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As 10 pragas que assolam as universidades

Em meio à maior crise da história, ensino superior brasileiro terá um 2018 repleto de incertezas


Estudantes de universidades públicas protestam contra os cortes de verba. Foto Alessandro Pereira da Silva/Citizenside
Estudantes de universidades públicas protestam contra os cortes de verba. Foto Alessandro Pereira da Silva/Citizenside

Professores, técnicos administrativos e estudantes de universidades brasileiras dão adeus a 2017 sem um pingo de saudade. Mas 2018 começa com nuvens tão ou mais carregadas no horizonte. O ensino superior no país vive a maior crise da história, por fatores diversos. Da asfixia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que vira o ano devendo três salários, às demissões em massa em instituições privadas, como a Universidade Estácio de Sá, passando por espetaculosas operações policiais nas federais de Santa Catarina (UFSC) e de Minas Gerais (UFMG) e pelos inéditos cortes de verbas, muitos foram os alvos de manifestações de pesquisadores, no Brasil e no mundo.

Mas o que está por trás desta crise? Ou não seria melhor chamarmos de crises? Algumas têm pontos em comum. Outras têm origens diversas. Mas, se levarmos em conta os impactos profundos que trazem ao futuro do país, todas se assemelham a pragas bíblicas, como as que devastaram o Antigo Egito. Vamos a elas:

1 – Orçamentos caíram ao menor nível em 20 anos

Universidade não é gasto, é investimento. Pelo menos, assim deveria ser tratada, já que é no ensino superior que estão os laboratórios de pesquisa de ponta, aqueles que permitem ao país avançar no desenvolvimento de novos medicamentos, tecnologias de exploração de petróleo, ganhos de produtividade no campo que põem mais comida em nossas mesas. Mas, nos últimos dois anos, as universidades foram para o fim da fila de prioridades.

O orçamento destinado a custeio e investimento (excluídas aí despesas obrigatórias e reservas de contingência) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) é de R$ 4,7 bilhões para 2018, 25% menos do que o valor de 2017. Para as universidades públicas federais, os recursos de custeio (limpeza, segurança, manutenção etc.) estão em patamar 20% inferior aos de 2014, e os previstos para investimento foram cortados em mais de 80% em relação ao mesmo ano. Isso apesar de a proposta original para a pasta, de apenas R$ 2,7 bilhões, ter sido alterada após mobilização de entidades científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e manifestação pública de dezenas de Prêmios Nobel endereçada ao presidente Michel Temer. Claro, estamos falando de previsão orçamentária: na hora em que o cinto aperta, ciência e tecnologia estão sempre entre as primeiras áreas a ter verbas contingenciadas.

A desculpa da crise é sempre acionada pelo Planalto, mas não se sustenta diante de uma análise mais detida. Historicamente, países em crise ampliam investimentos em C&T e infraestrutura justamente para obter ganhos de produtividade, o que ajuda a impulsionar o setor privado, reaquecendo a economia.

Na Avenida Paulista, estudantes protestam contra a redução no volume de verbas para a educação. Foto Cris Faga/NurPhoto
Na Avenida Paulista, estudantes protestam contra a redução no volume de verbas para a educação. Foto Cris Faga/NurPhoto

2 – Cortes em bolsas e financiamento estudantil

O Programa Universidade para Todos (ProUni), criado em 2005, até cresceu: foram 361 mil bolsas oferecidas em 2017, contra 306 mil em 2014. O problema é que a ociosidade também cresce, em ritmo acelerado. No segundo semestre de 2017, ficaram ociosas 77 mil das 147 mil vagas anunciadas. O problema é que a bolsa só é integral para quem comprova renda familiar bruta de até 1,5 salário mínimo. Acima disso, até três salários mínimos, concorre-se a uma bolsa parcial, mas o alto custo das mensalidades afasta grande número de candidatos. Além disso, a crise econômica fez muitos jovens pararem os estudos para ingressar no mercado de trabalho, geralmente em ocupações precárias. A expectativa, segundo o estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens, elaborado pelo Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia (Insper), era que, até o fim de 2017, um em cada quatro estudantes abandonaria o Ensino Médio, o equivalente a quase 3 milhões de adolescentes entre 15 e 17 anos. Com isso, cai a demanda por vagas nas universidades, acarretando um custo impagável para o país no longo prazo: a desqualificação crescente da mão de obra nacional.

