produzida pela Casa Fluminense, associação civil com foco em políticas públicas para a Região Metropolitana do Rio – aponta que, a cada 100 moradores de Queimados, apenas 10 têm emprego formal na cidade.

A Agenda Queimados acredita da criação de um programa de primeiro emprego como forma de estimular a mudança tanto no quadro de violência quanto no de desemprego. A proposta é convocar jovens que estavam em privação de liberdade ou então com dificuldades escolares a se capacitar profissionalmente em espaços públicos, desenvolvendo qualidades técnicas em prol da produtividade municipal.

A juventude é uma das grandes apostas do grupo para uma mudança na cidade. Integrante da  organização social bxd_Qm2, o universitário Lennon Medeiros, de 24 anos, faz parte da produção da Agenda Queimados e afirma que o documento foi pensado para aproximar os jovens da pautas do município. Para isso, ressalta o poder da internet. “Queremos qualificar o debate público, despertar o interesse das pessoas pelos temas e a internet é uma ferramenta importante para isso”, afirmou.

Mesmo com os dados do Mapa da Desigualdade mostrando que somente 27,6% da população tem acesso à banda larga fixa, Lennon acredita que são por redes móveis que o engajamento dos jovens vai acontecer. “Existe muito tráfego de informações e trocas acontecendo pelos celulares, mas qual a qualidade dessas interações? Queremos que a tecnologia seja uma aliada, para isso é preciso engajar a juventude”, explicou. 

Agendas locais 2030 

Elaboradas por lideranças e grupos da região de Japeri, Queimados, São Gonçalo, Maré e Santa Cruz, as agendas locais são resultado de um trabalho de escuta e análise de dados territoriais. Elas surgiram como uma forma ampliar a Agenda Rio 2030, que é um conjunto de propostas de políticas públicas, atualizada e produzida pela Casa Fluminense  e sua rede de parceiros na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.  As agendas locais têm como objetivo  amplificar o debate público e o monitoramento social, não só aquele que é feito na academia e nos órgãos de governo, mas também nos territórios.

*Casa Fluminense

Casa Fluminense

A Casa Fluminense é um espaço permanente para a construção coletiva de políticas e ações públicas por um Rio mais justo, democrático e sustentável. Formada em 2013 por ativistas, pesquisadores e cidadãos identificados com a visão de um Rio mais integrado, acredita que a realização deste horizonte passa pela afirmação de uma agenda pública aberta à participação de todos os fluminenses e destinada universalmente a todo o seu território e população e não apenas - ou prioritariamente - para as áreas centrais da capital.

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