Extremos do Brasil

Por Adriana Barsotti | ods1 • Publicada em 11 de junho de 2018 - 15:20 • Atualizada em 10 de julho de 2018 - 19:31

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Reportagem: Adriana Barsotti

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Imagens e Vídeos: Yuri Fernandes

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Design: Raquel Cordeiro

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Rio Fortuna

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9,4% vivem com menos de US$ 5,5 dólares por dia

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Uma distância de 3.326 km separa Marajá do Sena, no Maranhão, de Rio Fortuna, em Santa Catarina. Os dois municípios têm pouco em comum, além da referência à fartura em seus nomes. As duas cidades estão situadas, respectivamente, nos estados com o maior e o menor número de pobres no país, de acordo com a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais 2017, do IBGE. No Maranhão, mais da metade da população (52,4%) vive com menos de US$ 5,5 dólares por dia (o equivalente a R$ 16,50). No extremo oposto, está Santa Catarina, com menos de 10% recebendo esse valor (9,4%). No município catarinense, a renda média per capita é 16 vezes maior que no maranhense. No primeiro, vive-se com R$ 1.570,51 por mês. No segundo, vive-se, ou melhor, sobrevive-se com R$ 96,25 mensais.

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Marajá do Sena

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52,4% vivem com menos de US$ 5,5 dólares por dia

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População do último censo

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65,74% população rural

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Como é a vida nos estados com o maior e o menor número de miseráveis? O #Colabora foi até Marajá do Sena, no Maranhão, e a Florianópolis e Rio Fortuna, em Santa Catarina, para conversar com os moradores e administradores locais. Marajá do Sena é o município com a pior renda per capita do país e, consequentemente, do Maranhão. Faltava escolher o outro extremo para visitarmos. Em Santa Catarina, estado com o menor número de pobres, a cidade com maior renda é Florianópolis (R$ 1.798,12). Fomos até a capital do estado, mas decidimos incluir Rio Fortuna, o mais rico em renda familiar e o terceiro em renda per capita de Santa Catarina. De acordo com dados do Censo de 2010, última aferição disponível, as famílias viviam, em média, com R$ 5.310,87 mensais na cidade. Outro fator favoreceu a comparação entre os extremos: Marajá do Sena e Rio Fortuna têm a população predominantemente vivendo em áreas rurais

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População do último censo

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85,62% população rural

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Não tiramos dia de folga. Nos fins de semana, nos revezamos

Luiz Henrique
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Na extremidade pobre, vive Eva Gonçalves da Silva, de 37 anos, com o marido e os três filhos, de 6,9 e 15 anos. Eles moram  numa casa de pau a pique de três cômodos, com banheiro improvisado, localizada em uma rua de terra em Marajá do Sena. Ela lava roupa para a mulher do ex-prefeito por R$ 200 mensais e recebe Bolsa-Família no valor de R$ 163 pelos três filhos matriculados na escola. O marido não tem emprego: vive de bicos, cavando poços ou capinando. Não fosse a ajuda dos pais, os aposentados João Miranda da Silva e Maria Gonçalves da Silva, ela diz que não conseguiria manter a família. “É pouco. Só dá para comprar a comida mesmo”, diz ela. Eva é maranhense e faz parte da população extremamente pobre, que sobrevive com menos de US$ 1,90 por dia (R$ 5,7), conforme revelou a pesquisa do IBGE.

No estado com o menor número de miseráveis do país, vive a família Roecker. O casal Roseli e Luiz Gonzaga, de 48 e 53 anos, com o filho Luiz Henrique, de 24 anos, são pequenos proprietários rurais e vivem da produção de leite em Rio Fortuna. A família têm 42 vacas, que garantem uma produção mensal de cinco a seis mil litros, vendidos a R$ 1,10 o litro. O faturamento gira em torno de R$ 6.500 por mês, fora o corte de eucalipto, negócio adicional tocado pelo pai. Na propriedade, são utilizadas a ordenha mecânica e a inseminação artificial. A família Roecker planta e cria o que come. Na horta, há batata, aipim, couve, laranja, pêssego e ameixa, entre outras frutas e verduras. Galinhas e gado para consumo próprio também são criados por eles. A produção diária demanda muito trabalho, explica Luiz Henrique: “Não tiramos dia de folga. Nos fins de semana, nos revezamos”.

