Na cidade mais pobre do país, família vive com menos de R$ 2,5 por dia

 

Reportagem: Adriana Barsotti

Imagens e Vídeos: Yuri Fernandes

Design: Raquel Cordeiro

Indicadores da vulnerabilidade social

8
8,7% de crianças de 6 a 14 anos fora da escola
41
41% de pessoas de 15 a 24 anos que nem estudam nem trabalham
6
6,7% de mulheres de 10 a 17 anos que tiveram filhos
42
42,5% de mães chefes de família sem fundamental e com filho (s) menor (es), do total de mães chefes de família
6
6,4% de vulneráveis e dependentes de idosos
67
67% de crianças extremamente pobres
91
91% vulneráveis à pobreza
14
13,9% da população com banheiro e água encanada

No Rio de Janeiro, a diária de uma faxineira pode variar de R$ 150 a R$ 200. Em Marajá do Sena, município maranhense com a pior renda no Brasil, R$ 200 é o que a dona de casa Eva Gonçalves da Silva, de 37 anos, ganha por mês lavando roupa para fora. Mãe de três filhos, de 6, 9 e 15 anos, ela vive de bicos, assim como o marido, que cava poços artesianos e “trabalha na juquira”. Juquira é o mato que cresce no campo e que é capinado para o gado pastar. Nenhum dos dois jamais teve emprego. A única renda mensal são os R$ 165 que ganham de Bolsa-Família pelos três filhos matriculados na escola.

“Em alguns meses, só conseguimos R$ 200 extras. Só dá mesmo para comprar a comida”, conta Eva. Nesses meses, a renda mensal per capita na família representa R$ 72 mensais, abaixo dos R$ 96,25 registrados em média no município, ou R$ 2,4 por dia. O valor é menor que o recorte da linha de pobreza extrema internacional calculada pelo Banco Mundial a partir dos indicadores dos 15 países mais pobres do mundo: US$ 1,90 ou R$ 5,7 por dia. Em 2013, havia 767 milhões de pessoas na pobreza extrema, segundo a ONU. A família de Eva está entre elas. Os filhos dela estão entre as 67% de crianças extremamente pobres do município. Marajá do Sena foi visitada pelo #Colabora como um dos extremos do Brasil para uma série de reportagens.

A situação dos Gonçalves da Silva só não é pior graças à ajuda dos pais de Eva, João Miranda da Silva e Maria Gonçalves da Silva, de 65 anos. Aposentados, eles não hesitam em ajudar os cinco filhos, 17 netos e 11 bisnetos. Era na casa deles que Eva estava com os filhos almoçando quando a reportagem do #Colabora chegou. Gentilmente, eles nos convidaram para o almoço. Recusamos para evitar uma divisão ainda maior do pouco que tinham. Comiam frango, feijão e farinha e assistiam à televisão na casa de pau a pique de apenas dois cômodos em uma rua de terra batida. “Não comemos verduras. Carne e frango, só de vez em quando”, diz Eva. Ela conta que o preço do quilo da carne é R$ 12. Faço as contas: se a família comesse um quilo de carne por dia, teria de desembolsar R$ 360 dos R$ 565 mensais, valor máximo que os Gonçalves da Silva conseguem ganhar quando são contratados para todos os bicos que se concretizam. Eva está apreensiva porque tinha duas clientes fixas: a mulher do prefeito e a mulher do ex-prefeito. Mas a primeira comprou uma máquina de lavar e dispensou seus serviços.

Pergunto se a família tem banheiro e eles nos levam até o quintal da casa, onde havia um vaso sanitário sem descarga, cercado por paredes de tijolos aparentes, sem teto, e oculto por uma cortina de pano. Em Marajá do Sena, apenas 13,9% da população têm banheiro e água encanada. “Não tivemos dinheiro para terminar”, explica João, descendente de índios. Também nos fundos da casa está o poço, que fica destampado, e onde notam-se impurezas na superfície. Pergunto se filtram ou fervem a água para beber. “A gente coa”, conta João, descartando as duas alternativas e acrescentando que não tiveram dinheiro para comprar o filtro. Sugiro que passem a ferver a água, mesmo que consuma mais gás, para evitarem doenças. Eles nos mostram as garrafas de água coadas na geladeira e não posso deixar de notar que só há mesmo água no refrigerador da casa.

Quem pode gastar com cabeleireiro?

