Estado tem apenas 0,4% das escolas públicas da Educação Básica com infraestrutura adequada

Reportagem
Fernanda Baldioti, do #Colabora e Kátia Brasil, da “Amazônia Real”

Infográficos
Fernando Alvarus

E. M. E. F. JOAQUIM G. PINHEIRO

70
IDEB 2017

7,0

 

47
META 2017

4,7

 

31
IDEB 2007

3,1

 

Escolas sem água filtrada, sem energia elétrica e até sem esgoto: essa é a realidade de instituições de ensino do Amazonas, estado que tem um dos piores percentuais de escolas da educação básica com infraestrutura escolar adequada, segundo o Observatório do PNE (Plano Nacional de Educação), uma plataforma formada por 27 organizações, coordenada pelo movimento Todos Pela Educação. Apenas 0,4% das instituições públicas dessa etapa escolar (que engloba educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) têm o que o Ministério da Educação (MEC) considera equipamentos ideais para um ambiente de ensino. O estado só não está em situação pior que Amapá e Maranhão, empatados com 0,3%. Em todo o país, o número também é baixo. Com base nos dados do último Censo Escolar, de 2017, viu-se que apenas 4,2% das escolas atingiram o ideal, que é ter acesso a energia elétrica, abastecimento de água tratada, esgotamento sanitário, acesso a espaços para a prática esportiva, biblioteca ou sala de leitura, acesso à internet de banda larga, equipamentos e laboratórios de ciências e acessibilidade a pessoas com deficiência. Segundo a lei federal do PNE, a meta é que, até 2024, todas as instituições de ensino do país estejam nesse padrão.

Mas é evidente que estamos bem longe disso. Das escolas públicas da educação básica do Amazonas, apenas 5,5% (280) disseram ter acesso a esgoto sanitário, de acordo com os dados do Censo, tabulados pelo Observatório do PNE. O abastecimento com água tratada contempla apenas 55,7% (2.855) das instituições, e somente 74% (3.791) têm acesso a energia elétrica.

O pesquisador Raphael Demóstenes Cardozo, mestrando da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que estuda a infraestrutura das escolas brasileiras e também tabulou os dados do Censo, considera que apenas seis escolas públicas de ensino fundamental possam ser consideradas de referência no Amazonas:

“E mesmo assim somente se não considerarmos a acessibilidade a pessoas com deficiência. Por isso, baixamos o sarrafo. Fora que, quando olhamos os dados do Censo temos acesso apenas a números quantitativos. Sabemos, por exemplo, que há computadores, mas não se eles estão defasados e até sem funcionamento”, disse Cardozo, que tendo como base 27 itens, classificou as escolas como “sem infraestrutura”, com “infraestrutura primária”, com “infraestrutura mediana” e com “infraestrutura adequada”.

A agência “Amazônia Real” parceira do #Colabora e do jornal “Correio” nesta série de reportagens que mostra o segredo das escolas campeãs em superação, esteve em duas dessas instituições de referência elencadas por Cardozo, ambas na capital amazonense. Durante a visita à Escola Municipal Professor Joaquim Gonzaga Pinheiro, localizada no bairro da Vila da Prata, a estudante Lia Vitória Castro da Silva, 11 anos, aluna do 6º ano, lia o livro “Amanhecer Esmeralda”, do autor paulista Ferréz, que conta a história de uma menina pobre e sonhadora, como tantas que moram nos bairros periféricos de Manaus. Mas em vez de folhear a obra na biblioteca, Lia conhecia o texto por meio de um dos computadores do telecentro, que tem internet banda larga, algo raro nas escolas públicas do Amazonas. De acordo com os dados do Observatório do PNE, apenas 17% (870 unidades) têm banda larga no estado.

“Adoro ler livros na internet. Aqui na escola, temos algumas janelas e ar-condicionado quebrados, mas isso não faz diferença”, avalia a menina.