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Vivemos de bico quando tem. Só dá para comprar a comida mesmo

Author's image
Eva Gonçalves da Silva
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Pobres

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Renda per capita

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Os indicadores opostos são fartos nos dois municípios escolhidos para dar sentido à reportagem Extremos do Brasil. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em Rio Fortuna é 0,806, considerado muito alto (quanto mais perto de um, mais desenvolvimento). O dado leva em conta longevidade, educação e renda. O de Marajá do Sena é 0,452, muito baixo pela classificação. O número de crianças fora da escola entre 6 e 14 anos representa somente 1% em Rio Fortuna contra 8,7% em Marajá do Sena.

Entre os jovens, 41% dos que têm entre 15 e 24 anos não estudam e não trabalham no município maranhense. Em Rio Fortuna, eles são praticamente traço nas estatísticas: só 0,32% se encontram nessas condições. As famílias de Marajá do Sena recebem, no total, R$ 250 mil por mês de Bolsa Família. O dia em que chegamos era coincidentemente a data de pagamento. Uma fila se formou na porta da casa lotérica para receber os benefícios. Em Rio Fortuna, são destinados apenas R$ 4.838,00 para cadastrados no Bolsa Família. O valor é baixo porque há somente 32 famílias que se encaixam na situação de vulnerabilidade para receber o auxílio. No município, apenas quatro crianças de 6 a 15 anos não tiveram sua situação escolar reportada nos dois primeiros meses de 2018. As assistentes sociais da prefeitura citam seus nomes de cabeça tão reduzido é o número.

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Pobres

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Renda per capita

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Rio Fortuna

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86,9% população economicamente ativa ocupada

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0,88% população economicamente ativa desocupada

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12,2 % população economicamente inativa

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Marajá do Sena

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47,8% população economicamente ativa ocupada

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13,9% população economicamente ativa desocupada

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38.3 % população economicamente inativa

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Há outros tantos indicadores reveladores da distância entre as duas cidades que poderiam aqui ser listados. É fácil se deixar seduzir pelo universo caricato dos extremos. Entretanto, é possível notar algumas semelhanças, além da alusão à riqueza comum aos dois nomes dos dois  municípios. As duas cidades se resumem praticamente a duas ruas principais como se pode notar pelas fotos de abertura da reportagem. Em menos de dez minutos de carro, é possível explorar o território urbano das duas de ponta a ponta.

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Em ambas, o ensino é 100% público. Seria previsível na cidade mais pobre do país, mas é surpreendente no município com a terceira maior renda de Santa Catarina (depois de Florianópolis, está o Balneário de Camboriú). Antes de se eleger prefeito, Lindomar Ballmann, que é professor de Filosofia, chegou a pensar em abrir uma creche, mas desistiu porque não há fila de espera nas creches públicas.

Em um município, faltam empregos: quem não é funcionário público em Marajá do Sena, tenta viver de bico porque as atividades econômicas são escassas. Só 2% da população têm ocupação formal. No outro, faltam empregados – ou melhor, nem se cogita a contratação deles. O perfil dos moradores de Rio Fortuna é de pequenos proprietários e produtores que vivem majoritariamente do gado leiteiro. Quando alguém precisa de reforço em sua propriedade, chama o vizinho para ajudar. Em troca, trabalha um dia para ele. A cada cem pessoas em Rio Fortuna, 30 têm emprego formal. O que poderia parecer mais um abismo entre elas, acaba sendo um denominador comum. Em nenhuma das duas existe a expectativa de se viver empregado Para conhecer as duas cidades, foram 26 horas de estrada em 7 dias de viagem.

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Leia mais

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Conheça Rio Fortuna

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Conheça Marajá do Sena

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Equipe responsável

 

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É jornalista com mais de 20 anos de experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Trocou a redação pela vida acadêmica para estudar as transformações no cenário da mídia e escreveu o livro “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência”. É doutora em Comunicação pela PUC-Rio e professora da ESPM. Acredita (muito!) no futuro da profissão.