Somam-se a isso os cortes no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que em 2017 reduziu em 40% o número de vagas. Ok, o programa, criado em 1999 na administração Fernando Henrique Cardoso e ampliado nos governos Lula e Dilma, tinha todo tipo de problemas. Estatizou o risco de calote, impondo taxas bancárias bilionárias ao Ministério da Educação e ajudando a colocar alguns dos empresários de universidades privadas na lista de bilionários da revista Forbes. O presidente Temer chegou a classificar o Fies como “insustentável”, mas ainda assim prometeu 310 mil vagas para 2018. O total de vagas ociosas, no entanto, tem sido alto, pelos mesmos motivos do ProUni. O pico de adesões foi em 2015, quando 287 mil estudantes se matricularam em universidades privadas graças ao Fies, pagando juros subsidiados. Em 2015, reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revelou que o gasto com Fies cresceu 13 vezes, totalizando R$ 13,4 bilhões, embora o número total de matrículas no ensino privado tivesse recuado. Segundo diagnóstico elaborado pelo Ministério da Fazenda, o governo deveria se preparar para um calote de 50% num programa que custaria, até 2044, nada menos que R$ 77 bilhões. Isso sem considerar nenhum novo aluno no programa. Em 2015, foram 1,9 milhão de matrículas em instituições privadas de ensino superior bancadas pelo Fies, superando pela primeira vez o total de matrículas em universidades públicas (1,8 milhão). Mas ai de quem propõe ampliar a oferta de vagas na rede pública, em tempos de discurso privatista.

3 – Fomento desapareceu

Durante os governos Lula e Dilma, a pesquisa científica tornou-se fortemente dependente de editais das agências de fomento. Esse dinheiro secou. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), principal financiador público, cancelou chamadas regulares e atrasa, há mais de dois anos, o pagamento de diversos editais conquistados por pesquisadores. Em agosto de 2017, o presidente do CNPq, Mario Neto Borges, informou que não havia dinheiro sequer para pagar os cerca de 90 mil bolsistas de pós-graduação e iniciação científica e 20 mil pesquisadores. O governo cedeu e descontingenciou parte dos recursos, mas as bolsas vêm sendo pagas com atrasos.

Para 2018, a situação será ainda pior. Com o orçamento aprovado pelo Congresso no dia 13 de dezembro, os recursos do CNPq recuam de R$ 1,6 bilhão em 2017 para R$ 906 milhões. O maior corte se dará na rubrica de desenvolvimento científico, cuja verba cai para menos da metade, de R$ 1,3 bilhão para R$ 640 milhões.

Os cortes orçamentários para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que gerencia a maioria das bolsas de pós-graduação e editais de cooperação internacional, serão de 20%. Outros órgãos afetados pela tesoura do Planalto são a Finep, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), os Institutos Nacionais de C&T (INCTs), além de vários programas no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o apoio geral a projetos de pesquisa e de infraestrutura e iniciativas como a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

As fundações de amparo à pesquisa dos estados encontram-se em situação ainda mais crítica. A Faperj deve nada menos que oito meses de bolsa a cerca de 400 professores da UERJ. A chamada bolsa Prociência é renovada a cada três anos em um concorrido processo seletivo, exigindo dedicação exclusiva e altos índices de produtividade acadêmica. As incertezas quanto ao pagamento de editais já concedidos prejudicam uma série de pesquisas de alto impacto para a vida da população, como a que busca desenvolver uma vacina contra a zika e a chinkungunya. A situação evolui como bola de neve. Em 2016, a Faperj já devia mais de R$ 170 milhões em auxílios à pesquisa. Em 2017, dos R$ 537 milhões do orçamento da fundação, apenas R$ 202 milhões foram desembolsados até o fim de novembro.

Alunos, professores e funcionários da UERJ prometem resistir. Foto Tasso Marcelo/AFP
Alunos, professores e funcionários da UERJ prometem resistir. Foto Tasso Marcelo/AFP

4 – Roubalheira e gestão temerária quebram estados

A euforia com megaeventos esportivos levou a uma onda de grandes obras de infraestrutura por todo o país, alimentando o caixa dois eleitoral e esquemas bilionários de propinas para direcionamento de licitações. Alguns estados foram mais fundo na corrupção e no descontrole das contas públicas, como o Rio de Janeiro, que, em tempos de bonança, chegou a usar dinheiro de royalties do petróleo para cobrir rombo de seu fundo de previdência.

