BAHIA amarga a pior posição no ranking nacional nos anos finais do Ensino Fundamental

 

Reportagem
Fernanda Baldioti, do #Colabora, Fernanda Lima e Mário Bittencourt, do “Correio da Bahia”

Infográficos
Fernando Alvarus

Escola Municipal PIRAJÁ DA SILVA

45
IDEB 2017

4,5

 

39
META 2017

3,9

 

16
IDEB 2007

1,6

 

No segundo e último andar da Escola Municipal Pirajá da Silva, em Salvador, há uma sala cheia de livros. A professora de história Margareth Ribeiro trabalha parte do tempo no anexo onde os alunos registram os empréstimos. Na mesa central do espaço, Rafael, de 13 anos, faz os cálculos do mês: leu, pelo menos, cinco livros. É de lá, da pequena sala improvisada como biblioteca em 2013, que a Pirajá da Silva e alunos como Rafael ressurgiram. A escola foi a que registrou a maior evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) na capital baiana, saltando de 1.6, em 2007, para 4.5, em 2017. O indicador do governo federal foi criado para medir a qualidade do ensino e estabelecer metas para a melhoria da educação. Na contramão da escola, o estado da Bahia, como um todo, amarga a pior posição no ranking nacional levando-se em consideração a rede total (escolas públicas e privadas) nos anos finais do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano). O índice de 3.7 obtido em 2015 se manteve neste ano, sendo que a meta era de 4.3. Analisando apenas rede pública, a Bahia empata com o Rio Grande do Norte e Sergipe na liderança do pior desempenho, com a nota 3.4.

Remando contra a maré, a Pirajá da Silva é uma das escolas que, como mostra a série especial do #Colabora em parceria com a agência “Amazônia Real” e com o jornal “Correio”, conseguem resultados surpreendentes em rankings de avaliação. Das janelas da escola baiana, a vista é o mar da Baía de Todos os Santos. No pôr do sol, a luz amarelada invade as oito salas de aula, hoje ocupadas por 513 alunos, e admira até quem está ali há anos. Por muito tempo, foi uma das poucas qualidades da instituição, margeada pela principal via do bairro, a Estrada da Liberdade. Quando chegavam aos encontros periódicos com outros professores e a Secretaria municipal de Educação, os funcionários eram recebidos entre risadinhas e desconfianças porque a imagem da escola era a pior possível.

“Até no bairro a gente estava sem credibilidade. Chegamos a ter uma turma com somente cinco alunos (hoje, a média é de 35)”, lembra a diretora da escola desde 2011, Daniela de Oliveira.

A mudança começou com a ideia de um professor e o apoio da nova direção. Mestre de Geografia, Mário César, de 48 anos, trabalha há 18 na Pirajá da Silva. Quando teve a primeira filha, Mariana, em 1999, ele e a mulher, também professora, decidiram torná-la uma grande leitora. A menina aproximou-se a tal ponto dos livros que, aos 10 anos, publicou seu primeiro título, o suspense “O boné assombrado”. Na escola, Mário começou a perceber que talvez faltassem aos alunos o que sua filha sempre teve: uma visão de futuro e de oportunidades possibilitada pela literatura. Assim nasceu o Projeto de Leitura e Escrita Pontuada, oficialmente colocado em prática por todos os professores da escola em 2013.

C. E. VILLAS BOAS MOREIRA

41
IDEB 2017

4,1

 

32
META 2017

3,2

 

11
IDEB 2007

1,1

 

Os alunos precisam ler pelo menos um livro por semestre e escrever sobre ele. A pontuação máxima é de dois pontos, que podem ser considerados por todas as dez disciplinas. Os professores, então, começaram a observar uma cena quase nunca antes vista no pátio: os alunos estavam lendo.

“Às vezes, eu me deparo com alunos lendo no recreio, e o maior barulho é a mudança de página”, emociona-se Mário.

Aliado ao projeto, surgiu a vontade de criar uma biblioteca. Somente de 2011 a 2015, os resultados começaram a se tornar visíveis: a nota do Ideb saiu de 2.1 para 4.2.

A diretora Daniela e a professora Margareth chamam dois dos alunos destacados na escola. São Rafael Vieira de Siqueira e Amanda Teles Venâncio, ambos de 13 anos. Mesmo tímidos, dizem ter consciência de como os livros modificaram suas vidas.

“Desde o ano passado (quando foi matriculado na escola), meu vocabulário vem melhorando. Eu sinto que conheço mais palavras, procuro o significado delas”, responde, o agitado Rafael.

Os pais começaram a reparar nas mudanças no menino. Sempre fora um aluno de notas altas, mas agora está mais imaginativo, cheio de opiniões e versões para tudo. “Rafael me conta tudo, consegue dialogar até sobre política”, conta a mãe, Priscila Cardoso Vieira.