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Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do “Bom Dia Brasil”, do “Jornal Nacional” e do “EGO”. Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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Adriana Barsotti

É jornalista com experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Pelo Projeto #Colabora, foi vencedora do Prêmio Vladimir Herzog, em 2019, na categoria multimídia, com a série "Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil", em um pool jornalístico com a Amazônia Real e a Ponte Jornalismo. Professora Adjunta do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), na UFF, é autora dos livros “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência” e "Uma história da primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede". É colaboradora no #Colabora e acredita (muito!) no futuro da profissão. E-mail: [email protected]

8 comentários “Extremos do Brasil

    • josé francisco a. bezerra disse:

      A sociedade brasileira é de serta forma alheia à questão da pobreza e miséria. Acredito que uma vez conscientizada é possível ser estruturado um modelo de solução do problema onde a própria população excluida pobre e miséravel pode ser a principal parte neste processo. O trabalho é complexo e depende de uma parceria com segmentos da sociedade capaz para levar isto acabo

    • josé francisco a. bezerra disse:

      A sociedade brasileira é de serta forma alheia à questão da pobreza e miséria. Acredito que uma vez conscientizada é possível ser estruturado um modelo de solução do problema onde a própria população excluida pobre e miséravel pode ser a principal parte neste processo. O trabalho é complexo e depende de uma parceria com segmentos da sociedade capaz para levar isto a cabo

  1. Paulo Roberto Valença Corrêa de Araújo disse:

    Muito boa a reportagem! Quais seriam os principais fatores geradores de “riqueza” e “pobreza” nessas cidades?

  2. Marcos disse:

    Excelente reportagem! Porém, já que a reportagem não citou o porquê desse abismo, falo eu: a cultura do povo (Santa Catarina teve uma forte colonização europeia, cujo povo é muito voltado ao trabalho, estudo e geração de riquezas).

    • Paulo disse:

      Sua ideia, então, das desigualdades sociais brasileiras é porque SC teve forte influencia europeia? Quando na verdade o racismo institucional brasileiro, inclusive é o que motiva o fato de o Sul ter recebido imigrantes recentes europeus nos séculos XIX e XX, é uma das principais pilastras que subsidiam a desigualdade no Brasil. Como o Brasil vai ser igual excluído a maior parte de mestiços e negros, que são justamente pelo menos 60% de sua população nacionalmente falando? Sua ideias são tão retrógradas que eu sou capaz até de dizer em que votou nestas últimas eleições. Sugiro estudar mais, inclusive saber a história dos Sarneys e Ditadura Militar que deixou o Maranhão neste estado. E depois, aproveita, e saiba em qual partido surgiu e se fez o Bolsonaro. Estuda, cara. Estuda!

  3. Paulo disse:

    Sua ideia, então, das desigualdades sociais brasileiras é porque SC teve forte influencia europeia? Quando na verdade o racismo institucional brasileiro, inclusive é o que motiva o fato de o Sul ter recebido imigrantes recentes europeus nos séculos XIX e XX, é uma das principais pilastras que subsidiam a desigualdade no Brasil. Como o Brasil vai ser igual excluído a maior parte de mestiços e negros, que são justamente pelo menos 60% de sua população nacionalmente falando? Sua ideias são tão retrógradas que eu sou capaz até de dizer em que votou nestas últimas eleições. Sugiro estudar mais, inclusive saber a história dos Sarneys e Ditadura Militar que deixou o Maranhão neste estado. E depois, aproveita, e saiba em qual partido surgiu e se fez o Bolsonaro. Estuda, cara. Estuda!

  4. Paulo disse:

    De qualquer forma, sou jornalista também e gostaria de parabenizar os autores dessa série de 5 reportagens sobre as desigualdades sociais brasileiras. Simplesmente incrível e uma das mais completas que eu já vi. E não foi feita por nenhum grande mídia oficial do nosso país. Porque será?

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