Educação: arma contra o crime

Instituto Vida Real

Por Wilson Aquino | Mapa das ONGsODS 10 • Publicada em 19 de maio de 2016 - 08:00 • Atualizada em 3 de setembro de 2017 - 01:22

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Tião, presidente da ONG, e os livros do Instituto Vida Real
A biblioteca comandada por Tião tem quatro mil títulos

“Desce na passarela 9 da Avenida Brasil, entra na Rua Teixeira Ribeiro, depois do ponto do moto táxi, tem uma loteria, do lado, uma loja de móveis. A gente fica no sobrado em cima”. É assim que o presidente do Instituto Vida Real, Sebastião Antonio de Araújo, o Tião, ensina o caminho da ONG. O endereço é na Favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, um conglomerado com 23 conjuntos e comunidades, onde vivem 130 mil pessoas, sendo que 25% dessa população são de jovens com, no máximo, 14 anos, de acordo com o Instituto Pereira Passos (IPP), da Prefeitura do Rio.

Ali a vida real é cruel. Além dos problemas de saneamento, o território é fatiado por várias facções do tráfico, que, volta e meia, entram em conflito no meio da rua. Sem falar nas rotineiras operações policiais, que, invariavelmente, terminam em intensos tiroteios. As escolas públicas da região – sete creches, seis Espaços de Desenvolvimento Infantil (Edis), oito Cieps e 10 escolas municipais, fora as Escolas do Amanhã, que vem sendo inauguradas pela Prefeitura – funcionam de acordo com o horário do bangue-bangue.

Em meio ao caos local e as balas perdidas, um canto chama a atenção, pelo colorido e beleza. São os desenhos dos alunos da Oficina de Grafite, expostos na parede que dá acesso a ONG, que funciona num sobrado, em cima de uma loja de móveis. É uma verdadeira exposição a céu aberto. É através da arte que o Vida Real vem conseguindo resgatar jovens em situação de risco. A ponte para uma vida melhor vem sendo construída, há 12 anos, através da Educação.

“Participar do reforço escolar é obrigatório, independente do aluno estar mal na escola”, explica Tião, comentando que o reforço escolar, junto com Informática, é o carro-chefe do trabalho da ONG. As outras oficinas os alunos escolhem o que querem fazer. Tião é rigoroso na disciplina porque conhece o tamanho do desafio: “já fui traficante e gerente de boca de fumo por 12 anos”, conta, lembrando que largou a vida do crime e passou a se dedicar a “salvar” as crianças da Maré.

Alunos na aula de reforço do Instituto Vida Real, na Maré
Alunos na aula de reforço

O início não foi nada fácil. O espaço era exíguo – uma loja de 30 metros quadrados, onde cabiam apenas 25 crianças. “Começamos com o reforço escolar e palestras sobre droga, família, sexo. Ao todo, 50 alunos, que dividíamos em duas turmas, nos horários da manhã e da tarde. “Consegui carteiras escolares, quadro negro”. Só que praticamente toda a turma era formada por crianças em situação de risco e, temerosos com a presença da polícia na área, começaram a evadir da escola. Como muitos dos policiais já haviam abordado os meninos, a solução foi negociar com o comandante do Batalhão da PM para que fizesse uma escala de patrulhamento. Funcionou. Desde então, os policiais deixaram de passar na rua do Vida Real, no período de funcionamento da ONG. “Imediatamente os alunos voltaram à sala de aula”.

Hoje, o Vida Real oferece cursos de grafite, design, música (canto e instrumento), fotografia e cinema. Além de oferecer terapia comunitária e atendimento psicológico (com direito a divã). À disposição dos alunos uma biblioteca com quatro mil títulos. “Somos referência, não atendemos somente à comunidade. Ainda ganhei espaço em Parada Angélica, Caxias, onde não existe projeto social”, diz Tião, que vai montar a primeira filial do instituto fora da Favela Nova Holanda, já que mantém dois pólos de informática dentro do Complexo da Maré, onde o foco são os idosos. “Temos 40 alunos, um deles com 92 anos de idade.

Jovens que estavam no tráfico e não estão mais, e os jovens que não entraram no mundo do crime por causa da gente. Hoje são pais de família e trabalham dignamente. Estão na faculdade, passaram em concursos da Petrobras

Apesar de contar com apoio financeiro de diferentes entidades, a ONG foi obrigada a reduzir o número de alunos. Há seis meses, a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) e a Prefeitura suspenderam o repasse de verbas. Outra consequência foi o atraso no pagamento do aluguel da sede, que está com três meses de atraso. “Hoje atendo 150 pessoas, mas já chegamos a ter 250 alunos inscritos”. Já atendi 3,2 mil alunos no decorrer desses anos, com 85% de aproveitamento. “Jovens que estavam no tráfico e não estão mais, e os jovens que não entraram no mundo do crime por causa da gente. Hoje são pais de família e trabalham dignamente. Estão na faculdade, passaram em concursos da Petrobras”. A entidade trabalha com 22 funcionários, entre professores, psicólogos e assistentes sociais.

Wilson Aquino

Wilson Aquino é repórter e autor do livro Verão da Lata (editora Leya)

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Um comentário em “Educação: arma contra o crime

  1. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    A educação e a arte são os instrumento da criação, o meio que pode permitir os jovens das comunidades inventarem uma vida diferente da que já conhecem, onde os limites são estreitos e os riscos elevados. É muito estimulante conhecer esta história, principalmente quando ficamos sabendo que o Tião que inventou esta saída viveu a experiência de estar integrado e imerso nos limites e nos risco. Nenhum outro nome seria mais fidedigno e adequado a este projeto.

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