Hoje, Rafael e Amanda chegam a ler até cinco livros por mês e já sabem onde a literatura pode os levar. Em 2016, uma aluna da escola foi para Portugal após vencer o Projeto Era Uma Vez, que tem por objetivo promover o diálogo entre alunos de diferentes culturas e idiomas.

Arrumando a casa

Quando assumiu a gestão, a diretora Daniela calculou uma evasão de até 30% dos estudantes. “Alguns docentes não cumpriam o cronograma. O aluno ficava ocioso. O que mudamos, na verdade, foi o básico”, relata ela.

Primeiro, sanaram a falta de professores e correram atrás dos alunos. Mudaram as peças mais urgentes. Depois, começaram a pensar os projetos. Um deles surgiu em 2012: a Feira de Ciências. Hoje, já não precisam correr atrás dos alunos como fizeram no passado, sem número suficiente de matriculados.

Gerente regional de Educação das regiões da Liberdade e Cidade Baixa, Ivone Maria Portela, 60, acompanhou todo o processo de retomada do colégio e lembra que a escola era muito conhecida pela indisciplina:

“Os professores se engajaram numa mudança. Se os docentes não comprarem a ideia, não adianta. Se não há competência para juntar as peças, não dá”.

Ernesto Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências do Debate Educacional (Iede), entidade que trabalha com dados educacionais, ressalta que fazer o professor voltar a acreditar no potencial da escola não é tarefa simples:

“Isso acontece por todas as dificuldades que ele vê, o ambiente que não joga a favor. Por isso, muitas vezes, a direção e as secretarias vão enfrentar ceticismo e resistência. Assim, é importante, principalmente no caso das secretarias, mostrar que ela está ali para dar um suporte e não para impor regras”.

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    Alunos do Colégio Vilas Boas são levados para praças, como a do Cajá, para contarem histórias dos livros que leram (Foto: Mário Bittencourt)
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    Aluna do Colégio Vilas Boas. (Foto: Mário Bittencourt)
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    Grupo Libert se apresenta durante o intervalo das aulas no Colégio Vilas Boas (Foto: Mário Bittencourt)
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    Programas governamentais, como o Mais Educação, ajudaram a elevar as notas do Vilas Boas no Ideb (Foto: Mário Bittencourt)
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    Aluna da Pirajá da Silva, Amanda chega a ler até cinco livros por mês (Foto: Almiro Lopes)
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    Alunos da Pirajá da Silva, Rafael e Amanda chegam a ler até cinco livros por mês (Foto: Almiro Lopes)

Vitória da Conquista

O avanço dos alunos do Colégio Estadual Vilas Boas Moreira, em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, também é evidente. Quem passa em frente à escola e vê a faixa que exibe com orgulho o nome de quatro alunos aprovados no Instituto Federal da Bahia (IFBa) não imagina que a unidade escolar tinha, há dez anos, uma das piores notas do estado no Ideb. Hoje, é uma das três escolas do estado que mais evoluíram no indicador nos últimos dez anos, conforme mostram dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que divulga os resultados do Ideb.

Também remando contra a maré, o Vilas Boas, onde hoje estudam 596 alunos do 5º ao 9º ano, se sobressai, o que o coloca no rumo para atingir a meta nacional no Ideb dos anos finais do ensino fundamental, que é a nota 6. Em 2007, a escola teve nota de 1.1, e nos anos seguintes passou a subir, até que em 2017 ficou 4.1.

Elevar as notas ao patamar de hoje foi possível com a implantação de programas governamentais, como o Mais Educação, do MEC, que funcionou na escola de 2010 até o ano passado. Voltado para melhorar os índices do Ideb, o projeto oferece aulas de reforço de matemática e português no turno oposto ao das disciplinas regulares. O Mais Educação deixou ao menos seis “filhos”, projetos que estão sendo tocados pela própria escola com o orçamento de R$ 35 mil anual que a unidade recebe para custear despesas. São cursos nas áreas de literatura, artes visuais, vídeos, música, educação patrimonial e artística e dança.

“Essas atividades fazem com que o aluno goste da escola”, afirmou a professora de Português Juliane Sousa Porto, que, desde 2005, leciona no Vilas Boas e acompanhou a evolução não só do Ideb, mas do interesse dos seus alunos.

Os projetos têm atraído até alunos de outras escolas. Na quinta-feira em que o “Correio da Bahia” visitou a escola, o intervalo dos alunos da manhã foi animado pelo Grupo Libert, de estudantes do Centro Integrado de Educação Navarro de Brito.

“Soubemos do projeto de dança que tem aqui e pedimos para nos apresentar”, contou Bruna Lisboa, de 19 anos, uma das integrantes do grupo.

Já no projeto de Literatura quem passeia são os estudantes do Vilas Boas, que vão a praças da cidade, como a do Cajá. Lá, com livros debaixo do braço, eles contam o que entenderam da leitura.

“Fazemos isso quase todo mês, como forma também de avaliar a oralidade deles, a interpretação de texto, e para estimular a criação de uma visão crítica”, afirmou a professora de português Elta Cristina Araújo Xavier, que, depois da leitura, ainda promove um piquenique.

Evolução

Ex-aluno da escola, o hoje estudante de Informática do IFBa Jamersom Carvalho Silva, de 16 anos, conta que esses projetos e a realização na escola de provas simuladas o ajudaram a ser aprovado no IFBa, sonho de muitos estudantes de escolas públicas.

“As aulas de português tinham várias atividades de redação, o que nos ajudou muito, e ainda vieram reforços de geografia, história…”

Fundamental também para o desenvolvimento dessas e outras atividades na escola tem sido a participação dos pais, que ocorre por meio de um colegiado, no qual são decididas, dentre outras coisas, onde será gasta a verba que o colégio recebe. A qualidade do ensino tem chamado atenção de pais de alunos de outras regiões da cidade:

“Tem gente aqui até do Pradoso (um distrito de Vitória da Conquista), sem falar de outros bairros mais distantes dentro da cidade. São poucos que moram no bairro do colégio”, afirmou a vice-diretora Fernanda Lacerda, uma das 23 professoras da escola.

Ela ensina geografia e está fazendo mestrado na área para se qualificar mais.

“Há outra professora que está fazendo mestrado em Letras e Linguagem, tem outras duas que saíram para fazer mestrado também, e todos os outros professores possuem ao menos especialização”, afirmou.

“A capacitação é algo que estamos sempre buscando aqui, seja com cursos de pós-graduação ou outra graduação. Acho que isso, aliado à força de vontade e ao interesse em trabalhar com os alunos e a comunidade faz com que tenhamos melhorias não só no aprendizado do aluno, mas também na nossa forma de ensinar”, disse.

A nota dos colégios baianos no Ideb é avaliada pelo subsecretário de Educação do estado, Nildon Pitombo, em duas vertentes: o problema crônico do Brasil na questão do ensino e a metodologia do Ministério da Educação para chegar aos resultados finais. Tanto é que, quando souberam dos números, imediatamente manifestaram insatisfação – validada pelo conselho dos secretários de educação dos estados do Nordeste. O pleito é para que os métodos mudem.

“A aferição deveria incluir os estudantes com 80% de frequência, considerou-se com 50%. Achamos uma aferição mal feita”, diz.

Mas a secretaria afirma já ter na prática alguns projetos para reverter o caos na educação baiana. É o caso do e-nova, criado, em 2017. A intenção é, por meio de um convênio com o Google, incentivar, por exemplo, o desenvolvimento de aplicativos que ajudem o aprendizado. Na Bahia, 20 colégios estão na fase piloto do e-nova.

“Na verdade, partimos para ampliar um conceito: que é a melhoria do efeito escola. Fazer com que a escola construa sentido. O jovem precisa ver isso. É uma mudança de metodologia que indica o esforço para fazer o planejamento cotidiano. Esse nosso esforço não é pelo Ideb, mas sim pelo estudante”, afirma Pitombo.

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Equipe responsável

 

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais “O Globo” e “Extra” e foi estagiária da rádio “CBN”. Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da “Revista Ela”, onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

Bacharel em Jornalismo e licenciada em Letras, é sergipana do interior. Trabalha como revisora e flerta com a fotografia. Curiosa vocacional, apaixonou-se pela literatura ao se deparar com o cínico anti-herói de Confissões de Narciso. Desde então, está para a escrita como o sábado, para a feira e o domingo, para a praia.

Tem 33 anos e é mãe do Rafael, de um ano. Formada em jornalismo pela Universidade da Amazônia (Unama) e tem experiência em rádio, tv, impresso e jornalismo online. Em Belém, trabalhou no jornal Diário do Pará, G1 Pará e na TV Liberal, afiliada da Rede Globo. Atualmente colabora com o Amazônia Real.

Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalha como repórter em veículos impressos de João Pessoa desde 2011. Pautas nas áreas de Direitos Humanos, Saúde e Educação são seus focos de interesse.

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), com pós-graduação em Análise do Espaço Geográfico e em Comunicação e Marketing em Redes Sociais. É repórter do jornal Correio da Bahia e colaborador da Folha de S. Paulo, UOL e BBC News Brasil.

É estudante de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Acredita que todo bom jornalismo deve prezar pelas histórias.

É jornalista e cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real, com sede em Manaus. Além de ter trabalhado em veículos como “O Estado”, “A Gazeta”, “Amazonas Em Tempo”, na “TV Cultura”, “TV Educativa” e de ter sido correspondente de “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, foi uma das fundadoras do Sindicato dos Jornalistas de Roraima. Em 1991, ganhou o Prêmio Esso Regional Norte com a reportagem “Bandeira do Brasil Hasteada na Fronteira”. Feminista, foi um das fundadoras do coletivo partidAmazonas, que defende os direitos das mulheres na política institucional.

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