Um ippon na desigualdade

Instituto Reação, criado pelo judoca Flávio Canto, tem 1.300 alunos e seis polos na cidade do Rio

Por Adriana Pavlova | ods1ods4 • Publicada em 11 de junho de 2016 - 08:00 • Atualizada em 9 de agosto de 2016 - 03:08

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Flavio Canto com os alunos do Instituto Reação: projeto se multiplicou e já está em seis pontos da cidade
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Flávio Canto com os alunos do Instituto Reação: projeto se multiplicou e já está em seis pontos da cidade

Meninos e meninas desfilando faceiros pelas ruas da favela da Rocinha de quimono branco. A alguns quilômetros dali, na Cidade de Deus, uma turma treina sério no tatame para trazer as primeiras medalhas olímpicas do judô conquistadas em território nacional. Na Ilha do Governador, adolescentes infratores com pouca perspectiva de futuro aprendem a sonhar com  uma carreira ligada ao esporte. Este é o Instituto Reação, um império social e educativo de judô espalhado nestes e em outros três pontos do Rio de Janeiro, idealizado e liderado pelo ex-judoca, medalhista olímpico e apresentador de TV Flávio Canto.

O ambicioso projeto de transformação – que em 2016 completa 13 anos, envolvendo 1.300 alunos, entre eles, campeões do esporte como Rafaela Silva e Victor Penalber, ambos da seleção olímpica – tem sua origem num momento de virada de vida de Canto, depois de uma frustração que só os grandes atletas podem entender. Canto, hoje com 41 anos, começou o judô aos 14, mais velho do que acontece normalmente. Aos 19 anos, no entanto, já estava na seleção brasileira. A partir de 1995, teve um rendimento excelente, ganhando destaque com medalhas em Pan-Americanos. O baque veio com a perda do posto de titular da seleção nas Olimpíadas de Sydney, em 2000.

“No dia em que eu perdi a vaga de titular, vi que teria que transformar a queda em algo construtivo. E é essa a filosofia do judô, da cultura oriental como um todo. O samurai é aquele que serve a um momento maior. Encarei a ida para Sydney na condição de reserva com um momento para repensar. Quando voltei, já estava decidido a tentar a fazer algo mais transformador, mais contínuo, consistente, perene”, relembra.

Meus melhores resultados vieram justamente depois que comecei a ser voluntário. A energia que eu gastava era muito menor do que a que eu ganhava

Flavio Canto

Surgia aí o embrião do Reação. A volta coincidiu com o início do projeto Educação Criança Futuro capitaneado por Pedro Gama Filho, da universidade de mesmo nome, que passou a oferecer atividades em diferentes espaços da cidade, incluindo a Rocinha. Canto tornou-se professor voluntário de judô, para desespero do seu treinador, que ficou preocupado com uma possível queda de rendimento do atleta.

“Pelo contrário, meus melhores resultados vieram justamente depois que comecei a ser voluntário. A energia que eu gastava era muito menor do que a que eu ganhava”, diz ele que ganhou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Rafaela Silva é um dos destaques da vitoriosa equipe do Reação: primeira mulher campeã mundial de judô
Rafaela Silva é um dos destaques da vitoriosa equipe do Reação: primeira mulher campeã mundial de judô

O projeto Educação Criança Futuro durou um ano e meio e serviu para que Canto maturasse a ideia de criar uma iniciativa própria, que não dependesse no começo de dinheiro público. Nessa época, algumas boas coincidências também ajudaram a fomentar o surgimento do Reação. O treinador Geraldo Bernardes, um dos mestres de Canto e que esteve à frente da Seleção Brasileira de Judô em quatro Olimpíadas, tinha começado a dar aulas de alto rendimento para jovens da Cidade de Deus. Também no mesmo período, Eduardo Henrique Soares, Duda, amigo de infância de Canto, começou a fazer um trabalho social de judô com seu pai na Pequena Cruzada, na Lagoa. Geraldo e Duda logo se transformariam em peças vitais na engrenagem do Reação junto com ex-alunos formados nas primeiras turmas na Rocinha.

Canto juntou os melhores amigos e com a ajuda do escritório de Direito de sua família criou o estatuto da organização não-governamental em abril de 2003. Nenhum dos sócios-fundadores seria remunerado e ainda contribuiriam com um donativo mensal em dinheiro para que as contas fechassem. O nome Reação foi escolhido pelo próprio medalhista:

“Reação tem a ver com tudo que a gente pretendia ser e fazer. É uma palavra que diz respeito a todos: parceiros, colaboradores, alunos. Faz alusão ao momento mais bonito do judô que é um esporte em que quem chega mais longe é quem se levanta mais vezes. O que pode funcionar é levantar, e isso é para o esporte e para a vida também”, explica Canto.

Hoje, o Reação atua na Rocinha, Cidade de Deus (central do projeto olímpico), Tubiacanga (Ilha do Governador), Pequena Cruzada, Deodoro e no Departamento Geral de Ações Socioeducativas, Degase, também na Ilha. A Rocinha é uma espécie de polo-modelo, onde funcionam os três braços instituto: o Reação Olímpico para atletas de alta performance, o Reação Escola de Judô e o Reação Educação.

