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Na ponta do lápis: pesquisas mostram poder da educação contra o crime

Quanto mais alunos nas salas de aula, menor o número de homicídios, dizem especialistas, que lamentam o abandono da proposta original dos Cieps


A força da educação contra o crime: pesquisa mostra que quanto maior o número e estudantes na escola, menor o número de homicídios.Foto: Justin Tallis/ AFP
A força da educação contra a violência: para cada 1% a mais de jovens nas salas de aula, há uma queda de 2% no índice de homicídios. Foto: Justin Tallis/ AFP

“A educação é a melhor e a mais forte arma contra a violência”. A frase é do economista Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em estudo realizado em 2016, o pesquisador constatou que, para cada 1% a mais de jovens entre 15 e 17 anos dentro da escola, há uma diminuição de 2% no índice de homicídios. A pesquisa, que analisou a relação entre o número de homicídios e a qualidade das escolas localizadas em 81 municípios brasileiros, aponta a educação como a principal política social de redução dos assassinatos.

O Estado é o primeiro a investir na cidade partida. Exatamente onde há a maior concentração de homicídios, temos os piores recursos. É uma parcela da população entregue à própria sorte

Daniel Cerqueira
Pesquisador do Ipea

– Não se pode pensar em resolver o problema do crime apenas prendendo e botando mais armas na rua. Na verdade, é preciso investir na criança para que não seja o bandido de amanhã – diz o pesquisador.

De acordo com Daniel, a escola de qualidade é o melhor método de prevenção à violência. Frisa, porém, que é necessário pensar sobre qual escola e que tipo de educação seria preciso ser implantada no país para efetivamente formar cidadãos.

– O Estado é o primeiro a investir na cidade partida. Exatamente onde há a maior concentração de homicídios, temos os piores recursos. É uma parcela da população entregue à própria sorte. São os mais pobres e com as escolas mais precárias. Temos que pensar num modelo de escola que encante os estudantes. Onde não haja tão somente a “decoreba” de matemática e português. Precisamos de uma escola onde os alunos se envolvam com a cultura e gostem de estar.

Os resultados do estudo indicaram que políticas públicas na área de educação podem ser usadas como forma de combater a violência a médio e longo prazos

Kalica Léia
Professora

Em outro estudo, a professora Kalica Léia Becker chegou a conclusões muito semelhantes. Na tese de doutoramento na USP, ela fez uma pesquisa relacionando violência e investimento público em educação. Resultado: para cada 1% a mais de recursos direcionados à educação, o índice de criminalidade cairia cerca de 0,1%.

De forma geral, os resultados do estudo indicaram que políticas públicas na área de educação podem ser usadas como forma de combater a violência a médio e longo prazos e, para isso, é necessário que a escola funcione como um espaço para desenvolver conhecimento, habilidades e noções de ética e civilidade – afirma Kalica.

Cieps: o sonho acabou

Há 35 anos, o antropólogo e então vice-governador do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, colocou a educação no centro de um debate nacional ao propor um revolucionário modelo com os Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps. A ideia era seguir a proposta de Anísio Teixeira, considerado o principal idealizador da educação pública no Brasil, oferecendo uma escola de tempo integral e que mesclasse o currículo tradicional juntamente com arte, cultura, assistência médica e psicológica.

Deixaram morrer tudo. Educação, saúde, moradia, transportes…. Como querer discutir a violência assim?

Ana Chrystina Mignot
Professora da Faculdade de Educação da Uerj

– Não sabemos quais seriam os resultados. Não temos dados suficientes para fazer uma avaliação. Mas, com certeza, nunca mais tivemos um projeto tão amplo sobre Educação. Deixaram morrer tudo. Educação, saúde, moradia, transportes…. Como querer discutir a violência assim? – indaga Ana Chrystina Mignot, professora da Faculdade de Educação da Uerj, que fez diversos trabalhos sobre Educação Integral, incluindo a implantação dos Cieps.

O balanço que faço da educação pública hoje, infelizmente, é melancólico. A escola pública deixou de cumprir o seu papel. As raras exceções são fruto de uma luta pessoal

Lia Faria
Professora

Lia Faria, também professora e coordenadora pedagógica nos dois Programas Especiais de Educação (PEEs) criados por Leonel Brizola, não tem sombra de dúvida de que a realidade poderia ser bem diferente se o projeto dos Cieps tivesse sido mantido em seu desenho original.

– Com certeza teríamos uma desigualdade muito menor e não estaríamos assistindo a essas cenas de violência diárias. Muitos jovens – principalmente negros e pobres – não teriam sido assassinados. O balanço que faço da educação pública hoje, infelizmente, é melancólico. A escola pública deixou de cumprir o seu papel. As raras exceções são fruto de uma luta pessoal – afirma.

O professor e pesquisador Daniel Cerqueira segue uma linha de raciocínio semelhante. E afirma que ainda há tempo suficiente para reverter os números sombrios sobre educação e violência no país. Com o aumento efetivo de investimentos na educação, ele acredita que alguns efeitos, entre eles a redução dos índices de criminalidade, poderiam ser aferidos em curto prazo.

Em outro estudo, realizado com base nos dados nos censos desde 1980 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cerqueira e outros pesquisadores verificaram que existe uma concentração de quase 50% dos homicídios em cerca de dois por cento dos municípios do país.

– Ainda descobrimos que a metade desses crimes ocorre em menos de 10% dos bairros de cada município. Assim, é viável que ações bem direcionadas tenham um efeito a curto prazo. Precisamos usar os recursos de forma inteligente.

E como “forma inteligente”, o pesquisador enfatiza o investimento em educação, com treinamento específico para professores, espaços adequados nas escolas, integração com a realidade das comunidades, cultura, arte e, sim, em horário integral.

Lápis formam o símbolo da paz: precisa desenhar? Foto: Frank May/AFP
Lápis formam o símbolo da paz: precisa desenhar? Foto: Frank May/AFP

Na verdade, a visão de Daniel Cerqueira se assemelha em muito ao projeto original de Darcy Ribeiro, de 35 anos atrás, para os Cieps do Rio de Janeiro.

Num dado momento, tanto o pesquisador do Ipea quanto a antiga coordenadora pedagógica dos Programas Especiais de Educação, Lia Faria, mencionam a mesma frase dita pelo antropólogo em 1982: “Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

Outro levantamento, divulgado pela presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, também presidente do Conselho Nacional de Justiça, revela que um preso custa ao estado 13 vezes mais que um estudante: em média, R$ 2,4 mil por mês, enquanto um estudante de ensino médio custa, atualmente, R$ 2,2 mil por ano.

Ainda sobre o presente, Lia Faria, professora da Uerj, que há 54 anos está dentro de uma sala de aula, volta a relacionar educação e criminalidade:

– Hoje, parece haver um pacto pela mediocridade. Apenas armas não vão resolver. Não é possível somente a repressão. Temos que ter prevenção. Um novo professor, bem preparado e valorizado.


Escrito por Edgar Arruda

Edgar Arruda

É jornalista há mais de 30 anos. Exerceu diferentes funções na área: foi repórter do Globo, onde também atuou como chefe de reportagem. Como repórter de O Dia ganhou o primeiro dos três prêmios Esso da carreira. Fora das redações, foi assessor de imprensa em campanhas políticas, centrais sindicais e no Governo do Estado do Rio de Janeiro.

1 posts

2 Comentários

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  1. Excelente matéria para lembrar a população e aos governantes que o modelo de escola já havia sido desenhado. Para um governante bem intencionado é só fazer cumprir.
    Esse é um tema que deve ser mantido para que mais gente conheça e possa engrossar a luta pela educação.
    Claudia Lessa

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