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Teresópolis, a número um em segurança

A 90 km do Rio, cidade tem o controle social da violência como uma das suas armas secretas


O Dedo de Deus é uma das garantias simbólicas de segurança na Região Serrana. Foto Custódio Coimbra
O Dedo de Deus é uma das garantias simbólicas de segurança na Região Serrana. Foto Custódio Coimbra

A pouco mais de 90 km ou a menos de uma hora e meia de viagem do conflagrado Rio de Janeiro, município obrigado a recorrer a tropas federais para garantir o direito de ir e vir do cidadão, Teresópolis, na Região Serrana, ocupa o primeiro lugar no ranking das cidades mais pacíficas do estado, conforme dados do Atlas da Violência, recém divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).  O mesmo estudo situa a cidade em décimo lugar entre as 30 mais tranquilas do país. De acordo com o censo de 2016 do IBGE, Teresópolis tem 174 mil habitantes.

Nos últimos 45 dias, tivemos apenas quatro roubos a transeuntes. Todos se sentem pertencentes. Mesmo em épocas de crise, 80% de nossa frota estão rodando

Marco Aurélio Santos
Comandante do 30º BPM

Um analista mais romântico poderia atribuir a privilegiada posição, seguida nessa ordem por Petrópolis e Nova Friburgo, também na Região Serrana, à presença do Dedo de Deus na cidade, um dos monumentos geológicos da Serra do Mar cujo ‘indicador’, um pico de 1.692, aponta para o céu a partir de uma suposta mão.

Brincadeiras à parte, apesar de não aprofundar pesquisas sobre cada município, o coordenador do Atlas da Violência, Daniel Cerqueira, se confessou intrigado com este resultado e elenca três suposições que contribuem para justificá-lo, a começar pelo que chama de Controle Social da Violência: “Acredito que isso ocorre nas cidades serranas em relação à Baixada Fluminense ou à região Metropolitana do Rio de Janeiro. São famílias e comunidades que se conhecem, atentas à questão da violência, o que pode reduzir as oportunidades para se cometer crimes, bem como comprometer o anonimato daqueles que cometem, por poderem ser identificados mais facilmente”, avalia.

A pesquisadora Fátima Valença se sente bem mais segura na Serra do que no Rio. Foto Arquivo Pessoal
A pesquisadora Fátima Valença se sente bem mais segura na Serra do que no Rio. Foto Arquivo Pessoal

Um segundo motivo diz respeito ao melhor padrão de Desenvolvimento Humano de Teresópolis, onde, assim como as outras duas cidades serranas menos violentas do país, as crianças e jovens estão nas escolas. “Mesmo os mais pobres têm as condições mínimas de uma vida digna, com moradia e trabalho, ainda que em tarefas mais humildes”, contabiliza Cerqueira.

O terceiro seria a ação limitada do crime organizado. “No Grande Rio existem áreas densamente povoadas, onde se misturam a miséria, a falta de oportunidades e a ação ostensiva de grupos do crime organizado, sejam milícias ou traficantes. Nessas localidades, esses grupos vicejaram na falta de políticas públicas adequadas, na desorganização urbana e no baixo nível de desenvolvimento humano”, analisa. Embora admita que também existam grupos de narcotraficantes em Teresópolis, Petrópolis ou Nova Friburgo, “eles tendem a atuar de forma mais discreta e sem uso extremo da violência, o que poderia gerar reações das comunidades”, pondera o pesquisador.

Não que Teresópolis seja um paraíso. Longe disso. Nascida na cidade serrana, a professora Ana Margareth Scali já teve a casa assaltada há 14 anos por jovens envolvidos com drogas, quando morava perto ao Morro dos Pinheiros. Ela garante que se sente segura durante o dia na cidade, mas não à noite em locais ermos. “Não acho que a sensação de insegurança tenha aumentado. O que acontece em Teresópolis são fatos isolados e não no cotidiano. Talvez não chame a atenção dos criminosos por ser uma cidade pobre, sem indústrias, sem grandes recursos financeiros e sem empresas que gerem empregos”, especula.

Mesmo com a favelização do município, a pesquisadora Fátima Valença se sente bem mais segura na serra do que no Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida. Entre os confortos que passou a usufruir está o uso livre do celular nas ruas ou nos ônibus. Sabe, entretanto, que o risco existe: “Outro dia fui caminhar por um novo trajeto e um morador recomendou que eu voltasse à rua principal, pois havia muitos assaltos por ali”. Ela lamenta a falta de opções culturais, são apenas três peças teatrais por ano e três salas de cinema em shopping, onde só passam blackbusters.  Fátima se assusta mais com o caos na política municipal. O atual prefeito, Mário Tricano (PP), conseguiu uma liminar no Supremo Tribunal de Federal (STF) para assumir o cargo, depois de ter sido impugnado pela Lei da Ficha Limpa por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.

Sistema de metas

No que depender do tenente coronel Marco Aurélio Santos, comandante do 30º BPM, que atua em Teresópolis, a meta para a próxima edição do Atlas da Violência é a ascensão do município ao terceiro lugar entre as cidades mais pacíficas do país. “Nos últimos 45 dias, tivemos apenas quatro roubos a transeuntes”, comemora. Ele adota um sistema de metas, que mantém a tropa motivada e é capaz de localizar cada policial que está na rua. “Todos se sentem pertencentes, além do mais, trabalhamos de forma integrada com a delegacia, o Ministério Público e o juizado. Se aparece algum suspeito, a comunidade nos aciona e temos capacidade de chegar em três minutos ao local solicitado. Mesmo em épocas de crise, 80% de nossa frota estão rodando”, aponta.