E. M. E. F. JOÃO VALENTE

65
IDEB 2017

6,5

 

54
META 2017

5,4

 

39
IDEB 2007

3,9

 

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    Alunos da Joaquim Gonzaga Pinheiro estudam no telecentro, que tem internet banda larga, algo raro nas escolas públicas do Amazonas.
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    A estudante Lia Vitória Castro da Silva gosta de ler livros no telecentro da escola Joaquim Gonzaga Pinheiro (Foto: Alberto César Araújo)
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    Mas nem tudo são flores: na biblioteca da Joaquim Gonzaga Pinheiro, a escola dispõe de mais computadores, mas alguns estão danificados (Foto: Alberto César Araújo)
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    Alunos da escola João Valente durante uma aula de Matemática: escola obteve 6.5 no Ideb (Foto: Alberto César Araújo)
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    Nas paredes da escola João Valente, painéis coloridos alertam zs crianças para a preservação da floresta (Foto: Alberto César Araújo)

Na biblioteca, a escola dispõe de outros computadores, mas que estão danificados, aguardando o envio de novos pela Secretaria municipal de Educação de Manaus (Semed). Inaugurada em 1981, a escola passou por quatro reformas, segundo o diretor Fernando Antônio Castelo Branco, 59 anos. O principal gargalo atualmente, para ele, é a manutenção dos 29 aparelhos de ar-condicionado. O único recurso que a escola recebe é o repasse anual do MEC. Os R$ 6.180 são gastos na compra de equipamentos e materiais para o uso dos professores em sala de aula. Para driblar a falta de verba e arcar com pequenas despesas, como consertar uma fechadura ou o bebedouro, o diretor da escola faz parcerias com igrejas e times de futebol, alugando a quadra de esportes em troca de pequenas contribuições: cerca de R$ 10 a hora pelo uso do espaço. Bingos, exibição de filmes, venda de din din (geladinho) são outras estratégias da escola para angariar fundos.

“O gestor tem que ter vontade e atitude para resolver os problemas porque, às vezes, a torneira do bebedouro pifa e eu não vou ligar para a Secretaria (de Educação) pedindo para trocar. Esses são pequenos problemas que temos que resolver”, afirma Fernando, que há 13 anos está à frente da Joaquim Gonzaga Pinheiro e há 33 leciona no município.

Apesar das dificuldades, em oito anos, essa escola, que tem 675 alunos matriculados no ensino fundamental 1 e 2, vem crescendo significativamente no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o principal indicador de qualidade da educação básica: saltou de 3.6, em 2009, para 7.0, em 2017, nos anos iniciais (do 1º ao 5º ano) do ensino fundamental. A evolução também foi consistente nos anos finais (do 6º ao 9º ano): de 2.4, em 2009, para 5.6, em 2007.

Para Fernando, o avanço é resultado do esforço da equipe de professores, do trabalho integrado dos 48 funcionários e do apoio dos pais. Para ter um contato direto com os responsáveis pelos alunos, por exemplo, ele criou um grupo no WhatsApp.

“Assim, quebramos um muro entre gestor e pais, e a família se tornou parceira da escola”, explicou.

Também elencada por Cardozo com base nos dados do Censo como referência no estado quando o assunto é infraestrutura, a Escola Municipal João Valente, que atende a 350 alunos, tem uma pequena rampa de acessibilidade, quadra de esporte e telecentro, tudo construído na última reforma, em 2010. Mas não conta com internet. Situada no bairro da Betânia, na periferia da zona Sul de Manaus, a escola fica no entorno do Igarapé do 40, uma área considerada “vermelha” por causa do tráfico de drogas. Nas ruas próximas, há registro de furtos e assaltos a professores e alunos, mas dentro da unidade, o ambiente é limpo e bem acolhedor. Nas paredes, painéis coloridos alertam as crianças para a preservação da floresta e homenageiam os melhores alunos de 2018.

É nas turmas do 3º e 4º anos do ensino fundamental que a direção da João Valente se esforça para que, quando os alunos chegarem ao 5º ano, tenham bons resultados em português e matemática na Prova Brasil. A média escolar nessa prova é um dos componentes que entram no cálculo do Ideb. Há dez anos, a João Valente obteve 3.9 de nota no indicador. Em 2017, a média subiu para 6.5, superando e muito a meta de 5.4. Um salto que surpreende.

Gestor da escola há 13 anos, o professor Áureo Lúcio Oliveira, 56 anos, explica que a escola conseguiu melhorar no Ideb após zerar os índices de abandono escolar, que eram acima de 20%, assim como reduzir o índice de reprovação.