O Projeto Escola de Judô e o Programa Educação são complementares. Os alunos podem entrar na escola a partir dos 4 anos e, na teoria, ficam até 17, 18 anos. Mas muitos vão ficando, se agregando de outras formas ao projeto, como professores, monitores, ou participando de aulas mais avançadas ou, no caso da Rocinha, de turmas de jiu-jitsu, justamente criadas para abrigar quem já chegou à faixa preta do judô e quer continuar treinando.Os grupos são divididos por faixa etária e, para os mais jovens, a grande virada pode vir aos 11 anos, quando há uma seleção para a pré-equipe olímpica, onde os escolhidos passam a ter treinamento para a elite do esporte.

O Reação Educação segue um projeto pedagógico baseado nos valores que regem o programa como um todo – como solidariedade, humildade e determinação – que são abordados em oficinas, a partir de questões ligadas a cidadania, meio ambiente, arte/cultura, corpo/movimento. No fim do ano, para a troca de faixas, todos os alunos são incentivados a fazer uma redação.

“A proposta é que eles não evoluam apenas nos golpes do judô, mas também nos valores, daí a ideia da redação, que faz com que eles realmente pensem naquilo que os professores falam em todas as aulas”, explica Maria Cecília Canto, conhecida como Cilinha, mãe de Flávio e voluntária no Reação desde o início. É ela quem corrige todas as redações, sem, contudo, se preocupar exageradamente com o português. “O mais importante é que eles escrevam.”

Outro importante braço do Reação Educação são as bolsas de estudos em colégios particulares parceiros e também na Universidade Estácio de Sá, onde há 20 atletas estudando sem pagar mensalidade. Hoje são cerca de 40 beneficiados por bolsas e que também contam com um time de 30 padrinhos, responsáveis pela ajuda no transporte, compra de material e eventuais despesas que surgem no cotidiano de uma escola.

Adriele da Penha Ribeiro, de 14 anos, é um exemplo perfeito do trabalho de Cilinha na busca da escola mais adequada para os alunos do Reação. No fim de 2014, para marcar sua troca de faixa, a garota – moradora da Rocinha, filha de mãe costureira e pai eletricista – fez uma redação sobre solidariedade que chamou a atenção. No ano seguinte, a jovem deixou  a Escola Municipal Menezes Côrtes, na Freguesia, para estudar num colégio particular, a Escola Mater, em São Conrado, parceira fiel do Reação. Vendo que já no primeiro ano na escola nova, Adriele se saiu muito bem, Cilinha conseguiu uma vaga para ela no Instituto de Tecnologia Ort, escola técnica judaica de alto padrão em Botafogo.

Adriele se destacou no projeto educativo do Reação e sonha estudar Medicina
Adriele se destacou no projeto educativo do Reação e sonha estudar Medicina

“A grande vantagem é que o ensino técnico da Ort é muito bom, é um colégio requintado, que me recebeu muito bem. É puxado mas vou dando conta com a ajuda do reforço no Reação. Agora  tenho chance de expandir meus conhecimentos e conseguir uma vaga numa faculdade de medicina”, diz Adriele, referindo-se às aulas de reforço ministradas por voluntários de universidades como a PUC e a UFRJ para os participantes do Reação.

A proposta é canalizar o ímpeto e a coragem que eles têm para o bem, diminuindo o estresse e o tempo que ficam nas celas sem fazer nada, e ainda fomentar a vontade de eles continuarem praticando o judô ao saírem do Degase, mostrando a carreira como uma opção de vida

Eduardo Henrique Soares, o Duda
Coordenador da Escola de Judô, Instituto Reação

O trabalho  hoje envolve cerca de 50 funcionários remunerados e muitos voluntários. Em termos de alto rendimento, o Reação é o primeiro no ranking do judô no Rio de Janeiro, com 346 medalhas só em 2015 e  o primeiro título mundial da história do judô feminino para o Brasil foi conquistado por Rafaela Silva em 2013.

A proposta do Reação ganhou novos sentidos em fevereiro deste ano, quando o projeto passou a atuar também no  Degase  (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), na Ilha do Governador. O instituto oferece aulas para seis turmas de 20 internos e uma turma de 20 agentes penitenciários. O próprio Duda, que é coordenador da Escola de Judô, está dando aula, para entender a melhor forma de se aproximar e de formar estes jovens donos de histórias de vida tão complexas.

“A proposta é canalizar o ímpeto e a coragem que eles têm para o bem, diminuindo o estresse e o tempo que ficam nas celas sem fazer nada, e ainda fomentar a vontade de eles continuarem praticando o judô ao saírem do Degase, mostrando a carreira como uma opção de vida”, diz Duda, explicando que, após saírem da instituição, os adolescentes têm a oportunidade de seguir treinando nos outros polos do Reação. “Nestes três meses, fomos procurados por um ex-aluno, o que já é excelente”, explica.

O Reação sobrevive com doações e patrocínio. Para o Programa Olímpico, que de longe é o mais custoso, eles conseguiram o direito de captar até R$ 2,7 milhões em 2016 através da Lei de Incentivo ao Esporte. Mas, apesar dos muitos apoios de empresas a meta está longe de ser alcançada. Por isso, todo apoio sempre é bem-vindo.

Adriana Pavlova

Trabalhou durante 13 anos no jornal O Globo, de onde saiu em 2005 para morar em São Paulo. Foi setorista de dança na Folha de S. Paulo de 2007 a 2010 e colaborou regularmente com as revistas Época São Paulo e Exame. De volta ao Rio, é crítica de dança do Globo desde 2013. Em 2015 tornou-se mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Escola de Comunicação da UFRJ.

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