Relatório do Tribunal de Contas do Estado divulgado em 2016 revelou que o governo do Rio abriu mão de R$ 138 bilhões em impostos apenas entre 2008 e 2013. Este número é bem maior, já que a política de renúncias fiscais continuou beneficiando indiscriminadamente os mais diversos setores, de petróleo a joalherias. Para Lucieni Pereira, diretora da Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil, faltam transparência e credibilidade às informações. Com isso, o orçamento estadual se transforma em uma peça de ficção.

O resultado dessa política de terra arrasada é a fragilidade das universidades públicas, sobretudo das estaduais, que passam a ter que gerir suas atividades com repasses de recursos cada vez mais incertos. O colapso administrativo é mais pronunciado na UERJ, mas também preocupa a comunidade acadêmica de instituições estaduais de ensino superior de Paraíba, Paraná, Goiás, Rio Grande do Norte, Bahia, Rio Grande do Sul.

Servidores da UERJ só receberam o 13º salário de 2016 no dia 21 de dezembro de 2017, um ano depois do previsto em lei, sem qualquer correção monetária. Muitos passam necessidades e dependem da ajuda de amigos e parentes e enfrentam filas para receber cestas básicas distribuídas por sindicatos e outras entidades. O pagamento de salários chegou a acumular quatro meses de atraso, sendo condicionado a operações de crédito que terão impacto fiscal ainda maior no longo prazo.

5 – Reforma trabalhista traz precarização ao setor privado

O governo Temer disse que a reforma trabalhista traria flexibilização e criaria empregos, mas alguém acreditou? Só os mais ingênuos devem ter se surpreendido com o anúncio da demissão de 1,2 mil dos 10 mil professores da Universidade Estácio de Sá, em dezembro de 2017. A instituição alegou dificuldades decorrentes da redução do financiamento de bolsas estudantis pelo governo federal, só que o Ministério Público do Trabalho não comprou essa versão e pediu a suspensão dos cortes em caráter liminar, relacionando-os à reforma trabalhista, que permite reduzir o custo da mão de obra de forma inédita. As demissões, no entanto, foram logo liberadas em instância superior, e professores de universidades privadas temem que o corte passe a balizar políticas de gestão de pessoal de agora em diante.

Na sequência, houve anúncios de diversos cortes em outras instituições, como Anhembi Morumbi (150 demissões de um total de 1,1 mil professores), UniRitter (128), Mackenzie (cerca de 100), Castelo Branco (78, o equivalente a 16% do total), Metodista (mais de 50) e PUC Minas (mais de 50). Na Metodista, foram dispensados 10 dos 12 professores que formavam o Programa de Pós-Graduação em Comunicação, um dos mais tradicionais do país, que deveria estar comemorando 40 anos de fundação. Os salários vinham sendo pagos de modo irregular e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) não era depositado há mais de um ano. A Universidade Católica de Brasília anunciou, em outubro de 2017, o fechamento de seu mestrado em Comunicação (bem avaliado pela CAPES, com nota 4) a partir de 2019. Em dezembro, demitiu três de seus professores doutores.

Professores temem ser contratados segundo as regras de trabalho intermitente, não mais pelas Consolidações das Leis do Trabalho (CLT). Assim, receberiam apenas se estivessem em sala de aula, perdendo direitos como férias e folgas remuneradas. Como a nova legislação trabalhista veda a recontratação em nova modalidade em menos de 18 meses, os demitidos deverão ter mais dificuldade para se recolocar do que em anos anteriores. A tendência é que as vagas que não forem fechadas sejam oferecidas para jovens ainda em formação, mais baratos e ansiosos para se inserirem num mercado de trabalho cada vez mais limitado.

6 – Setor público vira bode expiatório

Professores de universidades federais são vistos por muita gente como marajás que têm a vida resolvida. Estudos como o do Banco Mundial, que apontou diferença média de 67% no rendimento médio do setor público brasileiro em relação ao privado, a maior do mundo, não ajudam a esclarecer a realidade no mercado de trabalho nas instituições de ensino superior. A média de rendimentos do setor público, segundo o levantamento, é de R$ 44 mil ao ano, contra R$ 26 mil do setor privado. Estamos falando, portanto, de servidores que ganham, em média, pouco mais de três salários mínimos por mês. Ou seja, os trabalhadores da iniciativa privada é que ganham, em média, muito pouco: dois salários mínimos.

