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Mesas viradas, uma tradição do Carnaval

Desfile das escolas de samba do Rio ganha zero em credibilidade e organização


Chacrinha, o Velho Guerreiro, enredo da Grande Rio, poderia entregar o Troféu Abacaxi para os organizadores. Foto Mauro Pimentel/AFP
Chacrinha, o Velho Guerreiro, enredo da Grande Rio, poderia entregar o Troféu Abacaxi para os organizadores. Foto Mauro Pimentel/AFP

A nova virada de mesa que salvou do rebaixamento a Grande Rio, beneficiou também o Império Serrano e voltou a transformar regulamento em alegoria não representa uma novidade no carnaval carioca. Quase tão tradicional quanto a ala das baianas, a medida vigora muito antes de a Liesa, Liga Independente das Escolas de Samba, assumir, em 1988, a responsabilidade pelo julgamento do desfile. A disputa de 1960 é uma espécie de referência em matéria de vira-virou: cinco escolas – Portela, Mangueira, Salgueiro, Unidos da Capela e Império Serrano – foram declaradas campeãs depois de um acordo que atropelou as notas dos julgadores.  O Departamento de Certames do governo, que organizava a festa, aceitou o conchavo, abençoado por, entre outros, Natal da Portela, bicheiro que evoluía com graça e força no tapetão do samba.

Entre 1971 e 1985, período em que o poder público também mandava na festa, as normas que previam queda de uma ou mais agremiações seria ignorado seis vezes.  Na época, as operações de resgate eram movidas principalmente por interesses políticos-eleitorais – governantes não queriam perder votos em comunidades representadas por escolas de samba

Entre 1971 e 1985, período em que o poder público também mandava na festa, as normas que previam queda de uma ou mais agremiações seria ignorado seis vezes.  Na época, as operações de resgate eram movidas principalmente por interesses políticos-eleitorais – governantes não queriam perder votos em comunidades representadas por escolas de samba. Governador da Guanabara (estado constituído apenas pela cidade do Rio de Janeiro) entre 1971 e 1975 e do Estado do Rio de 1979 a 1983, dono de uma máquina política que marcaria a vida fluminense, Chagas Freitas foi responsável por muitas bondades que salvaram escolas e ajudaram a bagunçar o desfile. No carnaval, fazia questão de que suas fotos beijando as bandeiras de todas as escolas do primeiro grupo fossem publicadas em O DIA – ele era o dono do jornal.

Em 1971, a apuração dos resultados do desfile que consagraria a ‘Festa para um rei negro’ da  Acadêmicos do Salgueiro traria péssimas notícias para Padre Miguel. Suas duas representantes no mundo do samba, a Mocidade Independente e a Unidos de Padre Miguel, tinham ficado nas últimas colocações, e seriam rebaixadas. A leitura das notas foi tensa, representantes da Mangueira e do Império Serrano chegaram a sair do Regimento Caetano de Farias – na época, a abertura dos envelopes era feita em quartéis da Polícia Militar.  Jurado de melodia – um dos quesitos que então compunham a avaliação do samba-enredo (o outro julgava a letra da composição) – o compositor Egberto Gismonti deu sete e oito, respectivamente, para as duas tradicionais escolas. A justificativa dele ainda serviu para irritar mais quem se achava prejudicado. Ao ‘Jornal do Brasil’, ele disse que não teria sentido fazer uma “análise musical”, e que dera a nota baseado na emoção que sentira e na empolgação das escolas.

Foi tanta bronca que Rui Pereira da Silva, diretor de Certames da Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, viria a propor que as escolas passassem a escolher os responsáveis pelo julgamento. Mas, no fim das contas, a turma do movimento dos sem queda entrou em campo, e como no samba campeão de Zuzuca, pegou no ganzê, pegou no ganzá, e manteve as representantes de Padre Miguel no grupo principal.