No município com a pior renda per capita do país, apenas 11,5% das ruas são pavimentadas. Na rua principal, constatamos alguns valões e sentimos o cheiro de esgoto. Na praça principal, entramos no Centro de Saúde Afonso Cordeiro, onde lê-se “O poder é do povo”. Do mau cheiro da rua, passamos a exalar desinfetante no ar. Uma das funcionárias está fazendo a faxina com  capricho. Todos estão uniformizados, nos recebem bem, mas só aceitam conversar se não forem identificados. Um dos técnicos em enfermagem traça um diagnóstico com fluência e propriedade: o município é predominantemente rural, não têm empresas e é de difícil acesso. Os poucos comerciantes locais não teriam lucro suficiente para contratar empregados. Agradeço e, antes de sair, peço para usar o banheiro. Eles se entreolham como se algo tivesse saído fora do script, mas me levam até o sanitário da emergência. De novo, me surpreendo com a limpeza. A preocupação deles, conforme observariam, era que não houvesse papel higiênico no primeiro banheiro, que ainda estava sendo faxinado.

Na cidade devastada pela pobreza extrema, é surpreendente notar a existência de dois salões de beleza, pelo menos três lojas de roupas, uma locadora de DVDs e uma pousada. Marajá do Sena tem uma população estimada de 7.604 habitantes, mas 85,62% deles moram na zona rural. Quem, afinal, tem dinheiro para frequentar cabeleireiro na cidade mais pobre do Brasil? Os funcionários públicos e os aposentados, aponta o secretário de Administração, Elivando Pessoa Lima. No município, há 420 funcionários efetivos e comissionados, segundo a Secretaria de Administração ou 5,5% da população. Como não há banco nem caixa eletrônico, Lima se queixa que a maior parte do salário dos funcionários é gasto no município vizinho, Paulo Ramos, onde recebem.

Na praça central da cidade, uma ampla tenda de roupas itinerante, com peças masculinas, femininas e infantis, também nos intriga. É a primeira vez do vendedor ambulante Robson Teixeira Mendes em Marajá do Sena. Junto com uma equipe de três vendedores, ele costuma viajar por todo o estado, ficando dois dias em cada cidade. Pergunto se sabia que Marajá do Sena era a cidade mais pobre do país em renda: “Fiquei sabendo antes de vir para cá, mas viria mesmo assim”, garante. Não é à toa. São 14h e ele comemora os resultados: “Vendi R$ 2 mil”. Parte da venda, explica ele, foi garantida pelos próprios lojistas da cidade, que compraram as roupas para revenderem por estarem mais baratas, revela Robson. Na tenda, a promoção que mais atraía clientes era seis calcinhas por R$ 10.

  • Maraja
    Mosaico na fachada de uma das casas de Marajá do Sena
  • família da Eva
    Eva com os pais, João Miranda e Maria, e a filha de 9 anos
  • Maraja3
    Sede da prefeitura de Marajá do Sena
  • Maraja4
    Locadora de DVDs em Marajá do Sena: cidade tem também salões de beleza
  • raimunda
    Raimunda Barbosa da Silva aluga um cômodo da sua casa para uma funerária
  • Maraja6
    Valão a céu aberto em rua de Marajá do Sena
  • Maraja10
    Casas de tijolo construídas em Novo Marajá do Sena, dentro do programa Mais IDH
  • Maraja11
    A fachada da escola recém-concluída no bairro Novo Marajá do Sena
  • ambulante
    Robson Mendes: ambulante montou tenda temporária de roupas na cidade
  • Maraja14
    Caminho para Marajá do Sena também tem sua beleza
  • Maraja16
    Moradia precária em Marajá do Sena: 60,72% da população são extremamente pobres
  • Maraja18
    Cena urbana em Paulo Ramos: município mais próximo de Marajá do Sena

Entre as interessadas nas peças, estava Antonia Cavalcante César, de 52 anos, que cria gado junto com o marido e dois de seus quatro filhos. “A cara de Marajá do Sena é a cara da pobreza. Aqui não tem uma indústria, é só criação de gado. Quem não tem gado vive de Bolsa Família”, afirma ela. “Só quem ganha mais de um salário-mínimo são os professores e os aposentados”, acrescenta. Um de seus filhos é professor do município. Ele está entre os 2% da população que declararam ter emprego formal pelo último Censo do IBGE (2010).

Antonia conta que sua renda familiar é de R$ 2 mil. Eles vendem o gado vivo, por R$ 8 o quilo. “Só dá mesmo para escapar”, comenta. Como são 6 pessoas em sua casa, a renda mensal per capita da família é R$ 333, a terça parte do salário mínimo, Porém, o valor é mais do que o triplo da renda média de Marajá do Sena. Pergunto se ela se sente uma privilegiada diante dessa informação, e ela responde singelamente: “Sim”. Entretanto, Antônia está longe de evocar a “fazendeira” que criamos no nosso imaginário no dia a dia. Fomos até sua casa, feita de alvenaria e pintada de verde. Na sala, nenhum sinal de ostentação. Há um sofá de dois lugares, uma cadeira e uma TV de tela plana, mas o ambiente é modesto. Ela conta que ela e o marido já colocaram as terras à venda, mas não houve comprador.