Neste cenário, um professor com salário inicial de R$ 9,5 mil realmente pode ser visto como um privilegiado. O que não se leva em conta é que, para chegar a esse rendimento, é preciso ter passado por mestrado e doutorado (concluídos em, no mínimo, seis anos de estudos), passar num concurso público (alguns com quase uma centena de candidatos por vaga) e manter dedicação exclusiva à universidade. Enquanto isso, nas universidades privadas, a maioria dos professores tem apenas licenciatura ou especialização. Às vezes, assumir uma vaga em universidade federal significa ir morar do outro lado do país, sem direito a auxílio-moradia e outros penduricalhos comuns no Judiciário. É como um médico: se não ganhar bem, ele vai embora para outro(s) emprego(s).

Mais um exemplo perverso de dados maquiados pelo Banco Mundial veio em novembro, quando outro relatório recomendou o fim do ensino superior gratuito no Brasil. A alegação central era de que 65% dos estudantes destas universidades pertenceriam aos 40% mais ricos da população. Estes dados, no entanto, são contestados por especialistas. Num país extremamente desigual como o Brasil, falar em “40% mais ricos” significa misturar uma elite de altíssima renda com famílias com rendimento de dois salários mínimos. Pesquisa divulgada em dezembro pelo projeto World Wealth and Income Database (WID) mostra que 90% da população brasileira ganham abaixo da média nacional, que é de R$ 37 mil anuais, cerca de três salários mínimos mensais. Pesquisa do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), publicada em 2016, revela que, em 2014, 51,4% dos estudantes de graduação nas universidades públicas federais pertenciam a famílias com renda bruta de até três salários mínimos. Apenas 10,6% integravam famílias com renda bruta superior a dez salários mínimos.

Esse papo de “quem pode paga mensalidade” não fica de pé se considerarmos todo o avanço na inclusão dos mais pobres no ensino superior ao longo dos governos Lula e Dilma. Acabar com a universidade pública traria um retrocesso sem precedentes em termos de exclusão social.

E é no mínimo curioso que os defensores da cobrança sempre mirem nos Estados Unidos, país que tem enfrentado sérias dificuldades educacionais, devido ao custo proibitivo do ensino superior privado, dependendo fortemente de mão de obra importada – daí os famosos sorteios de green cards. Enquanto isso, ignoram-se iniciativas como a da Alemanha, que em 2014 acabou com toda cobrança em universidades, inclusive para estrangeiros, e hoje é o quarto destino mundial mais procurado por estudantes.

Alunos, amigos e parentes no velório do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier. Foto UFSC
Alunos, amigos e parentes no velório do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier. Foto UFSC

7 – Polícia Federal protagoniza espetáculos midiáticos

Em meio a megaoperações contra a corrupção, a Polícia Federal elegeu um novo alvo: as universidades públicas. Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, o jurista e professor Luis Carlos Cancellier Olivo foi preso em 14 de setembro de 2017, acusado de obstruir investigações sobre suposto desvio de verbas em um programa de ensino a distância que envolvia investimentos da ordem de R$ 80 milhões, em gestão anterior à sua. Afastado do cargo, foi linchado publicamente pela imprensa e proibido até de entrar no campus, sem que quaisquer provas ou indícios tenham sido apresentados. Deprimido e humilhado, suicidou-se num shopping de Florianópolis.

O mesmo script de chamar a imprensa para cobrir operações policiais em um campus foi seguido à risca pela PF na Universidade Federal de Minas Gerais, em dezembro. O reitor, Jaime Arturo Ramirez, e a vice-reitora, Sandra Goulart Almeida, foram conduzidos coercitivamente para depor em investigação de supostos desvios da ordem de R$ 4 milhões nas obras do Museu de Anistia Política. O nome da operação, Esperança Equilibrista, foi tomado emprestado de um verso da música “O bêbado e a equilibrista”, hino contra a ditadura assinado por João Bosco e Aldir Blanc, que repudiaram o uso indevido. A Comissão da Verdade de Minas Gerais e 11 ex-reitores da UFMG divulgaram notas com críticas à operação, denunciada como “ataque de conservadores autoritários”.

Provavelmente, há irregularidades em muitas contas de universidades públicas, até porque, em geral, as instituições são geridas por professores sem qualquer formação na área de Administração. O problema é quando tudo vira alvo de suspeita e operações espetaculosas. O resultado disso é uma resistência de professores sérios a assumir cargos administrativos, o que, em médio prazo, pode inviabilizar a gestão universitária.

8 – Grupos de pressão tentam interditar o debate acadêmico

Em 29 de novembro de 2017, pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) que participavam do seminário “Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” no campus, em Belém, foram surpreendidos pela truculência do prefeito de Senador José Porfírio, Dirceu Biancardi (PSDB), que arregimentou um grupo de 40 servidores e vereadores e, com o deputado estadual Fernando Coimbra (PSD), ocupou o auditório e impediu a apresentação dos resultados de um estudo nas comunidades afetadas pela hidrelétrica de Belo Monte e que enfrentam, agora, nova ameaça: a instalação do maior projeto de extração de ouro a céu aberto do país, capitaneado pela mineradora canadense Belo Sun. Professores, pesquisadores e estudantes foram trancados pelo grupo no auditório por 40 minutos.

Não é um fato isolado: em 25 de outubro, manifestantes de extrema-direita invadiram um evento acadêmico sobre os 100 anos da Revolução Russa, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em História da UERJ. Ameaçaram professores e alunos e gritaram palavras de ordem pedindo a volta da ditadura militar no Brasil.

Mas talvez o episódio que mais tenha repercutido na imprensa e nas redes sociais foi a agressão à filósofa americana Judith Butler, pensadora de questões relacionadas a gênero e feminismo, no dia 10 de novembro. Judith foi atacada no Aeroporto de Congonhas, depois de uma semana de atividades na capital paulista, onde lançou um livro na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e participou de um seminário sobre democracia no Sesc Pompeia. Em frente ao Sesc, manifestantes conservadores atearam fogo a uma boneca de bruxa.

Grupos de interesse ganharam força de mobilização graças às redes sociais, potencializando ações (muitas vezes, estúpidas) de forma inédita. A tática mais comum dos extremistas – e dos lobistas – é tentar interditar o debate. Como a academia é, por excelência, o espaço da reflexão, da crítica e do contraditório, torna-se um alvo privilegiado.

9 – Universidade passa a ser vista como “planilha cara”

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, costuma dizer a interlocutores que a UERJ é uma “planilha cara”. De fato, é como uma cidade de pequeno porte: em seis campi distribuídos por cinco municípios fluminenses, oferece 33 cursos de graduação, 54 de mestrado, 42 de doutorado e 142 de especialização. Contabiliza 32.220 estudantes de graduação, dos quais mais de 29 mil na modalidade presencial, mais cerca de 4 mil em cursos de mestrado e doutorado, outros 2 mil em cursos de especialização, além dos 1,1 mil nos ensinos fundamental e médio matriculados no Instituto de Aplicação, o CAp-Uerj, de acordo com o último censo interno. Conta com 2.977 professores, a maioria absoluta (2,2 mil) com doutorado, e 4.519 funcionários. Administra, ainda, dois centros médicos de atendimento e pesquisa: o Hospital Universitário Pedro Ernesto, com mais de 500 leitos, 10 mil internações e mais de 180 mil consultas ambulatoriais especializadas por ano, e a Policlínica Piquet Carneiro, responsável por mais de 200 mil consultas e cerca de 8 mil cirurgias ambulatoriais por ano.

Ainda assim, a tropa de choque de Pezão na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) rebate as queixas de falta de recursos para o custeio desta pequena cidade, levantando suspeitas de irregularidades sobre a folha de pagamentos da universidade. Uma CPI da UERJ foi criada em março de 2017, por iniciativa do deputado Gustavo Tutuca (PMDB), duas vezes secretário de Ciência e Tecnologia, pasta à qual a universidade está subordinada. Bastaria uma busca rápida na internet para descobrir que todos os professores têm suas atividades detalhadas no site da instituição, com dados atualizados a cada semestre, desde 2014.

O embate entre a UERJ e o governo chegou a tal nível que, diante da greve pelo atraso no pagamento de salários, Pezão anunciou que cortaria… 30% dos salários de professores e técnicos. Detalhe: só os técnicos administrativos estavam em greve. As aulas estavam suspensas pela Reitoria, por falta de condições mínimas de funcionamento da universidade, como limpeza, segurança e manutenção de equipamentos. A Procuradoria Geral do Estado entrou em campo para dissuadir o governador, alertando para a total ilegalidade da medida, enquanto Pezão era ridicularizado nas redes sociais.