A virada de mesa que salvou a Grande Rio acabou beneficiando também o Império Serrano. Foto Mauro Pimentel/AFP
A virada de mesa que salvou a Grande Rio acabou beneficiando também o Império Serrano. Foto Mauro Pimentel/AFP

A mesa voltaria a ficar de pernas pro ar em 1974, quando  São Carlos (atual Estácio) e Vila Isabel, últimas colocadas, teriam que amargar a ida para o segundo grupo. Em pleno ano eleitoral, Chagas Freitas não quis saber de confusão. Com a elegância de um mestre-sala, alegou que a mudança de palco – o desfile trocara a Avenida Presidente Vargas pela Antônio Carlos – trouxera dificuldades para as escolas, e que são seria justo punir qualquer agremiação. O então presidente da Federação das Escolas de Samba da Guanabara, Amauri Jório, elogiou a determinação do governador: “Foi uma passarela nova, e os problemas são muitos”, justificou, em entrevista ao jornal ‘O Globo’.

Com a decisão, 12 escolas integrariam o Grupo 1 em 1975, quando haveria uma nova virada.  Unidos de Lucas e Em Cima da Hora deveriam cair, mas ficaram onde estavam – no ano seguinte, que marcaria a primeira vitória da Beija-Flor na primeira divisão, 14 escolas iriam para pista, na época o desfile ocorria apenas no domingo. Quatro anos depois, em 1979, já na Marquês de Sapucaí, seria a vez da Imperatriz Leopoldinense e, de novo,  a Unidos de São Carlos (última colocada) escaparem da degola – no ano seguinte, a escola de Ramos seria uma das três campeãs do carnaval. Em 1981, Vila Isabel e Império Serrano é que trataram de articular sua permanência no Grupo 1A (a denominação da elite foi mudando ao longo dos anos). Em 12 de março de 1981,  ‘O Globo’ assim classificaria a armação: “Samba quer que todos subam e ninguém desça”. A reportagem revelava que 31, dos 44 presidentes de escolas de samba do Rio, haviam decidido, por unanimidade, propor à Riotur, organizadora dos desfiles, que não houvesse rebaixamento em nenhum dos grupos.

Dominada por bicheiros, a Liesa, em sua estreia no comando do desfile, daria uma mãozinha e tanto para a poderosa Imperatriz Leopoldinense, que exibia como patrono o capo Luizinho Drummond. A escola ultrapassara o tempo de apresentação e ficara em último lugar – a liga mandou o relógio às favas

O deputado Miro Teixeira (na época, no MDB) e que, com o apoio de Chagas, seria candidato ao governo no ano seguinte, admitiu a proposta. “Mudar o regulamento não é fato novo”, declarou.  Em outra reportagem, o presidente da Riotur, o compositor João Roberto Kelly disse que o rebaixamento seria uma injustiça – e nenhuma escola caiu. Beneficiado, o Império não fez por menos. Último colocado em 1981, no ano seguinte conquistaria o título com o antológico “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, em que criticava os rumos das escolas de samba. Em 1985 haveria uma virada seletiva – quatro escolas seriam rebaixadas, mas divergências em torno do quesito cronometragem salvariam a pele de apenas uma, a Unidos do Cabuçu.

Em 1988, a Liesa, criada quatro anos antes, logo depois da inauguração do Sambódromo,  assumiu de vez o processo de escolha dos julgadores das escolas que, desde o carnaval anterior, eram obrigados a frequentar um curso que fornecia informações sobre os quesitos. A, vá lá, “iniciativa privada” repetiria os vícios estatais. Dominada por bicheiros, a entidade, em sua estreia no comando do desfile, daria uma mãozinha e tanto para a poderosa Imperatriz Leopoldinense, que exibia como patrono o capo Luizinho Drummond. A escola ultrapassara o tempo de apresentação e ficara em último lugar – a liga mandou o relógio às favas, bancou a zebra e, de quebra, salvou também a Cabuçu, que escaparia outra vez. A Imperatriz repetiria o feito do Império Serrano e, no ano seguinte ao da última colocação, arrebentaria a banca com ‘Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós’ – foi a campeã do Carnaval marcado pelos mendigos da Beija-Flor. Por conta da nova virada, o desfile daquele ano contaria com 18 escolas, nove em cada noite.

O desfile de 1992 foi marcado por uma virada inédita, que não evitou quedas, mas proporcionou uma ascensão. A Acadêmicos de Santa Cruz foi à Justiça e conseguiu uma liminar para desfilar, no Grupo Especial. No ano anterior, a sua apresentação no Grupo A, a segunda divisão da época, ficara sem nota por conta de um blecaute. Foi para pista entre as grandes, mas amargaria o último lugar, e, desta vez, a mesa ficou no lugar. No ano seguinte, quase que a Justiça voltou a ser destaque na Avenida. Tudo por conta do vazamento de escutas telefônicas que indicariam manipulação dos resultados dos desfiles – a Grande Rio seria favorecida em detrimento da Caprichosos de Pilares, que, então, ameaçou melar a festa. As pernas da mesa voltariam a apontar para o teto: “Sambando no ‘tapetão’” foi o título de reportagem de ‘O Globo’ sobre a Unidos da Ponte, que, graças ao protesto da Caprichosos, também ficou na elite. Em 1994, pelo terceiro ano consecutivo, nova mudança. E o Império Serrano e a Unidos da Ponte – esta, bicampeã seguida no quesito virada de mesa – não seriam rebaixados.

O novo século trouxe alguma estabilidade à disputa. Mas, em 2011, um incêndio na Cidade do Samba comprometeu os desfiles de Portela, Ilha e Grande Rio – a Liesa decidiu que as escolas sequer seriam julgadas, não receberam notas. E, mais uma vez, nenhuma delas caiu. O ano de 2017 marcaria a virada dupla, nas duas pontas da tabela – a Mocidade provou que fora prejudicada por um julgador que não tivera acesso a uma versão atualizada do roteiro de seu desfile e conseguiu o direito de, ao lado da Portela, ser reconhecida como campeã. A mudança mais grave beneficiaria a Paraíso do Tuiuti – um dos carros da escola perdeu a direção, atropelou pessoas que estavam na pista, uma delas morreu. Longe de ser punida, a agremiação, que chegaria em último lugar, teve o direito de ficar no Grupo Especial. Um acidente com uma alegoria da Unidos da Tijuca também deixaria feridos.

Na época, a Liesa decidiu que, para compensar o não rebaixamento, duas escolas cairiam em 2018, mas a promessa seria descumprida. Decidida a preservar a Grande Rio, a entidade também estendeu a mão ao Império Serrano – um drible no regulamento que ainda contaria com o apoio da prefeitura e do governo do estado.  Uma viradora que, além de proporcionar perda de pontos no quesito credibilidade, deverá ter consequências no próprio desfile. É provável que seja mantida a presença de 14 escolas – e não mais 12 no Grupo Especial. Enredo da escola de Caxias este ano, Chacrinha ficaria espantado – na Liesa, nem mesmo as sentenças de sua implacável buzina, terror dos calouros, seriam respeitadas. Restaria ao Velho Guerreiro entregar o Troféu Abacaxi para a entidade que representa as escolas e que teima em arrebentar a festa.


Escrito por Fernando Molica

É carioca, jornalista e escritor. Trabalhou na 'Folha de S.Paulo', 'O Estado de S.Paulo', 'O Globo', TV Globo e 'O Dia'; coordenou o MBA em Jornalismo Investigativo e Realidade Brasileira da Fundação Getúlio Vargas. É ganhador de dois prêmios Vladimir Herzog e integrou a equipe vencedora do Prêmio Embratel de 2015. Lançou, este ano, o romance 'Uma selfie com Lenin'.

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