Segundo Áureo, faltam verbas para melhorias, já que o único recurso que a escola recebe é um repasse do MEC de, no máximo, R$ 6 mil, anualmente. Para arrecadar fundos, a opção foi fazer festas, como a Junina. Com o dinheiro angariado, foi possível consertar o bebedouro:

“Temos uma demanda há anos que é adquirir um novo bebedouro industrial, pedimos e não chegou. Temos um bebedouro, mas está muito velho, vive quebrando e não dá conta da quantidade de alunos”, diz Áureo.

Trabalhando como professor da rede pública do município há 31 anos, Áureo defende que cada escola tenha recursos próprios, descentralizados da secretaria, para o pagamento de pequenas despesas.

“Acho que não verei isso, porque devo me aposentar, mas nós temos que nivelar por cima. Por exemplo, a merenda escolar: é a escola que deveria adquirir os gêneros; isso iria criar emprego e renda no entorno, na comunidade”, afirmou o professor.

Apesar de crescerem bem no Ideb nos últimos dez anos, a infraestrutura das escolas não evoluiu tanto quanto os gestores esperavam nesse período. Para a consultora educacional Elvira Eliza França, os dados das escolas de Manaus mostram como a qualidade no ensino não depende exclusivamente dos recursos financeiros.

“É importante a criatividade e a flexibilidade dos gestores para trabalhar, de modo integrado, com a equipe, com as famílias e com a comunidade. É assim que as escolas de Manaus conseguem avançar no Ideb, demonstrando que se houvesse mais apoio oficial, os resultados poderiam ser ainda melhores”.

Coordenadora de projetos da ONG Todos pela Educação, Thaiane Pereira ressalta que uma boa infraestrutura ajuda a tornar a escola mais atrativa para o jovem, o que auxilia na redução das taxas de abandono e evasão:

“É uma questão de bem-estar dos jovens, de eles se sentirem satisfeitos naquele ambiente. Mas pesquisas mostram que, para além de uma infraestrutura mínima, não há muita diferença quanto ao impacto no desempenho do aluno”.

A assessora da Gestão Integrada da Semed, Jane Macêdo, disse que a secretaria reconhece a falta de infraestrutura das escolas de Manaus e informou que o órgão vem buscando apoio junto à prefeitura para traçar um plano diretor, especialmente com relação ao fornecimento de internet e apoio logístico às escolas:

“Nós sabemos que a infraestrutura não chega a ser o ponto fundamental, mas entendemos que ela auxilia em todo o processo de aprendizagem”, disse ela.

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Equipe responsável

 

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais “O Globo” e “Extra” e foi estagiária da rádio “CBN”. Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da “Revista Ela”, onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

Bacharel em Jornalismo e licenciada em Letras, é sergipana do interior. Trabalha como revisora e flerta com a fotografia. Curiosa vocacional, apaixonou-se pela literatura ao se deparar com o cínico anti-herói de Confissões de Narciso. Desde então, está para a escrita como o sábado, para a feira e o domingo, para a praia.

Formada pela Universidade da Amazônia (Unama), tem experiência em rádio, tv, impresso e jornalismo online. Trabalhou no jornal Diário do Pará, G1 Pará e na TV Liberal, afiliada da Rede Globo. Atualmente é repórter da agência de jornalismo independente Amazônia Real. Em 2017 ganhou o Prêmio INEP de Jornalismo (2º lugar) por uma reportagem sobre a evasão escolar.

Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalha como repórter em veículos impressos de João Pessoa desde 2011. Pautas nas áreas de Direitos Humanos, Saúde e Educação são seus focos de interesse.

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), com pós-graduação em Análise do Espaço Geográfico e em Comunicação e Marketing em Redes Sociais. É repórter do jornal Correio da Bahia e colaborador da Folha de S. Paulo, UOL e BBC News Brasil.

É estudante de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Acredita que todo bom jornalismo deve prezar pelas histórias.

É jornalista e cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real, com sede em Manaus. Além de ter trabalhado em veículos como “O Estado”, “A Gazeta”, “Amazonas Em Tempo”, na “TV Cultura”, “TV Educativa” e de ter sido correspondente de “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, foi uma das fundadoras do Sindicato dos Jornalistas de Roraima. Em 1991, ganhou o Prêmio Esso Regional Norte com a reportagem “Bandeira do Brasil Hasteada na Fronteira”. Feminista, foi um das fundadoras do coletivo partidAmazonas, que defende os direitos das mulheres na política institucional.

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