Não comemos verduras. Carne e frango, só de vez em quando

Eva Gonçalves da Silva

Fiquei sabendo antes de vir para cá que Marajá do Sena era a cidade mais pobre do país, mas viria mesmo assim

Robson Teixeira Mendes

Na terra de ninguém, passamos por um cemitério e, caminhando mais uns 20 metros, avistamos uma funerária. Na janela, uma criança vai chamar o responsável. Chega Raimunda Barbosa da Silva, de 44 anos, dona da casa e que aluga por R$ 150 o ponto para o dono do estabelecimento. A funerária funciona em um dos cômodos da casa dela. Além do aluguel, o dono do estabelecimento paga por melhorias na moradia. “Morre muita gente aqui em Marajá do Sena”? Ela abre um sorriso largo e responde: “É pouca gente que morre, graças a Deus”. A percepção de Raimunda é somente em parte confirmada pelas estatísticas. No município, a esperança de vida ao nascer era de 71, 4 anos em 2010, dois a menos que a média brasileira no mesmo ano. Mas a mortalidade infantil era mais baixa que a média do país à época: 25% contra 29,7% (em 2015, já tinha baixado para 13,8% no país)

Raimunda está entre os 50,9% de adultos com fundamental incompleto e analfabetos do município. “Só aprendi a fazer meu nome”. Mãe de quatro filhas, ela se orgulha ao afirmar que a caçula está cursando o oitavo ano do ensino fundamental. “Ela é muito boa na escola”, diz. A família recebe Bolsa Família apenas por ela. As outras três já não estão mais na escola. A mais velha, conta, tem 33. “Então você teve filho com 11?” Ela corrige e diz que foi com 14, o que elevaria a sua idade em três anos. A marcação da passagem do tempo parece ser relativa para quem tem um dia igual ao outro. Mais cedo, perguntara a uma criança de uns 5 anos qual era a sua idade e ela me respondera: “Não sei”.

Vivemos da roça. Nem eu nem minhas filhas nunca tivemos emprego fixo

Raimunda Barbosa da Silva

 

A família Barbosa da Silva sobrevive com menos de R$ 700 por mês. O marido, conta ela, “trabalha na juquira”, ou seja, capinando o mato nas pastagens, por R$ 45 a diária. Mas o trabalho é eventual. Fora o Bolsa Família, os R$ 150 de aluguel e os bicos, eles plantam milho, feijão e abóbora. “Vivemos da roça. Nem eu nem minhas filhas nunca tivemos emprego fixo”, afirma Raimunda. “Só conseguimos mesmo o suficiente para comer”, afirma.

Nem tudo parece estar perdido. Antes de chegarmos à Marajá do Sena e descermos a derradeira ladeira de terra que torna o município praticamente inacessível, conhecemos Novo Marajá do Sena. O bairro, retrato do descaso da administração Roseana Sarney, onde veem-se as ruínas abandonadas do que um dia seria um hospital, começa a ser revigorado com a construção de habitações populares, de alvenaria, uma escola com seis salas de aula e um poço artesiano. O vigia do posto de saúde Cláudio Firmo da Costa, de 46 anos, nos acompanha até as vigas que dariam origem ao hospital, hoje cobertas pelo mato, e, em seguida, até a escola Sérgio Dutra Reis, que seria inaugurada no dia seguinte. Passamos pelas novas casas, já prontas e numeradas. O conjunto de melhorias faz parte do programa Mais IDH, do atual governo, sob a gestão de Flávio Dino, do PC do B. O objetivo é investir nos 30 municípios com o pior IDH do estado.

“A vantagem é que não temos violência aqui e todo mundo se conhece”, afirma o funcionário público, pai de dois filhos. De noite, ele trabalha no posto e, de dia, na roça que mantém com a mulher, onde plantam arroz, feijão e milho. Cláudio está na faixa da população considerada privilegiada diante da miséria em torno. Na prefeitura, ganha um salário mínimo. Entretanto, nem ele escapa do apartheid digital e transita entre os 64% da população brasileira com acesso à internet e os 36% sem. Explica-se: “Desse lado da rua, pega a internet. Do outro lado, onde fica a minha casa, não”.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *