Por Adriana Barsotti | ods1 • Publicada em 11 de junho de 2018 - 15:20 • Atualizada em 29 de abril de 2020 - 14:04

Extremos do Brasil

Reportagem: Adriana BarsottiImagens e Vídeos: Yuri FernandesDesign: Raquel Cordeiro

Por Adriana Barsotti | ods1 • Publicada em 11 de junho de 2018 - 15:20 • Atualizada em 29 de abril de 2020 - 14:04

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Uma distância de 3.326 km separa Marajá do Sena, no Maranhão, de Rio Fortuna, em Santa Catarina. Os dois municípios têm pouco em comum, além da referência à fartura em seus nomes. As duas cidades estão situadas, respectivamente, nos estados com o maior e o menor número de pobres no país, de acordo com a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais 2017, do IBGE. No Maranhão, mais da metade da população (52,4%) vive com menos de US$ 5,5 dólares por dia (o equivalente a R$ 16,50). No extremo oposto, está Santa Catarina, com menos de 10% recebendo esse valor (9,4%). No município catarinense, a renda média per capita é 16 vezes maior que no maranhense. No primeiro, vive-se com R$ 1.570,51 por mês. No segundo, vive-se, ou melhor, sobrevive-se com R$ 96,25 mensais.

Rio Fortuna

9
9,4% vivem com menos de US$ 5,5 dólares por dia

Marajá do Sena

52
52,4% vivem com menos de US$ 5,5 dólares por dia

Como é a vida nos estados com o maior e o menor número de miseráveis? O #Colabora foi até Marajá do Sena, no Maranhão, e a Florianópolis e Rio Fortuna, em Santa Catarina, para conversar com os moradores e administradores locais. Marajá do Sena é o município com a pior renda per capita do país e, consequentemente, do Maranhão. Faltava escolher o outro extremo para visitarmos. Em Santa Catarina, estado com o menor número de pobres, a cidade com maior renda é Florianópolis (R$ 1.798,12). Fomos até a capital do estado, mas decidimos incluir Rio Fortuna, o mais rico em renda familiar e o terceiro em renda per capita de Santa Catarina. De acordo com dados do Censo de 2010, última aferição disponível, as famílias viviam, em média, com R$ 5.310,87 mensais na cidade. Outro fator favoreceu a comparação entre os extremos: Marajá do Sena e Rio Fortuna têm a população predominantemente vivendo em áreas rurais

R$
4446

População do último censo

R$
8051

População do último censo

65
65,74% população rural

85
85,62% população rural

Na extremidade pobre, vive Eva Gonçalves da Silva, de 37 anos, com o marido e os três filhos, de 6,9 e 15 anos. Eles moram  numa casa de pau a pique de três cômodos, com banheiro improvisado, localizada em uma rua de terra em Marajá do Sena. Ela lava roupa para a mulher do ex-prefeito por R$ 200 mensais e recebe Bolsa-Família no valor de R$ 163 pelos três filhos matriculados na escola. O marido não tem emprego: vive de bicos, cavando poços ou capinando. Não fosse a ajuda dos pais, os aposentados João Miranda da Silva e Maria Gonçalves da Silva, ela diz que não conseguiria manter a família. “É pouco. Só dá para comprar a comida mesmo”, diz ela. Eva é maranhense e faz parte da população extremamente pobre, que sobrevive com menos de US$ 1,90 por dia (R$ 5,7), conforme revelou a pesquisa do IBGE.

No estado com o menor número de miseráveis do país, vive a família Roecker. O casal Roseli e Luiz Gonzaga, de 48 e 53 anos, com o filho Luiz Henrique, de 24 anos, são pequenos proprietários rurais e vivem da produção de leite em Rio Fortuna. A família têm 42 vacas, que garantem uma produção mensal de cinco a seis mil litros, vendidos a R$ 1,10 o litro. O faturamento gira em torno de R$ 6.500 por mês, fora o corte de eucalipto, negócio adicional tocado pelo pai. Na propriedade, são utilizadas a ordenha mecânica e a inseminação artificial. A família Roecker planta e cria o que come. Na horta, há batata, aipim, couve, laranja, pêssego e ameixa, entre outras frutas e verduras. Galinhas e gado para consumo próprio também são criados por eles. A produção diária demanda muito trabalho, explica Luiz Henrique: “Não tiramos dia de folga. Nos fins de semana, nos revezamos”.


Não tiramos dia de folga. Nos fins de semana, nos revezamos

Luiz Henrique

Vivemos de bico quando tem. Só dá para comprar a comida mesmo

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Eva Gonçalves da Silva

Os indicadores opostos são fartos nos dois municípios escolhidos para dar sentido à reportagem Extremos do Brasil. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em Rio Fortuna é 0,806, considerado muito alto (quanto mais perto de um, mais desenvolvimento). O dado leva em conta longevidade, educação e renda. O de Marajá do Sena é 0,452, muito baixo pela classificação. O número de crianças fora da escola entre 6 e 14 anos representa somente 1% em Rio Fortuna contra 8,7% em Marajá do Sena.

Entre os jovens, 41% dos que têm entre 15 e 24 anos não estudam e não trabalham no município maranhense. Em Rio Fortuna, eles são praticamente traço nas estatísticas: só 0,32% se encontram nessas condições. As famílias de Marajá do Sena recebem, no total, R$ 250 mil por mês de Bolsa Família. O dia em que chegamos era coincidentemente a data de pagamento. Uma fila se formou na porta da casa lotérica para receber os benefícios. Em Rio Fortuna, são destinados apenas R$ 4.838,00 para cadastrados no Bolsa Família. O valor é baixo porque há somente 32 famílias que se encaixam na situação de vulnerabilidade para receber o auxílio. No município, apenas quatro crianças de 6 a 15 anos não tiveram sua situação escolar reportada nos dois primeiros meses de 2018. As assistentes sociais da prefeitura citam seus nomes de cabeça tão reduzido é o número.

Pobres
0.37%
Pobres
78.23%
R$
1570

Renda per capita

R$
96

Renda per capita

86,9% população economicamente ativa ocupada
0,88% população economicamente ativa desocupada
12,2 % população economicamente inativa
47,8% população economicamente ativa ocupada
13,9% população economicamente ativa desocupada
38.3 % população economicamente inativa

Há outros tantos indicadores reveladores da distância entre as duas cidades que poderiam aqui ser listados. É fácil se deixar seduzir pelo universo caricato dos extremos. Entretanto, é possível notar algumas semelhanças, além da alusão à riqueza comum aos dois nomes dos dois  municípios. As duas cidades se resumem praticamente a duas ruas principais como se pode notar pelas fotos de abertura da reportagem. Em menos de dez minutos de carro, é possível explorar o território urbano das duas de ponta a ponta.

Em ambas, o ensino é 100% público. Seria previsível na cidade mais pobre do país, mas é surpreendente no município com a terceira maior renda de Santa Catarina (depois de Florianópolis, está o Balneário de Camboriú). Antes de se eleger prefeito, Lindomar Ballmann, que é professor de Filosofia, chegou a pensar em abrir uma creche, mas desistiu porque não há fila de espera nas creches públicas.

Em um município, faltam empregos: quem não é funcionário público em Marajá do Sena, tenta viver de bico porque as atividades econômicas são escassas. Só 2% da população têm ocupação formal. No outro, faltam empregados – ou melhor, nem se cogita a contratação deles. O perfil dos moradores de Rio Fortuna é de pequenos proprietários e produtores que vivem majoritariamente do gado leiteiro. Quando alguém precisa de reforço em sua propriedade, chama o vizinho para ajudar. Em troca, trabalha um dia para ele. A cada cem pessoas em Rio Fortuna, 30 têm emprego formal. O que poderia parecer mais um abismo entre elas, acaba sendo um denominador comum. Em nenhuma das duas existe a expectativa de se viver empregado Para conhecer as duas cidades, foram 26 horas de estrada em 7 dias de viagem.

Adriana Barsotti

É jornalista com experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Pelo Projeto #Colabora, foi vencedora do Prêmio Vladimir Herzog, em 2019, na categoria multimídia, com a série "Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil", em um pool jornalístico com a Amazônia Real e a Ponte Jornalismo. Professora Adjunta do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), na UFF, é autora dos livros “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência” e "Uma história da primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede". É colaboradora no #Colabora e acredita (muito!) no futuro da profissão. E-mail: [email protected]

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8 comentários “Extremos do Brasil

    • josé francisco a. bezerra disse:

      A sociedade brasileira é de serta forma alheia à questão da pobreza e miséria. Acredito que uma vez conscientizada é possível ser estruturado um modelo de solução do problema onde a própria população excluida pobre e miséravel pode ser a principal parte neste processo. O trabalho é complexo e depende de uma parceria com segmentos da sociedade capaz para levar isto acabo

    • josé francisco a. bezerra disse:

      A sociedade brasileira é de serta forma alheia à questão da pobreza e miséria. Acredito que uma vez conscientizada é possível ser estruturado um modelo de solução do problema onde a própria população excluida pobre e miséravel pode ser a principal parte neste processo. O trabalho é complexo e depende de uma parceria com segmentos da sociedade capaz para levar isto a cabo

  1. Paulo Roberto Valença Corrêa de Araújo disse:

    Muito boa a reportagem! Quais seriam os principais fatores geradores de “riqueza” e “pobreza” nessas cidades?

  2. Marcos disse:

    Excelente reportagem! Porém, já que a reportagem não citou o porquê desse abismo, falo eu: a cultura do povo (Santa Catarina teve uma forte colonização europeia, cujo povo é muito voltado ao trabalho, estudo e geração de riquezas).

    • Paulo disse:

      Sua ideia, então, das desigualdades sociais brasileiras é porque SC teve forte influencia europeia? Quando na verdade o racismo institucional brasileiro, inclusive é o que motiva o fato de o Sul ter recebido imigrantes recentes europeus nos séculos XIX e XX, é uma das principais pilastras que subsidiam a desigualdade no Brasil. Como o Brasil vai ser igual excluído a maior parte de mestiços e negros, que são justamente pelo menos 60% de sua população nacionalmente falando? Sua ideias são tão retrógradas que eu sou capaz até de dizer em que votou nestas últimas eleições. Sugiro estudar mais, inclusive saber a história dos Sarneys e Ditadura Militar que deixou o Maranhão neste estado. E depois, aproveita, e saiba em qual partido surgiu e se fez o Bolsonaro. Estuda, cara. Estuda!

  3. Paulo disse:

    Sua ideia, então, das desigualdades sociais brasileiras é porque SC teve forte influencia europeia? Quando na verdade o racismo institucional brasileiro, inclusive é o que motiva o fato de o Sul ter recebido imigrantes recentes europeus nos séculos XIX e XX, é uma das principais pilastras que subsidiam a desigualdade no Brasil. Como o Brasil vai ser igual excluído a maior parte de mestiços e negros, que são justamente pelo menos 60% de sua população nacionalmente falando? Sua ideias são tão retrógradas que eu sou capaz até de dizer em que votou nestas últimas eleições. Sugiro estudar mais, inclusive saber a história dos Sarneys e Ditadura Militar que deixou o Maranhão neste estado. E depois, aproveita, e saiba em qual partido surgiu e se fez o Bolsonaro. Estuda, cara. Estuda!

  4. Paulo disse:

    De qualquer forma, sou jornalista também e gostaria de parabenizar os autores dessa série de 5 reportagens sobre as desigualdades sociais brasileiras. Simplesmente incrível e uma das mais completas que eu já vi. E não foi feita por nenhum grande mídia oficial do nosso país. Porque será?

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