O gaúcho Rubeny Júnior, dono da steak house Mano a Mano, elogia a paz do lugar. Foto Arquivo Pessoal
O gaúcho Rubeny Júnior, dono da steak house Mano a Mano, elogia a paz do lugar. Foto Arquivo Pessoal

Quem sente os benefícios desta política é o gaúcho Rubeny Júnior, que, por afinidade ao clima, sempre frequentou a cidade desde que saiu do Rio Grande do Sul. Alugou uma casa confortável há um ano, onde abriu o steak house Mano a Mano, negócio íntimo que só atende por reserva, onde mantém ainda uma pequena hospedaria. “O que se diz aqui é que os bandidos não se criam porque todos se conhecem e a polícia, sei lá por que métodos, sempre acaba pegando os marginais”, observa. “ O local é de uma paz incrível. À noite só se ouve o latir dos cachorros. Quase não passa carro na rua onde moro, mas tenho a sensação de segurança.  Vejo pessoas andando em ruas desertas à noite, e não parecem preocupadas. Mesmo nos bairros mais humildes, nas favelas ou comunidades, não se tem notícia de eventos de violência”, acrescenta.

Outro fã do município é o gestor ambiental, montanhista e artista plástico Maurício Mynssen. “Ando por várias áreas da cidade em montanhas, no interior e em favelas, nunca tive problemas de segurança”, assegura, e atribui a sensação ao fato da polícia, integrada à comunidade, ser atuante não só em repressão, como em prevenção. Em 30 anos de Teresópolis, nunca sofreu um assalto. “É uma cidade pequena, onde quer que você vá encontra pessoas cordiais. Além disso, só existem quatro acessos rodoviários, três deles para cidades vizinhas, o que dificulta possíveis rotas de fuga para criminosos”, diz, e destaca as belezas naturais locais como os parques Nacional da Serra dos Órgãos, Estadual dos Três Picos e Municipal Montanhas de Teresópolis. “Só falta estrutura para explorar isso tudo”, alfineta.

Ciúmes do bem

Petrópolis, por sua vez, que já foi a número um deste ranking, investe para retomar a liderança do bem. O mesmo censo de 2016 do IBGE contabilizou 298 mil habitantes na cidade, onde foi criado, em março, o Conselho Comunitário de Segurança, legitimado pela Secretaria Municipal de Segurança. São dez participantes, entre eles pequenos empresários e comerciantes, com a proposta de aproximar a sociedade civil deste setor. De cara eles enfrentaram o caos: metade da frota de viaturas estava parada por problemas mecânicos, e havia uma quantidade considerável delas sem pneus, o que originou a primeira campanha. O grupo arrecadou dinheiro e comprou 120 pneus para 30 veículos, cada um por R$ 200.

A prestação de contas é feita com a apresentação das notas fiscais. Também foram adquiridas as peças necessárias para fazer rodar 12 viaturas que já estão de volta às ruas. Na última reunião do Conselho, sempre realizada na última segunda-feira do mês, foi comemorada uma vitória: houve uma redução de 33% na incidência de roubos na cidade durante o mês de julho. “Petrópolis promove uma mobilização comunitária exemplar para o Brasil”, orgulha-se um dos participantes do grupo, o advogado Guilherme Lacombe, da Pousada Alcobaça, em Corrêas, distrito de Petrópolis.


Escrito por Celina Cortes

Celina Cortes

Celina Côrtes trabalhou 12 anos no Jornal do Brasil. Transitou entre as editorias de ecologia e cultura, onde foi repórter do Caderno B. Teve uma breve passagem pelo O Globo, como chefe de reportagem dos jornais de bairro, pela TV Bandeirantes e pelo Dia. Trabalhou por 11 anos na revista IstoÉ. É autora dos livros “Ilha da Trindade – veo de mysterio à flor dagua”, “Procura-se um milagre, três mulheres no Caminho de Santiago” e “Útil ao agradável, histórias de amor, humor e boa forma”.

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3 Comentários

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  1. A maior violência que nós Teresopolitanos sofremos é a causada pelo descaso do poder PUBLICO, já que ao longo dos últimos 25 30 anos a qualidade do homem publico caiu desastrosamente, Teresópolis não passa por obras de infraestrutura desde então. Já a violência armada realmente é pequena devido ao excelente trabalho que os homens da Policia Militar vem fazendo, facilitado pela presença no efetivo do batalhão da cidade de pessoas nascida e criada em nossa cidade, assim aproximando as autoridades da população e despertando no Policial uma maior vontade de solucionar eventuais problemas. Com certeza se tivéssemos POLÍTICOS de maior qualidade que não estivessem preocupados somente com interesses obscuros e próprios nossa cidade seria 10x melhor.

  2. Vivi mais d 30 anos em Teresópolis.tive 3 filhos.os criei.tive netos 4.e voltei pro Rio.pq não se consegue trabalho nessa cidade de vc tiver mais de 40 anos.aliás nao existe trabalho pra ninguém nesse lugar.meu filho foi embora do país pra estudar e uma das filhas esta a tempos desempregada .gosto da paz do lugar?gosto.Mas precisamos de trabalho e somos obrigados a sair da cidade pra sobreviver.uma pena.

  3. Concordo com a afirmação acima. Aliás com as duas afirmações. Teresopolis sofre com o total abandono do poder público e não possui trabalho. Emprego aqui, só se você for funcionário da prefeitura( embora não esteja em dia com os salários) , da Fundação Educacional Serra dos Órgãos ou da Auterdata, cujo salários são baixos. Sem nenhuma outra perspectiva. Infelizmente.

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