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Os misteriosos poetas de calçada

Desprovida de charme e poesia, rua degradada do Centro do Rio intriga até historiadores


A placa, que nas outras ruas costuma resumir a biografia do homenageado, na travessa silencia. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
A placa, que nas outras ruas costuma resumir a biografia do homenageado, na travessa silencia. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

Não existe poesia na Travessa dos Poetas de Calçada, um beco de 60 metros que liga no Centro do Rio a rua Treze de Maio com a Senador Dantas, e isso pode ser visto logo numa das entradas, onde um rapaz distribui folhetos com a imagem de uma loura nua, os dotes calipígios arredondados grosseiramente no photoshop. “São as melhores novinhas da cidade”, ele sussurra no ouvido dos homens que passam. Quem quiser ver é só subir ao décimo quarto andar. Quarenta reais.

É uma trilha a céu fechado, um Rio de Janeiro invisível e fora do alcance de drones ou de qualquer câmera do Google Maps. Em cada loja, em cada canto, dobre-se à direita ou à esquerda, reina sobre tudo a mais profunda ignorância a respeito de quem quer que seja, principalmente sobre a que poetas de calçada se refere o nome da travessa.

É só isso, vida real em estado puro, o que acontece na Travessa dos Poetas de Calçada, um beco que não adianta procurar no livro do Brasil Gerson com a história dos nomes das ruas da cidade porque de nada a seu respeito lá consta. Ninguém sabe que poetas são esses, que calçadas são essas, e quem foi que teve essa ideia maluca de sacar poesia onde só há sombras e a mais radical degradação do espaço público carioca.

Não adianta perguntar ao historiador da vida carioca Alexei Bueno. Não sabe. Ele tem passado os últimos anos também intrigado com esse mistério, mesmo que já não passe tanto por lá, como fazia nos tempos idos em que na Travessa dos Poetas de Calçada estavam os melhores pratos de comida árabe da cidade, os que permanecem anunciados ainda hoje, como se fossem versos, na porta do restaurante Al Kuwait: homos bethine, baba ganuch, coalhada seca, repolho recheado, hamesa especial, kafta, tabule, lentilha e, fecho de ouro do poema, o imbatível kibe crú, com direito a acento, muita malícia e azeite. O Al Kuwait, no entanto, está deixando muito a desejar gastronomicamente – e Alexei Bueno não tem entrado na travessa.

Todo mundo passa por ali, é um dos pontos mais centrais da cidade, mas poucos reparam na placa, uma raridade no GPS do Rio. Ela não puxa o saco de qualquer vulto esquecido da história, como o tal Senador Dantas (governador sem brilho da Bahia no século 19), ou muito menos vibra uma homenagem a uma data já assaz lembrada, como a épica Treze de Maio. A placa, que nas outras ruas costuma resumir a biografia do homenageado, na travessa silencia.

O que se vê é só buraco por todo lado, o que se sente é só o cheiro de gordura das lanchonetes. Foto Joaquim Ferreira dos Santos
O que se vê é só buraco por todo lado, o que se sente é só o cheiro de gordura das lanchonetes. Foto Joaquim Ferreira dos Santos

Nos anos 70 aquela região ficou cercada pelas obras do metrô e um rapaz chamado Gilson de Abreu Marinho, para humanizá-las, escrevia poemas com giz nos tapumes. Seria ele? Drummond trabalhava três ruas adiante, no prédio do Ministério da Educação, e uma vez transformou em poesia a loucura de ter feito sexo com uma amante na escada do prédio federal. Mais para baixo, no Castelo, morou Manuel Bandeira, que um dia julgava estar vendo no pátio do prédio um bicho catando comida, mas olhou melhor e, como todos leram no poema, viu que era um homem. Seriam eles?

Há quem veja poesia no fato de a travessa ter na esquina com a Treze de Maio uma boate gay de um lado e a tradicional rouparia masculina Scotsman do outro, um contraste de intenções que continua na esquina com a Senador Dantas porque lá está a loja Cacau Negro de um lado, enquanto do outro pisca dia e noite a claridade de abajures de uma loja de luminárias.  Procura-se na travessa uma poesia qualquer que justifique seu nome, mas onde?

O que se vê é só buraco por todo lado, o que se sente é só o cheiro de gordura das lanchonetes (joelho de porco por R$ 6,50), o que se ouve é só o som do cd de Nelson Ned saindo de uma das quatro bancas de jornal do Beto, em menos de 100 metros, na Treze de Maio. Nenhuma delas vende cd de Sérgio Sampaio, aquele que cantava “Um livro de poesia na gaveta não adianta nada/ Lugar de poesia é na calçada”.

Para quem ainda não acertou exatamente o GPS, a travessa de que se está falando, desses poetas desconhecidos que um dia passaram pelas calçadas do Centro, fica em frente à esquina da Treze de Maio com a Manuel de Carvalho, nos fundos do Teatro Municipal. É a menor rua do Centro – se é que ainda pode ser chamada de rua uma rua, como a Manuel de Carvalho, em que ninguém passa mais. A administração do teatro simplesmente colocou grades, botou dois seguranças de prontidão, e acabou com a dança do pedestre que usava aqueles 40 metros de rua para atravessar da Treze de Maio para a Rio Branco. O espaço público naquela região do Centro é de quem pegar primeiro – e se a polícia chegar, se o bandido chegar antes, eis que, sebo nas canelas, a Travessa dos Poetas de Calçada oferece uma solução.

A Travessa é um esconderijo que dá a chance aos seus conhecedores de se meterem pelos caminhos em frente, pelas dobras à esquerda, os cantos à direita, e, como se fossem um submarino argentino, nunca mais serão encontrados. É um cenário perfeito para filmes de perseguição, um labirinto perigoso para quem sofre de labirintite. Numa cidade cercada de perigos por todos os lados é preciso – nunca se sabe, não é mesmo? – dominar com precisão o caminho a que levam aqueles becos, em alguns momentos com menos de um metro de largura. São grutas escondidas no Centro do Rio, as cavernas de Bin Laden esquecidas num paralelo abaixo do Equador. Siga os passos. Perca-se para não ser achado. A Travessa dos Poetas pode ser um roteiro de fuga e sobrevivência.

Se você está descendo a Treze de Maio em direção à Cinelândia, ela fica à direita, entre os prédios de número 33 e 23. Já dentro dela, dobre à esquerda e caia no salão do Edifício Darke, o número 23, joia da arquitetura carioca. Ali, mármore fino, pé direito monumental, você pode dobrar à esquerda e voltar à Treze de Maio, onde dará de cara com uma das bancas do Beto e logo atrás o Municipal. Se dobrar à direita, na direção da Tabacaria Gullo (R$ 88, o Cohiba mais barato), você encontra outra travessa, ainda sem nome, que conduz à Senador Dantas. Se dobrar à esquerda, as chances de nunca mais ser encontrado são maiores. Você vai virar mais duas vezes à esquerda – vá devagar, cuidado com a vertigem do zigue-zague – e, ainda na travessa sem nome, passará por um restaurante a quilo, por um senhor vendendo doces, pelo Espaço Mallu Coiffeur, ratos, um mundo de estupefações subterrâneas. Ao fim da via insalubre, ar rarefeito, você estará num novo endereço, agora na portaria do prédio Barbonos, na Rua Evaristo da Veiga 16, em frente à Câmara dos Vereadores.

É uma trilha a céu fechado, um Rio de Janeiro invisível e fora do alcance de drones ou de qualquer câmera do Google Maps. Em cada loja, em cada canto, dobre-se à direita ou à esquerda, reina sobre tudo a mais profunda ignorância a respeito de quem quer que seja, principalmente sobre a que poetas de calçada se refere o nome da travessa. Não tem importância. É uma das graças da coisa. Mistério sempre há de se perder por ali.


Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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