Infelizmente, a situação de embate entre universidades e governantes se repete em outros estados. No Paraná, o governador Beto Richa entrou em rota de colisão com a academia ao acabar com a autonomia financeira das instituições estaduais, além de cortar verbas de custeio e professores substitutos de três delas. Na Paraíba, o governador Ricardo Coutinho também reteve recursos da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e impediu progressões docentes. Já a Universidade Estadual Paulista (Unesp), sem verbas em caixa, não pagou o 13º salário de 2017 na data estabelecida por lei.

A situação é pior nas universidades estaduais, devido à queda das receitas com a mais grave recessão econômica da história e à percepção de muitos governantes de que oferecer ensino superior não é dever dos estados, e sim da União, uma leitura enviesada da Constituição de 1988. O parágrafo 3º do artigo 211 do Capítulo III (que versa sobre Educação) teve sua redação alterada por Emenda Constitucional, em 1996: “Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio”. Mas “prioritariamente” não é o mesmo que “exclusivamente”, nem serve de carta branca para o desmonte de universidades.

O presidente da Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem) e reitor da Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná), Aldo Nelson Bona, destaca que “as universidades têm papel relevante na dinamização das economias regionais”: “O caso do Paraná pode ser considerado emblemático, porque há uma rede com sete universidades estaduais, regionalmente bem distribuídas, que se encontram em cidades do interior, cujo desenvolvimento é estreitamente atrelado à importância dessas instituições”. São cidades universitárias, que têm sua dinâmica econômica movimentada pelos milhares de estudantes, professores e técnicos que ali vivem. Valeria fazer o cálculo sobre o impacto destas instituições para os PIBs estaduais. Talvez assim deixasse de prevalecer essa visão míope de que universidade é gasto, não investimento.

10 – Carreira acadêmica deixa de ser opção – de novo

Manifesto da SBPC, divulgado em dezembro, alerta que, diante da política de sucessivos cortes orçamentários para ciência e tecnologia, “é alto o risco de laboratórios de pesquisa serem fechados, pesquisadores deixarem o país e jovens estudantes abandonarem a carreira científica”. Países desenvolvidos, mas pouco populosos, como Canadá e Austrália, mantêm políticas agressivas de atração de mão de obra qualificada. Corremos o risco de uma evasão de cérebros comparável apenas aos períodos da ditadura militar, quando muitos pesquisadores foram (compulsória ou voluntariamente) para o exílio, e do governo FH, quando o congelamento de salários e bolsas por oito anos desestimulou milhares de jovens a seguir carreira acadêmica.

Se a carreira se torna menos atraente, a tendência é termos quadros cada vez piores nas universidades. E, sem massa crítica, perdemos um espaço importante para pensar em um projeto de país. Não um projeto gestado pelos think tanks patrocinados pelos banqueiros internacionais, mas sim um projeto democrático, inclusivo e que busque dar conta de tantas mazelas que sequestram o futuro do país (a pobreza, a fome, a desigualdade no acesso à educação, a privatização da saúde e da seguridade social, o patrimonialismo, o sistema político oligárquico, o descontrole dos negócios da mídia e das igrejas eletrônicas, a intolerância, a ineficiência em setores da administração pública, o caos na segurança pública e nos índices de violência etc.). É nas universidades – não apenas as públicas, mas todas as que compreendem a importância do trinômio ensino-pesquisa-extensão – que as saídas para estas mazelas podem e devem ser pensadas, balizando políticas públicas. Só assim para nos livrarmos dos dias de escuridão e das nuvens de gafanhotos, entre outras pragas bíblicas que devastam não apenas o ensino superior, mas todo o país.


Escrito por Marcelo Kischinhevsky

Marcelo Kischinhevsky

Jornalista, professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, onde coordena o AudioLab, é bolsista Prociência/FAPERJ.

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2 Comentários

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  1. Privatiza já. Pelo fim das universidades públicas. Antro de pilantras de esquerda. Eles é que destruíram as universidades públicas. Chega de desperdício de dinheiro.

  2. Meu caro Zé…. Desejo a vc muita saúde e que jamais seja acometido de doenças complicadas ou que sejam específicas do nosso meio-ambiente – coisas de pesquisa que não interessam aos de outros países/meio-ambiente. Ou ainda males que exijam manipulação de equipamentos tecnológicos sofisticados a serem operados por especialistas também treinados na leitura dos resultados. E que tenha muita, muuuuuuuuita, muita grana mesmo grana para se tratar no exterior. Ou talvez seja melhor ir morar lá em cima e esperar até a terceira geração (ou mais) para ter plenos direitos civis!

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